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Marine Le Pen não foi aos U2 em Paris [reportagem + fotos + vídeos do concerto]

O diretor da BLITZ e diretor-adjunto do Expresso, Miguel Cadete, foi a Paris assistir ao concerto de uma das maiores bandas do planeta. Concerto que tinha sido adiado na sequência dos atentados terroristas.

Paris, 21h24. A arena de Bercy está completamente cheia. No site oficial diz-se que a sua capacidade pode ir até vinte mil espectadores. Não serão muito menos aqueles que ontem lá estavam para assistir ao regresso dos U2 à capital francesa. Na maior sala de espectáculos de Paris ouve-se então uma explosão ensurdecedora. Nada de mais, era só o momento em que a apresentação dos U2 passava da parte da Inocência, com que começa, para o capítulo da Experiência, com que termina. Um estrondo que porém não passou despercebido a todos os que ali estavam. Afinal, os U2 voltaram ali porque 23 dias antes morreram 132 "parisienses" durante os atentados de 13 de novembro. 89 foram assassinados por terroristas numa sala de concertos como aquela que apesar dos seus 151 anos de existência, irá ficar como o lugar da maior carnificina da história da música rock.

Entre a missa e o comício Numa entrevista publicada a 2 de dezembro no "New York Times", Bono explica que "Raised by Wolves" tem uma consequência: "Na Irlanda já sabemos que não nos podemos tornar um mostro para aniquilar outro monstro". E acrescentou: "o ISIS e estes cultos extremistas praticam o culto da morte. Nós somos o culto da vida. O rock'n'roll é uma força da vida e é alegria enquanto gesto desafiante". Se isto explicava por si que os U2 fossem a primeira banda a regressar a Paris depois dos atentados, também implicava o que sucedeu na primeira canção do encore, "City of Blinding Lights". Foi o tempo em que Bono gritou "Vive la France", e fez a apologia da nação francesa: "Liberté, Egalité, Fraternité". Mas foi também o episódio que gerou maior comoção quando no mega ecrã surgiram os nomes de todos os que morreram nos atentados de 13 de novembro por cima das três cores da bandeira. Como é costume nesta digressão, os U2 juntam às suas próprias canções, letras e excertos de músicas de outros. A escolha de "Ne Me Quittes Pas", popularizada por Jacques Brel, teve aqui um significado óbvio mas mesmo assim devastador. A música dos U2 tem, ao contrário da carreira dos Rolling Stones, por exemplo, um significado político que escapa a quem é atribuído o estatuto de porta-estandarte do rock'n'roll. Não só devido às letras e às tomadas de posição mas muito em particular devido às ações do seu vocalista. E em política o que parece nem sempre é. Nesse caso, os U2 deram uma resposta muito clara a essa questão durante o concerto de domingo à noite: sim e não. O dia de ontem era de eleições em França. E quando os U2 subiram ao palco, já passava quase mais de uma hora da hora marcada, eram conhecidos os resultados. Pela primeira vez, a Frente Nacional de Marine Le Pen era o partido mais votado.

Aqui vale a pena recordar que o dia em que os U2 passaram a ser um projecto à escala global foi o dia do Live Aid. Foi quando Bono chamou para o palco uma rapariga negra cujo nome não lembro mas que ofereceu um lugar aos U2 na história da música rock. Ontem coube a vez a Brigitte. De amarelo vestida, ela dançou com todos os quatro U2 o que nenhum deles sabia dançar (ou podia) dançar tendo "Mysterious Ways" como banda sonora. Já estávamos na segunda parte do concerto: Bono quase se transformava no mefistofélico McPhisto no enleio dançante de Brigitte, a quem ofereceu um telemóvel para filmar e projectar no ecrã tudo o que bem lhe apetecesse. Tinha-se perdido a inocência. Mas ganhou-se humor: "Mirror, mirrorball / oh Bono, you're so blonde and tall" foi um dos apartes que o vocalista meteu, referindo-se à sua nova cor de cabelo e à sua lendária estatura meã.

Anteontem, passaram dois anos desde que morreu Nelson Mandela. E Bono recuperou para o alinhamento "Ordinary Love", dedicado a este fazedor de paz, de uma "moralidade global" nascido na África do Sul. Ou quando em modo claramente evangélico profetizou "nós não vos podemos salvar, mas a nossa oração desta noite vai vos ser útil". Aqui vale a pena voltar à entrevista com Fareed Zakariah, transmitida na CNN, na véspera do regresso a Paris. Aquela em que Bono revela a letra de uma nova canção inspirada nos atentados de Paris. Quando um dos politólogos mais influentes do mundo lhe pergunta algo relacionado com o início da carreira dos U2, Bono responde "nós só queríamos ser úteis". "Nós só queríamos que a vida real das pessoas estivesse nas nossas canções". Útil é o significado que Bono encontrou para caridade. Afinal a virtude teologal mais querida do cristianismo, "o vínculo da perfeição". No domingo, o concerto dos U2 não foi perfeito. Mas esteve perto, não fosse o nervosismo de todos: espectadores e banda incluída. Se foi eficaz como ação de protesto contra os atentados do Daesh, é difícil ajuizar. Paris, ou o público que lá esteve gostou muito e saiu saciado. Os U2 lamberam as feridas à capital da França. E Le Pen não estava lá.

Alinhamento 1 - The Miracle (of Joey Ramone) 2 - Out of Control 3 - Vertigo 4 - I Will Follow (com excerto de Mother de John Lennon) 5 - Iris 6 - Cedarwood Road 7 - Song for Someone 8 - Sunday Bloody Sunday 9 - Raised by Wolves (Salmo 23) 10 - Until the End of the World (Love and Peace or Else, Words, The Divine Image) 11 - Invisible 12 - Even Better than the Real Thing 13 - (Fashion de David Bowie) Misterious Ways (Burning Down the House dos Talking Heads) 14 - Elevation 15 - Ordinary Love 16 - Every Breaking Wave 17 - October 18 - (Zooropa) Bullet in the Blue Sky (Ode to Joy, America, 19) 19 - Zooropa 20 - Where the Streets Have No Name 21 - Pride (in the name of love) 22 - With or Without You Encore 23 - City of Blinding Lights (Ne Me Quittes Pas) 24 - Beautiful Day 25 - (Mother and Child Reunion) One (Invisible) 26 - Bad (Gloria) 27 - People Have the Power Texto e vídeos: Miguel Cadete, em Paris Fotos: U2.com e Getty Images