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O dia em que eu... levei Mario Caldato Jr a passear [crónica de Rui Miguel Abreu] -

O dia em que eu... levei Mario Caldato Jr a passear [crónica de Rui Miguel Abreu]

Para hoje, Rui Miguel Abreu volta aos corredores da memória para contar uma história que envolve o ex-produtor dos Beastie Boys.

O fim de semana foi cheio de discos: Record Store Day no sábado, com direito a passagem por duas lojas lisboetas onde o espírito de celebração da sobrevivência estava bem presente, e ainda feiras de velharias no domingo, com paragens em Algés e LX Factory a renderem pouco combustível para gira-discos, infelizmente. O que me fez pensar noutros tempos de maior abundância. Numa época de crescente "desmaterialização" da música - estou farto de falar disso por aqui - seria de esperar que fosse cada vez mais fácil comprar discos, sobretudo nas feiras de velharias que servem como último reduto para artefactos que parecem ter perdido a razão de ser nesta era tecnológica: rádios antigos, computadores pré-históricos, consolas, roupas, livros e brinquedos de outros tempos. Tudo encontra uma última chance neste tipo de espaços. Mas, ao contrário dos computadores e das consolas e outros objetos expostos nestas feiras, o vinil teima em não baixar de preço. Começa aliás a ser complicado encontrar compras decentes a menos de 5 euros a peça quando antes 1 euros era a tabela para levar verdadeiras pérolas para casa. Sinal dos tempos? A verdade é que o vinil se tem revelado como uma espécie de derradeiro balão de oxigénio de uma indústria que ainda não percebeu inteiramente como impor alternativas aos velhos modelos de negócio. E, talvez por isso mesmo, o vinil é hoje visto como uma espécie de tecnologia gourmet. Ideia, aliás, confirmada por uma reportagem que recentemente apanhei na SIC Notícias (programa Imagens de Marca, penso...) onde se mostravam algumas lojas de Lisboa onde este suporte é rei. Ainda.

Mas dizia eu que a fraca "pescaria" de ontem me recordou outros tempos. Recentemente, quando por aqui mencionei uma ida à Feira da Ladra, referi tangencialmente um episódio passado com Mario Caldato Jr, produtor que em 1998 veio a Portugal para trabalhar com Mário Barreiros na compilação Tejo Beat, uma ideia de Henrique Amaro realizada na editora onde então trabalhava, a NorteSul. Mario chegou a Portugal num momento especial em que tinha um disco no primeiro lugar do top norte-americano: Hello Nasty dos Beastie Boys foi editado a 14 de Julho, precisamente na semana em que Mario aterrou em Lisboa, e logrou atingir a mais cobiçada posição do top 200 da Billboard logo à saída. Não sei se a proeza de ter o detentor do primeiro lugar da mais competitiva tabela de vendas mundial a trabalhar em Portugal se voltou a repetir. Mas aconteceu nesse tempo.

Mario é um tipo especial. Brasileiro educado desde tenra idade nos Estados Unidos, mantinha o português como língua paralela ao inglês com que foi criado, e tinha no currículo uma ligação aos Beasties iniciada logo na obra-prima Paul's Boutique , álbum em que desempenhou papel de engenheiro de som antes de assumir a cadeira de produção no registo seguinte, Check Your Head . Compreensivelmente, Mario quis ir aos discos e pediu-me que o levasse aos "flea markets" locais à procura de preciosidades em vinil, numa época em que esse formato tinha sido quase inteiramente colocado de lado, tal a febre que nos anos 90 rodeou a explosão dos CDs como suporte preferencial da indústria. Para quem continuava a comprar vinil, essa foi, de facto, uma época de vacas gordas, com a Feira da Ladra a render tesouros hoje inimagináveis em cada nova visita.

Lembro-me bem de Mario Caldato Jr ter ficado abismado com os preços de 1998, muito diferentes dos de uma Los Angeles onde o vinil era já visto como combustível fundamental para as produções de hip hop, na altura no auge da idade do sampling. Nessa visita à feira, cada um de nós trouxe uma pilha de vinis debaixo do braço, mas recordo sobretudo a minha cópia original de It's My Thing de Marva Whitney, cantora afiliada de James Brown cujo álbum de 1969 continua a cifrar-se nalgumas centenas de dólares na sua edição original. Custou-me na altura o equivalente a 50 cêntimos. E ainda hoje repousa nas estantes Soul Funk lá de casa. Mario tentou desesperadamente trocar alguns dos discos que tinha comprado por esse álbum de Marva Whitney, mas apesar da hospitalidade que cá conheceu não teve essa sorte. Amigos, amigos, diggin' à parte.

O panorama mudou drasticamente. Talvez até porque já haja um certo turismo associado ao vinil (já vi Lisboa mencionada em roteiros de sites especializados neste tipo de colecionismo), os vendedores das feiras, sobretudo aquelas que em Lisboa ou Porto ficam ao alcance dos diggers que nos visitam, inflacionaram os preços. E isso em si não é um problema - sei que há discos que valem o que por eles é pedido. Mas o facto de estar impresso em vinil não significa que seja tesouro: e discos dos Dire Straits ou Rui Veloso que venderam largos milhares de cópias não são raros e não valem os 20 ou 30 euros que já vi serem pedidos por eles nestas circunstâncias. Se nos visitasse hoje, Mario Caldato Jr era bem capaz de já não reconhecer o nosso país. Mas a verdade é que não foi só Portugal que mudou. O mundo mudou e Mario há muito tempo que também já não tem um disco no primeiro lugar do top americano. Como dizia DJ Shadow, "you can't go home again".

Crónica de Rui Miguel Abreu
Notícia escrita por LP Segunda, 23 de Abril às 11:39
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