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Quando não posso usar o fantástico gravador digital disponível na redação da BLITZ, faço as minhas entrevistas com um pequeno aparelho Coby que pouco mais é do que uma "pen" com um microfone do tamanho de uma cabeça de alfinete. O resultado tem normalmente uma fidelidade baixa, mas como o objetivo nunca é passar a gravação na rádio, mas sim passá-la para o papel, o pequeno Coby cumpre com distinção e nunca me deixou ficar mal. Mas hoje confesso que fiquei assustado. Colocado o ponto final nas minhas tarefas para uma empreitada paralela com marca BLITZ (nas bancas dentro em breve), hoje foi tempo de planear os próximos passos e isso implicou ligar o tal gravador minúsculo ao computador para daí tirar o ficheiro que corresponde à mais recente conversa que tive com Sérgio Godinho.
Como a cada nova entrevista é atribuído um nome de ficheiro convencionado pela marca - neste caso MIC001, MIC002 e por aí adiante - e como vou alterando a lista de cada vez que apago ficheiros para arranjar mais espaço na memória (e cá está a memória presente nesta crónica...), às vezes preciso de ouvir vários ficheiros até encontrar o que procuro. E o primeiro que encontrei foi o ficheiro correspondente à entrevista que há uns meses fiz a Noah Lennox, aka Panda Bear. A entrevista começou - como de resto várias outras, como irão perceber - com um comentário ao pequeno Coby.
De facto, um gravador que nem se parece com um gravador e que custou para aí uns 15 euros deve inspirar pouca confiança. O senhor Panda Bear perguntava, logo no início da conversa que eu fui ouvir para perceber se era a que procurava, se algum dia me aconteceu fazer uma entrevista para no fim constatar que não tinha gravado nada. Não precisei de ouvir mais, pois sei exactamente o que lhe respondi: "Aconteceu um par de vezes, sempre com artistas portugueses". E uma dessas vezes foi precisamente com Sérgio Godinho. E daí o pânico, como se ouvir-me a explicar a primeira vez em que um gravador me tinha falhado fosse uma espécie de alerta para uma qualquer coincidência cósmica que neste caso até poderia resumir-se recorrendo ao título de uma canção de Britney Spears - "Oops!... I Did It Again".
(E, aqueles de vocês que se tenham desatado a rir com a referência a Britney Spears, permitam-me o breve parêntesis: se nenhuma outra utilidade tiverem - e terão, como vos poderá garantir Jorge Manuel Lopes - as canções de Britney Spears poderão pelo menos ser úteis para este género de citações. Exemplos: não percebem como pode haver quem goste muito do B Fachada? Sem problemas, a Britney tem um título para isso: "Someday (I Will Understand)". Acham que não precisam de estar a explicar porque não conseguem parar de ouvir, sei lá..., os Deolinda? A Britney também tem um título para isso: "My Prerogative". As canções de Britney têm aplicações que não implicam necessariamente, e ainda bem, que se carregue na tecla "play"...).
Mas voltando à história presente e deixando a moça do "Me Against The Music" (estão a ver o que vos dizia...?) fechada no parágrafo anterior, acabei por encontrar a entrevista do Sérgio Godinho e suspirar de alívio depois de confirmar que estava toda gravada. E isso levou-me a pensar na primeira vez que o gravador falhou. Tinha um daqueles "voice recorders" que usavam cassetes pequenas e lembro-me, ainda nos dias do semanário Sete, de ir entrevistar Sérgio Godinho a sua casa, muito provavelmente por ocasião da edição de
Tinta Permanente
em 1993. A entrevista nesse dia atrasou-se porque Sérgio é um conversador nato e quando chegou a minha vez de falar com ele estava na hora de um jogo do Sporting que o cantor fez questão de ver (canção de Britney para descrever o que Sérgio deve andar a sentir em relação a Domingos Paciência: "(You Drive Me) Crazy"). Só depois pude então fazer a entrevista. Lembro-me que era de noite quando terminámos e antes de sair, ao tentar confirmar se estava tudo bem, senti o terror invadir-me quando percebi que o gravador não tinha funcionado... Desfiz-me em desculpas e o Sérgio, cheio de paciência (como o Domingos...), lá voltou a sentar-me no sofá da sala para uma segunda ronda.
A segunda vez que isso me aconteceu foi numa esplanada ao lado do cinema São Jorge, com o mesmo gravador, claro. A redação do Sete ficava do outro lado da rua e foi aí que a entrevista "a sério" teve lugar, depois de ter concluído que só os primeiros minutos da conversa com Adolfo Luxúria Canibal tinham ficado gravados. Lembro-me de dizer ao vocalista dos Mão Morta algo como "o ensaio correu bem, mas agora vamos ter que repetir tudo...". Tive sorte em ambos os casos.
No início de 2010, presenciei uma palestra em Londres com Peter Zinovieff, um dos criadores dos sintetizadores EMS, nomeadamente do fantástico VCS3 que é utilizado, e só para citar dois dos mais notórios exemplos, em "Won't Get Fooled Again" e "On The Run" da autoria, respectivamente, dos The Who e dos Pink Floyd. Este senhor, hoje com perto de 80 anos, criou mini-computadores numa era em que a palavra "mini" ainda se aplicava a tudo o que fosse mais pequeno do que um transatlântico e contribuiu para a invenção do futuro quando criou sintetizadores que ajudaram os músicos de rock a encontrar o espaço com mais facilidade. E ali estava ele, 40 anos depois, perfeitamente lúcido, a olhar para o pequeno Coby com que eu pretendia gravar a entrevista que lhe pedi depois da palestra. "Vai gravar com isto?" Respondi-lhe que sim. "Nunca me deixou ficar mal", garanti-lhe. O senhor, maravilhado com o grau de miniaturização alcançado com o avanço da tecnologia digital, disse: "Estas coisas já não falham como antigamente. Bastava uma pequena ondulação de corrente para desafinar os sintetizadores que fabricávamos. Era uma dor de cabeça com a tecnologia analógica". De facto, sou um grande defensor da tecnologia analógica, da fita magnética, do vinil, das fotografias e das revistas em papel. Mas a verdade é que nunca tive problemas com entrevistas não gravadas na era digital. "Lucky", como diria Britney Spears? Se calhar, com o pequeno Coby estou "Overprotected". E ainda bem. A julgar pelo que este gravador já passou, parece mesmo que vai funcionar "'Til the World Ends".
Crónica de Rui Miguel Abreu
Foto de Rita Carmo/Espanta Espíritos
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