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Jornalista também sente: passar a hora do almoço ao telefone com Cat Power

Nem todas as entrevisas seguem um guião previsível; com Cat Power, que dentro de poucas semanas visita Portugal para dois concertos, é legítimo esperar o impensável, escreve Lia Pereira na crónica desta semana.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No quotidiano de uma redação, nem todas as entrevistas "grandes" ou "importantes" nos são propostas com a antecedência que permite uma preparação exaustiva. Há poucas semanas, soubemos ao fim de uma tarde de quinta que, na sexta à hora do almoço, teríamos 20 minutos para falar com a Cat Power. Pela memória passam-me, de imediato, várias imagens: Chan Marshall em roda livre e de cabeça perdida, numa espécie de concerto há muitas vidas, no Blá Blá de Matosinhos, que acabou com a artista a ser persuadida a abandonar o palco onde ao longo de três horas nunca terá chegado a acabar uma canção; Chan Marshall perdida de amores pelo público do Coliseu de Lisboa e incapaz de abandonar esse mesmo palco, de onde colheu as flores que incessantemente lhe arremessavam, como se, em vez de uma voz soul disfarçada de ícone indie (ou vice-versa), ali tivéssemos uma fadista ou cantora de (outro) charme. Chan Marshall, um dos derradeiros mistérios do nosso imaginário musical, quase tão indecifrável como os felinos que lhe dão nome. Aceitámos a entrevista, claro.

Eram oito e meia da manhã em Miami quando, intrigada pelas dificuldades na ligação transatlântica, Chan Marshall nos atende o telefone com um divertido: "How the hell are you?". Pergunto-lhe se não é cedo, no soalheiro estado da Flórida, para estar a dar entrevistas, e ela ri, explicando que, como tem um bebé de cinco meses para alimentar, esta hora é perfeitamente aceitável.

Já tinha falado longa e espontaneamente sobre a importância da amamentação e das amigas que foram mães aos 50 anos quando, de súbito, para para perguntar: what's your name again? L E A H? L I A? Oh, that's pretty! Nos cerca de 50 minutos que se seguiram ouvi histórias sobre macacos e marcianos, cães e gatos, americanos e o resto do mundo. Despedi-me quase com alguma pena e fiquei toda a tarde a sentir-me cansada; deve ser a ressaca de sentir que estive a falar com alguém que, com todos os seus desequilíbrios, ou precisamente por causa deles, é profundamente humana. E só depois me lembrei que tudo isto foi acontecer precisamente um ano depois da partida, cruel e inesperada, de uma das grandes fãs, portuguesas e de primeira hora, de Cat Power. Como a própria Chan me disse, "every living being suffers". Mas há quem consiga ver nisso alguma beleza.

Cat Power atua no CCB, em Lisboa, a 31 de outubro e no Hard Club, no Porto, a 1 de novembro. A entrevista pode ser lida na BLITZ de novembro, nas bancas a 30 de outubro.