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Jornalista também sente: Benjamin Clementine e Adele, músicos de carne e osso para dias cinzentos

Um está em Portugal para uma mini-digressão, acabado de receber o Mercury Prize, outra voltou para "sambar nas inimigas". Na crónica desta semana, dizemos-lhe o que nos parece unir Benjamin Clementine e Adele.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Benjamin Clementine, músico e poeta de Londres, está por estes dias em Portugal. Ontem, dizem os relatos online que maravilhou o público do Theatro Circo de Braga, uma das mais majestosas salas deste pequeno Portugal; lemos algures que foi um anjo, de casaco comprido e sem sapatos, que ali pousou, num palco minhoto, antes de seguir viagem para Aveiro (amanhã), Porto, na quarta-feira, Lisboa na sexta e Faro no sábado. Não é a primeira vez que o artista, nascido na capital britânica há quase 27 anos, vem a Portugal. No passado mês de julho estreou-se por cá com um concerto no Super Bock Super Rock, que não me foi possível ver, mas que parece tê-lo marcado: "No pouco tempo de que dispus, passeei um pouco pela zona [junto ao Tejo, na Expo] e era lindíssima", disse-nos por telefone há menos de duas semanas. O som da chamada, colocada em alta voz para podermos gravá-la, estava ruim, e Benjamin Clementine, um inglês apaixonado por Paris, onde viveu alguns anos até ser "descoberto", fala de forma nem sempre percetível: misturando sotaques, com frases curtas e graves, num sussurro que cheguei a imaginar dever-se à hora da entrevista (provavelmente antes de qualquer um de nós tomar café). Até que, na passada sexta-feira, vejo que alguém partilha no Facebook a notícia da vitória de At Least For Now, o primeiro álbum de Mr. Clementine, nos prémios Mercury. Ao carregar no vídeo do discurso, percebo que aquela é, aparentemente, a sua voz falada: sussurrada e tímida, quase desaparecendo no meio das palmas do público e dos outros nomeados, que humildemente chama ao palco para partilhar os louros da vitória. Mas é ao dedicar o seu triunfo a Paris que a voz, em concerto tão singular e poderosa, se apaga de vez. Assoberbado pela emoção, aquele homem de quase dois metros evapora-se. A plateia junta-se a ele, no respeito pelo seu silêncio, que desaguará em palmas e abraços fraternos. Mais tarde, Benjamin Clementine partilhará um eloquente discurso no seu Facebook, explicando por palavras o que todos sentimos e percebemos naquele silêncio pesado. BENJAMIN CLEMENTINE GANHA MERCURY - VÍDEO DO DISCURSO Talvez daqui a uns anos esta emoção crua se desvaneça e dê lugar ao cinismo de que precisamos - precisaremos? - para lidar com o mundo mas, por enquanto, perceber que o coração de Benjamin bate com tanta verdade em palco como fora dele é reconfortante. "Reconfortante" foi precisamente a palavra que Tom Breihan usou para, num belo texto no site Stereogum, descrever a sensação que lhe transmite o facto de Adele ter regressado, quatro anos depois do estrondoso sucesso de 21, para rebentar com tudo. Como se a aparente simplicidade com que seduz o mundo à moda antiga - usando "apenas" canções clássicas e uma voz gigante - nos oferecesse conforto neste planeta em constante convulsão. O outro ingrediente mágico na receita do êxito de Adele é ainda mais simples: ela própria, ou seja, uma personalidade tão jovial, divertida e espontânea (contar os "fuckings" na entrevista à Rolling Stone é tarefa complicada) que se torna difícil não simpatizarmos com a figura. Será possível ser uma das mulheres mais populares (e ricas) da música e não perder a cabeça? Adele parece provar que sim e, um dia depois do discurso de Benjamin Clementine, ri-me e emocionei-me quando amigos me mostraram a "partida" que a cantora, também ela filha de Londres, pregou num concurso de imitações de Adele. O entusiasmo com que se disfarça de Jenny, uma nanny de voz grave e pausada, e a forma convincente como ilude as outras "Adeles", até ao grandioso momento da revelação final (naturalmente, quando abre a boca para começar a cantar), é impagável.

Se Benjamin Clementine está naquele momento em que o culto se ameaça transformar em algo mais, Adele é a rainha absoluta de todos os campeonatos em que se move. Que ambos ainda se mostrem deliciosamente humanos oferece, como o diria o Stereogum, um estranho conforto.

Lia Pereira