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Jornalista também sente: redescobrir a Dave Matthews Band 18 anos depois

18 anos pode ser muito tempo, mas algumas paixões musicais subsistem no tempo, conta Lia Pereira na nova crónica da BLITZ.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Antes das internetes, do YouTube e do Spotify, passava muito tempo a ouvir rádio e a tirar notas. Certa vez, mandei uma carta para o radialista que mais viria a moldar o meu gosto musical, e que não conhecia pessoalmente, perguntando que coisada era aquela da Dave Matthews Band. Recebi, na volta do correio, os dois discos deles até então: Under the Table and Dreaming e Crash. Lembro-me do envelope em que chegaram, da capa rachada do segundo CD, da felicidade palerma que senti com aquela surpresa espectacular. Na altura, vinda há pouco do Porto, vivia com a minha tia e tinha muitos pen friends, mas esta foi claramente a melhor coisa que o carteiro alguma vez entregou na Rua dos Soeiros. Além de não haver internetes, o orçamento para discos era escasso (cada um custava para cima de três contos!), por isso aqueles dois álbuns acompanharam-me durante meses a fio, quase em regime de exclusividade: rodaram até o meu discman os conhecer de cor, foram comigo na minha primeira viagem de avião (para Amesterdão, convidada pela minha grande amiga da faculdade), e passado um ano levaram-me a ganhar um passatempo para ver a banda em Itália. Na altura não me parecia que cá viessem a pôr os pés - e na verdade passaram-se uns nove anos até isso acontecer - e limpei a concorrência (umas duas pessoas), provando ser a grande fã do grupo em Portugal. O concerto em Reggio Emília, numa pequena festa política perto de Bolonha, foi muito fixe. Ainda gostei do disco que se seguiu, e de alguns ao vivo, mas entretanto desliguei-me da carreira da rapaziada. Não conheço a fundo as canções "recentes", nem exulto particularmente com os solos de dez minutos, mas guardo com carinho suficiente a memória daqueles tempos e daqueles álbuns para ainda ter gostado muito de os ver no Alive, há uns anos, e ontem no ex-Atlântico, onde ainda por cima tiveram a excelente ideia de tocar resmas de coisas daqueles dois primeiros discos. Em que canto da minha memória estariam guardadas as letras de canções de que diria já nem me lembrar? Não sei, mas saíram alegremente umas atrás das outras, num fluir prazeroso que não é só nostalgia. Ainda gosto disto, mais do que da pessoa que tentava ser então.
Crónica de Lia Pereira