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Jornalista também sente: quando o Duo Ouro Negro dança o Tango dos Barbudos

Numa pequena loja de velharias e raridades, Lia Pereira encontrou vestígios de um outro tempo.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Antes de este benfazejo verão de São Martinho se instalar na ocidental praia lusitana, um sábado invernoso proporcionou-me uma descoberta inesperada, na minha própria rua. Ao abrigar-me da chuva que caía copiosamente, encostei-me à montra de uma pequena loja à qual, desde que para ali me mudara, nunca havia prestado atenção. Até esta altura, o sinal de "NÃO COMPRAMOS", assim mesmo em letras garrafais, fora o único pormenor que registara sem preocupação de maior. Agora, e enquanto a chuva não abrandava, espreitava pela primeira vez o interior do estabelecimento, infelizmente fechado: de moedas e notas do tempo em que 500 escudos (petizes: hoje são dois euros e meio) eram prenda de valor até "medalhas da Amália" (!), passando por copos e canecas que, em tempos idos, as marcas de refrigerantes e cervejas distribuíam com fartura ou cromos de futebolistas desaparecidos, a anarquia é rainha de um espaço exíguo mas apetrechadíssimo. Ao chegar a casa, sã e seca, partilhei uma foto da loja no Facebook. De imediato uma amiga me rogou que lhe comprasse o poster do Duo Ouro Negro em bom destaque na montra, o que prometi fazer, mal encontrasse a loja aberta. Todos os dias, desde então, esperava ver a porta escancarada ou pelo menos entreaberta, mas deparava-me sempre com o gradeamento corrido. Quando já começava a temer que o estabelecimento estivesse abandonado, encontro o seu dono - um senhor de idade, não surpreendentemente - a erguer o gradeamento esbranquiçado, contemplando os seus tesouros. Aproximando-me suavemente, para não o sobressaltar, indaguei: quanto custa o poster do Duo Ouro Negro? Naturalmente espantado com tal pergunta antes das dez da manhã, o senhor tratou então de me vender o enrugado artefacto; ao entrar na loja, e com vergonha de pagar tão irrisória quantia com uma nota "grande", peguei ainda num vinil de capa castiça. O Tango dos Barbudos pareceu-me um título promissor para um EP (extended play), autografado no verso para "Raúl e Judite", oito anos antes de eu nascer.

Ironicamente, estou sem gira-discos em casa, pelo que foi a santa internet a revelar-me o conteúdo do vinil que acabara de comprar, uma edição da Orfeu de Arnaldo Trindade: "O Tango dos Barbudos foi uma das músicas de top que nunca faltava em qualquer arraial de qualidade e que servia quase de senha mobilizadora para as massas. Um tema referenciado às tropas cubanas de Fidel Castro, muito badaladas por esta altura na comunicação social, e, que o próprio Vinicio fez questão de repetir a dose com 'Fidel Tango'", pude ler no site O Covil do Vinil, enquanto o YouTube me mostrava o êxito que, a julgar pelos comentários, parece ter animado a juventude de muitos, tanto em Portugal como em África.

De volta à loja: depois de lhe explicar que o poster do Duo Ouro Negro fora um pedido de "uma amiga da rádio", o senhor contrapôs que também a sua sobrinha trabalhava na telefonia, apontando para uma foto a preto e branco, emoldurada na parede, da mesma, e foi buscar um pequeno porta-moedas do qual cuidadosamente retirou o troco. Que todo o anacronismo não vos iluda, contudo: durante esta breve transação comercial, era a voz de Beyoncé - ainda ao serviço das Destiny's Child - que ribombava no velho rádio da loja. "I'm a survivor", proclamava a Rainha Bey, na melhor banda-sonora possível para este comércio de resistentes.

Lia Pereira