Mais um pedaço de papel com História. Ou histórias.
"O dia em que o Dr. Cunhal me levou a um concerto dos Metallica" é, provavelmente, a frase mais estranha que já escrevi (o que, convenhamos, atendendo ao meu histórico de frases absurdas, não deixa de ser notável), mas que se explica facilmente. No dia 18 de Setembro de 1988, há precisamente 23 anos, este cavalheiro e mais dois amigos rumavam a Espanha para ver um espectáculo que perduraria por muitos anos na nossa memória. Monsters Of Rock, assim se denominava o evento e reunia no mesmo palco os Helloween, Anthrax, Metallica e Iron Maiden e os Espanhóis Manzano.OK, 3 amigos foram numa excursão a Espanha ver um concerto de rock. Mas onde entra o Dr. Cunhal nesta história?
Bom, há vinte e três anos atrás não havia internet, a informação corria mais devagar, se queríamos ler notícias tínhamos que comprar revistas ou jornais (umas coisas esquisitas, com umas folhas compridas com caracteres e fotos, que alguns seres com aspecto alienígena ainda teimam em comprar), se queríamos ouvir música tínhamos que comprar discos de vinil (outro objecto de difícil descrição, preto, de forma circular, com umas estrias sulcadas à superfície por onde passava uma agulha - diferente das de coser - e procedia à leitura do seu conteúdo) ou CD´s, esse objecto de aspecto mais moderno e elegante, muito útil quando pendurado no retrovisor do carro ou nas árvores de fruto para afugentar os pássaros indesejados. Parece que há também por aí quem lhes vislumbre outra finalidade e ainda persista em comprá-los. Continuando, em 1988, numa altura em que a informação demorava mais tempo a circular, como já se disse, isso era ainda mais notório no Portugal de então, recentemente entrado na C.E.E. e com pouco mais de 10 anos de democracia consolidada. Naquela época, as diferenças culturais, económicas e políticas para com o resto da Europa eram muito mais acentuadas do que são hoje, por muito estranho que possa parecer.
E o Dr. Cunhal?Sensivelmente uma semana antes do dia 18 de Setembro, no fim-de-semana anterior, estes três cavalheiros, que desde tenra idade gostam destas coisas da música (ele há malucos para tudo - se recuássemos no tempo e a borboleta batesse outra vez as asas, este texto poderia ser sobre a vida sexual dos orangotangos, sobre a politica externa do Cazaquistão ou sobre os efeitos nefastos da flatulência dos bovinos na camada do ozono), juntamente com outros amigos com igual tara, deslocaram-se á Festa do Avante. Estão a ver? O Dr. Cunhal está quase aí. Bem, deixem-me esclarecê-los do seguinte: pese embora a simpatia que nutro pelo histórico líder do PCP, devo confessar que nunca depositei um voto no seu partido. Nem antes nem após a sua morte. A esta altura do campeonato, e vendo o actual estado das coisas, não sei se é um feito do qual me deva orgulhar publicamente. Mas a realidade é que não foram as motivações político-partidárias que me conduziram (será correcto escrever "nos"?) à Atalaia naquele fim-de-semana de Setembro. Foi precisamente para assistir a mais um concerto de rock que nos deslocámos ao covil Soviético. Tocavam naquele ano duas bandas de segunda linha, os Paradox e os Iron Angel, ambas alemãs. Da antiga RDA, está bom de ver.... No meu caso foi a primeira vez que me desloquei à Gália comunista e nunca mais lá voltei. Por nenhum motivo em particular. Aliás, até nos divertimos bastante. Apenas não se proporcionou, creio.No caminho para a Atalaia, a turba, saída do comboio no Cais do Sodré, passou pela saudosa discoteca Bimotor, ali aos Restauradores. Já no interior da discoteca, depararmo-nos com um enorme cartaz de James Hetfield, ainda de cabelo comprido, mais magro que actualmente, em peso, mas, sobretudo, em dólares, empunhando furiosamente a sua ESP, com a legenda por baixo:"Metallica em Madrid 18 de Setembro". Os três gandulos, protagonistas desta aventura, entreolharam-se e isso bastou para que ficasse logo ali decidido que estaríamos a caminho de Espanha dentro de uma semana.
E assim foi. Mas a semana que nos separava do dia da felicidade foi tudo menos pacífica. Havia um obstáculo duríssimo que precisava ser vencido: a previsível resistência dos nossos pais (convém não esquecer que éramos á época uns gaiatos). A estratégia adoptada passou primeiro pela aquisição dos bilhetes, seguindo-se depois a terrível confrontação com o poder parental. Assim uma espécie de disparar primeiro e perguntar depois. Mas eu encontrava-me decidido. Nem que para isso tivesse que ser deserdado, abdicando assim de todas as jóias, casas, terrenos e demais propriedades que um dia me calhariam em sorte, por via da herança. Aquela viagem era, naquela altura, a coisa mais importante da minha vida. Era o Santo Graal. Já com os bilhetes da excursão e do concerto na mão (8 contos no total foi quanto custou a aventura....), encarei a fúria dos progenitores de frente. E, amigos, deixem-me que vos diga. Foi duro. Muito duro. As negociações de Camp David foram um passeio no parque, uma brincadeira de crianças, quando comparadas com o que se passou, algures em Cascais, naquele final de verão. No entanto, eu já me começava a especializar nesta matéria tendo em conta experiências anteriores, que acabaram por me ajudar, dando á minha argumentação a força e convicção suficientes para, mais uma vez, sair vitorioso do confronto. Lá acabei por conseguir a obtenção do tão almejado "visto".E foi assim que, mesmo sem o saberem, o Dr. Cunhal e a "sua" Festa do Avante me "empurraram" para esta aventura.
