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Jornalista também sente: do Oeste de Portugal para o dos Estados Unidos, com os They're Heading West

O primeiro disco dos They're Heading West acaba por funcionar como retrato involuntário de uma geração de ouro na música portuguesa, escrevemos na crónica desta semana.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No verão passado visitei pela primeira vez o festival Bons Sons. A dias de rumar a Paredes de Coura, para mais uma reportagem do certame minhoto, descobri na aldeia de Cem Soldos um evento delicioso, distinguindo-se de tantos outros pelo intimismo e pela descoberta que a pequena dimensão e uma programação criteriosa permitem. Ao fim de dois dias, contudo, e precisamente porque tinha de seguir para norte, voltei a casa, perdendo assim vários dos principais concertos do Bons Sons, que este ano passou de bianual a anual. Ao apanhar a camioneta do recinto para a estação do comboio, entabulou conversa comigo o rapaz que vendia os bilhetes a bordo. Tímido e muito educadinho, começou por perguntar se estava a gostar do festival. Se tinha gostado dos Clã, que foram "uma coisa do outro mundo". Reparo entretanto que, na t-shirt que traz vestida, ostenta autógrafos da banda de Manuela Azevedo, tal como de Carlão e Minta. "Eles", diz, referindo-se a Minta and the Brook Trout, "são os meus favoritos, por isso guardei este lugar para eles". E deposita a mão no peito, junto à lagartixa que é o símbolo do Bons Sons. Mas a dedicação do jovem Tiago não ficava por aqui: também tinha chegado "30 ou 40 minutos mais cedo" ao palco Outonalidades, para garantir que ficava na fila da frente no espetáculo acústico de Francisca Cortesão e Mariana Ricardo, e convencera dois ou três amigos a irem com ele e um deles a comprar o disco. "Isto foi uma oportunidade única!", garantia o rapazinho de Tomar, que se voluntariou para trabalhar no festival "praticamente" só para ver este concerto, e que se emocionou com a "Large Amounts", a versão de Mount Eeerie e o CD com autógrafo personalizado. Depois ainda me mostrou a nova foto de "wallpaper" do telemóvel: naturalmente, uma em que aparece, sorridente, ao lado da Francisca e da Mariana. Por muitos anos que passem, estes pequenos grandes gestos de devoção pelas bandas que adoramos continuam a valer ouro. E que bom ainda haver festivais onde essa dedicação e essa proximidade são possíveis. Voltarei, certamente, a Cem Soldos. Poucos meses depois desta simpática aventura, chega às lojas um disco que nunca sonhou sê-lo. É dos They're Heading West, uma espécie de supergrupo que junta Francisca Cortesão e Mariana Ricardo a João Correia (Tape Junk) e Sérgio Nascimento (Humanos, Deolinda), e que ao longo dos anos foi organizando, na Casa Independente, em Lisboa, um misto de concertos e sessões de convívio com outros músicos portugueses. Objetivo, entretanto cumprido: juntar dinheiro para visitar a Costa Leste dos Estados Unidos, tocando em "mecas" indie como Portland ou São Francisco. Fruto não planeado da aventura: gravar em disco muitos dos temas que os juntaram, nessas soirées ou matinés mensais, a boa gente como Capicua e Samuel Úria, Ana Bacalhau ou Nuno Prata, Frankie Chavez ou Ana Moura. Respirando a mesma informalidade e a mesma alegria dos encontros na Casa Independente, o primeiro disco dos They're Heading West, editado pela Pataca, acaba por funcionar como retrato involuntário de uma bela geração de músicos nacionais, mais preocupados com os prazeres da criatividade e da colaboração do que com o protagonismo individual. Em fevereiro do próximo ano, Francisca promete voltar ao seu alter ego Minta, com o sucessor do belo Olympia. E, lembrando-me do dia de 2008 em que aterrou na redação o seu EP de estreia You, e da primeira entrevista que lhe fiz, no programa que então tinha com uma amiga na Rádio Zero, do Instituto Superior Técnico, não posso deixar de sentir um orgulho quentinho. Mais ou menos como o do fã Tiago, ainda que sem t-shirt autografada. Lia Pereira