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Jornalista também sente: Ornatos Violeta em 2012, ou o D. Sebastião que voltou

Há três anos, a banda do Porto que prematuramente pôs termo à sua carreira regressava para seis triunfais coliseus. Lia Pereira esteve lá e, na crónica desta semana, recorda todas as emoções, dignas da canção do mesmo nome de Roberto Carlos (cantada, de resto, no último dos concertos).

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quando, entre o finzinho dos anos 90 e a alvorada da década dos zeros, aproveitava todo o tempo livre e todos os tostões para acompanhar os Ornatos Violeta ao vivo, já vivia sozinha e ganhava o meu (pouco) dinheiro. Como tal, ao invés de fazer valer o seu poder de veto, a minha mãe limitava-se a comentar a minha fidelidade de fã com um encolher de ombros e um sussurrado mas convincente: "Isso para mim é doença". Nesses tempos afinal bem saudáveis, vi os Ornatos em boa parte dos palcos de pequena e média dimensão que a rapaziada pisou em promoção dos dois únicos álbuns que gravaram: Cão!, cuja digressão infelizmente já apanhei no fim, e O Monstro Precisa de Amigos. Ao contrário do que a distância histórica pode fazer crer, os maiores concertos que os portuenses deram enquanto grupo "no ativo" terão sido na Aula Magna, sala de mística assinalável mas capacidade limitada a poucos milhares. Lembro-me de, quando ainda andava na faculdade, enfrentar a curiosidade e o espanto de alguns colegas, que me perguntavam como era possível gostar (tanto) de uma banda portuguesa. Poder voltar a vê-los, dez anos depois do desgosto do fim que só quem viveu apaixonadamente uma banda pode entender, foi mais do que um sonho. É certo, ainda assim, que o regresso - apenas aos palcos, com fim à vista, mas regresso - não se revestia, para mim, da mesma urgência do que para os muitos garotos que encheram os coliseus e nunca tinham visto Ornatos ao vivo. "Conheci-os pelo meu pai", diziam alguns; "O meu namorado foi aluno de guitarra do Peixe", contou-me uma miúda que, na fila chuvosa da Rua Passos Manuel, debitava todas as letras de Cão! para passar o tempo. Dessas seis noites nas quais fiz questão de marcar presença, lembro-me de tudo e não me lembro de nada. Mais do que alinhamentos e pontos altos, vêm-me à memória emoções: as minhas, naturalmente; as dos meus amigos (vezes há em que a diferença entre as nossas e as deles parece não existir); as dos jovens desconhecidos que pareciam vibrar tanto com a ocasião como nós (afinal, foram a sua existência e insistência a proporcionar o regresso); a dos músicos, em palco e simultaneamente connosco, recordando aquilo que em tempos fora a sua vida - e que, pelo poder das canções, continuava a ser, de certa forma, a nossa. Quem tiver estado, há precisamente três anos, no segundo concerto de Lisboa lembrar-se-á do momento em que a exultante reação do povo a "Chaga" derrotou Nuno Prata, e do comovente abraço coletivo que se seguiu. Não era só música que víamos ali, mas a vida no seu mais belo, intenso e não raras vezes cruel sentido. Não me consigo esquecer, também, de sair do Coliseu do Porto, na segunda das noites da Invicta, e receber um mail de uma amiga emigrada. Também ela tinha vivido freneticamente os Ornatos connosco, nas festas de Corroios ou no Cartaxo, no Hard Club ou na Aula Magna, mas, apesar de todos os alertas que lhe enviei desde que soube do regresso aos palcos, acabou por não apanhar o avião para Portugal. A 31 de outubro, justificava-se por fim: decidira não vir porque lhe parecia injusto que, depois de nos darem aquilo que durante tantos anos ambicionámos, se preparassem para nos voltar a tirá-lo. Não queria voltar a passar por isso, escreveu. Respeitando a sua decisão, ripostei: "Mas se te dessem a possibilidade de seres feliz outra vez, recusavas?". Acho que não chegou a responder, nem isso importa. Importante foi, e é, a forma como eu e mais alguns - largos - milhares de fãs, de idades e origens tão diferentes, abraçámos a dádiva de viver, ou reviver, algo tão pessoal e felizmente transmissível. Afinal, e no meio do nevoeiro daquele outono de 2012, este D. Sebastião voltou mesmo. (Creio que, durante todo este processo, a minha mãe continuou convencida de que tudo isto não passa de "uma doença". Mas já não se deu ao trabalho de verbalizá-lo). Lia Pereira