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Hoje não vou ver os U2 em Paris

"Comprei um bilhete de avião que deveria ter descolado hoje do Aeroporto da Portela, às 6h45 desta manhã, em direção a Paris. Não ousei partir", escreve o diretor da BLITZ.

Oiço François Hollande num canal de televisão. Ele já está na rua, depois de ter sido retirado do Stade de France após as primeiras explosões durante o jogo de futebol amigável França - Alemanha. Diz que o seu país dará uma resposta implacável aos atentados de ontem. Admiro a sua coragem. "Face ao terror, a França deve ser forte e deve ser grande", disse. Vejo Barack Obama a discursar sobre a impossibilidade de recuarmos. Oiço-o a discursar sobre a defesa da Liberdade, e como ela impõe que não soçobremos. Sei uma vez mais o que é um Chefe de Estado. Emociono-me: tenho para mim que para ele terminar de forma quase perfeita o seu segundo mandato só lhe falta conseguir a regulamentação do uso de armas nos Estados Unidos da América. "Este é um ataque aos valores que todos partilhamos", diz. E mais do que concordar tenho a certeza de que faço parte desse lado do mundo. Mas eu não consegui. Não fui capaz. Comprei um bilhete de avião que deveria ter descolado hoje do Aeroporto da Portela, às 6h45 desta manhã, em direção a Paris. Não ousei partir. Perdi também a reserva do hotel, que não permitia cancelamentos. E desperdicei também a oportunidade de ver o concerto desta noite dos U2 em Bercy para o qual tinha garantido uma entrada. P3 General Admitance Floor, lê-se na confirmação que me enviaram da promotora do espectáculo, o mesmo que seria transmitido pela HBO para vários países e que anteciparia o fim da manga europeia desta digressão da banda irlandesa. Foi tudo cancelado. Eles mataram tudo de medo.

Era por causa dos U2 que ia hoje a Paris, no voo FR1083 da Ryan Air. Lugar 02A, à janela. Mas não voei. Afinal não tenho metade da coragem dos nossos chefes de Estado. Até porque percebi que este ataque do autoproclamado Estado Islâmico não se dirigia a "culpados" de qualquer heresia contra Maomé como no "Charlie Hebdo". Ou contra alguém que havia "provocado" os desígnios do Califado. A 13 de novembro, mataram-se cidadãos que estavam perto de um estádio de futebol, em festas, em restaurantes ou num concerto de um grupo de rock como os Eagles of Death Metal, num clube com mais de 150 anos de história. Eles é que sabem o que devemos comer, ouvir, dançar ou amar. Este já não foi um ataque a um símbolo do capitalismo, como pode ter sucedido com o World Trade Center no 911. Aqui não se tratou de executar prisioneiros em territórios ocupados pelo Califado. A 13 de novembro procurou-se exterminar quem estava a usufruir do seu tempo livre, numa sexta-feira à noite. Uma escalada que leva a temer o pior. E a seguir? Serão as escolas primárias os alvos preferenciais do Daesh? Eu ia a Paris ver os U2 porque acredito no Bono. Só gosto um nadinha mais dos U2 do que dos Rolling Stones porque a política daqueles quatro irlandeses não se limita a defender a bandeira do rock'n'roll, é coisa engajada. Não é indiferente o facto de serem irlandeses, povo humilhado, esfomeado e, também, vítima do terrorismo. Claro que também não é irrelevante o facto de Bono ser católico, mas ter conseguido o feito de estabelecer uma rede capaz de apoiar e concretizar realmente inúmeras causas humanitárias ajuda muito. Podia agora citar a letra de uma canção daquelas que tornaram os U2 famosos. Mas não vale a pena. Todos conhecemos esses versos mais ou menos de cor, quer queiramos quer não. E essa é a beleza da música popular. Eu queria ter ido a Paris ouvir o elogio a Martin Luther King de "Pride"; apostar na sorte de incluírem "Bad" no alinhamento do concerto de hoje; sonhar com uma nova versão de "Sunday Bloody Sunday" ou ajoelhar com a interpretação de "One". Mas não consegui porque não me deixaram. Não apanhei o voo da Ryan Air, nem me hospedei no Best Western Premier 61 Paris Nation Hotel como tinha previsto. Nem vou ao Louvre amanhã onde, sei-o hoje, me deveria deter com outro cuidado frente ao quadro de Eugene Delacroix a que chamaram "La Liberté Guidant Le Peuple". E se sei que estou deste lado do mundo, também é certo que eles estão entre nós. Não são estrangeiros ou muçulmanos. Não têm sequer uma religião senão a do Eu. São um produto da nossa sociedade. Cabe a nós resolver isso. Ou então eles resolverão tudo por nós. Miguel Cadete