E o resto, amigos, é história.
Já a caminho de Madrid, dentro do autocarro, lembro-me de um maluco que não se calava dizendo (cantando, gritando?) a todo o tempo: "vamos ver os Iron Maxell!!" (onde teria ido o lunático buscar esta ideia?). Certamente que os odores que emanavam dos bancos traseiros da viatura, onde o individuo viajava, não eram alheios ao seu delírio....
Já na Casa Del Campo, recinto onde se realizou o concerto, numa dessas coincidências em que a vida é fértil, encontramos um amigo comum que teve a fineza de me emprestar as pesetas imprescindíveis para poder adquirir a T-shirt alusiva a "And Justice For All", que os Metallica se encontravam a promover, e que iria funcionar futuramente como prova irrefutável da minha presença ali. Escusado será dizer que ostentei orgulhosamente aquela t-shirt durante semanas a fio (ok, com uns dias de intervalo, para ir de vez em quando á maquina de lavar) mesmo durante o inverno. Rapidamente, de preta passou a cinzenta. Ainda a conservo em casa. Há muitos anos que não a uso. Talvez hoje seja um bom dia para ir ao armário resgatá-la.... 18 de Setembro de 2011
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Eu revejo-me em todas as as tuas manias próprias de um «alienigena»: ainda hoje, em plena era de «coisas invisiveis», teimo em comprar revistas, aquelas rodelas pouco portáteis de plástico preto e, embora não nutra do mesmo gosto do meu pai pela agricultura, podia usar o meu enorme arsenal de cds para afugentar a passarada de toda a Península Ibérica. Ao dizer isto, não me sinto velho, mas sim orgulhoso!
Invejo-te Lemmy. Não aquela inveja mesquinha e corrosiva, mas a inveja de não ter tido companhia para entrar em aventuras como a tua. Não sei como se deu este meu gosto pela música, mas como já falamos milhentas vezes, tenho na memória todos os grandes concertos da década de 90 que tu tiveste a oportunidade de presenciar e eu perdi, por força da idade e de naquela altura, Iisboa e arredores serem sinónimo de «estrangeiro».
Sou apenas um pouco mais novo, mas foram muitas as «lutas» com os meu pais devido ao meu vício de comprar discos e infelizmente para mim, um pouco mais tarde, o vício dos concertos e de comprar primeiro os bilhetes e informar o sucedido depois:)
Apesar das dificuldades evidentes e do facto de com a idade pesarem mais as responsabilidades, hoje é mais fácil ir a Liaboa ver um concerto, como fiz no Domingo na companhia do grande Zero para ver os Mastodon. Mas isto não é nada comparado com ir a Madrid em 1988, ver um cartaz com o qual apenas posso sonhar e salivar.
Já tinhas prometido este relato e aqui está ele. Um excelente testemunho e um incentivo para a malta mais nova dar um pouco mais de valor e esta nobre arte e paixão partilhada chamada música.
Um grande abraço Lemmy e venham mais testemunhos como esse!
Ou sou eu que ando à nora, mas também já não se faz malta desta, por muita música que se ouça. Que esteja disposta a sacrifícios pela música. E não é sacrifícios de comer pó por comer pó como o outro animal disse, é sacrifícios de enfrentar os velhos (sei bem o que isso é) e ir, à maluca, por aí fora. A técnica comprar primeiro e enfrentar os manda chuva depois resultava em 1988 e resulta em 2012, pois fiz exactamente o mesmo para ir à capital ver Mastodon num dia anterior ao de bulir.
E aposto que na altura ir a madrid era tipo ir a australia, o que torna tudo ainda mais épico.
Nem vale a pena falar no concerto propriamente dito. O que importa é quando se está lá, o que se fez para lá estar.
Adorei ler, venham mais destes, old pal!!
18 de Setembro de 1988 foi um sabado e por volta da meia noite apanhamos o comboio em Viseu rumo a Cascais para o concerto do dia 21. no regresso a linha tinha sido desactivada...
fomos os quatro amigos nos seus bons 17, 18 anos ver o nosso Academico jogar na Luz com o Glorioso no domingo á tarde, comer umas bifanas para compor e seguir até Oeiras onde ficamos acampados. na segunda foi fazer o reconhecimento do melhor caminho até ao dramatico. nada melhor que uma visita a familiares, nestas acasioes uma refeiçao caseira e à pala sabe sempre bem. dia 21, o grande dia, finalmete! vestir a rigor com a minha t'shirt Peace of Mind era o dono do mundo. ia ver os Deuses mais ao fim do dia. chegados à estaçao do comboio que no dia anterior estava vazia, porra pá, só ''gadelhudos'' todos de preto deitados por todo lado... policia em todas as portas com aquela cara que só fazem quando têm de aturar a mulher. à saida era o caos. todos ao berros. ou a chamar alguem, a cantar o refrao da Number of The Beast, garrafas a partir, aqui os policias com os apitos sempre a zurrar para mandar parar alguem... foi comer um churrasco por ali perto e arranjar o melhor lugar na fila para a entrada. só havias duas pra tanta gente (como sempre em Cascais), era desesperante ver as horas a passar e aquilo nem mexia.
depois não há palavras. tenho umas fotos desse concerto que comprei ao Camaraman Metalico quando assinava uma Fanzine que ele editava.
pode não ter sido o mesmo que ir ao Monsters of Rock mas marcou qualquer um que lá foi nesse dia.
nem foi pelo Alvaro... foi pelo Eddie.
Isto é que é um verdadeiro cartaz, daqueles que nunca tivemos em Portugal e que provavelmente não vamos ter :S.
Gostei do texto :)
Quem me dera ter coragem, dinheiro, companhia para me aventurar a ir ao Wacken Open Air