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O dia em que eu... falei na rádio [crónica de Rui Miguel Abreu] -

O dia em que eu... falei na rádio [crónica de Rui Miguel Abreu]

Para a crónica de hoje, Rui Miguel Abreu sintoniza as suas memórias pessoais da rádio e leva-nos até à voz de Né Ladeiras.

Escrever e falar são duas coisas muito diferentes. Pelo menos no meu caso. Escrever está mais próximo do pensar e falar mais directamente ligado ao fazer. E é por isso que a minha postura em frente a um teclado de computador é tão diferente dessa outra que assumo em frente a um microfone.

Basicamente, o que por aqui tenho escrito todas as semanas desde há alguns meses, está mais directamente ligado a esse lado da escrita: as reportagens, as entrevistas, os pensamentos... Mas há um outro lado da minha actividade profissional que assenta em premissas bastante diferentes.

Olhando para a minha vida - para aquela importante parte da minha vida mais directamente ligada a estas questões da música - vejo que há basicamente duas posturas, duas abordagens. Uma mais interior, reflexiva, e que se prende com a tentativa que penso que todos fazemos de compreender o mundo, no meu caso específico o mundo da música. Esse é o lado que sustenta a escrita e que se manifesta de forma mais aguda quando na revista escrevo sobre Jim Morrison, o krautrock ou os Joy Division, quando olho de forma crítica para a obra dos Kraftwerk ou de Robert Wyatt, quando me é permitido com algum tempo entrevistar José Mário Branco ou Paulo de Carvalho.

E depois há uma outra forma de encarar a música, mais expansiva, mais imediata, mais acrítica. Essa é a forma em que importa menos a construção de uma opinião do que a partilha, menos o tentar compreender do que o sentir. E posso dizer que esse é o lado de que eu me socorro quando vou pôr música num sítio público (custa-me usar o termo "dj" porque isso é outra coisa e não me vejo tecnicamente nesse patamar, mas o que eu faço quando tenho que alinhar discos num sítio público tem alguns pontos de contacto com essa nobre actividade) e sobretudo quando, todas as semanas, enfrento um microfone para gravar os meus programas.

E eu adoro rádio. Actualmente faço o Rimas e Batidas na Antena 3 (todas as segundas, entre a 01h e as 03h da madrugada) e o África Eléctrica (todas as terças, igualmente entre a 01h e as 03h da madrugada). Colaboro ainda com o Ginga Beat , um programa da Red Bull Music Academy que é difundido na Antena 3 (aos sábados as 10h da manhã) e "on demand" em www.redbullmusicacademyradio.com .

E posso dizer que, de alguma forma, sempre fiz rádio. Penso que já por aqui expliquei que qualquer passeio familiar mais demorado é sempre precedido de uma horinha a queimar cds para preparar a banda sonora para a viagem. Mas desde que me lembro que estou sempre a emitir alguma coisa para alguém: nos tempos de escola eram os amigos que se reuniam lá em casa para ouvir as últimas aquisições, o gravador de cassetes que levava para ouvir música nos intervalos, as cassetes que gravava para oferecer a amigos e sobretudo a amigas.  No fundo, trata-se de colocar uma pergunta muito simples: "Adoro isto e vocês, o que é que acham?"

Antes da Antena 3 (que já dura para mim há quase uma década), fiz rádio na Oxigénio e na Marginal e antes disso na XFM. Sempre os chamados programas de autor, aqueles onde não existe playlist e onde a liberdade é (quase) total. Mas os meus primeiros contactos com a rádio, do lado de lá, o do microfone, aconteceram ainda nos anos 80 ("it's been a long time", como diria o Rakim). A primeira experiência "a sério" aconteceu aos microfones da mítica Correio da Manhã Rádio: colaborava num programa dedicado à música portuguesa de título O Elevador da Glória .

Antes disso, nas primeiras férias de Verão após ter entrado na faculdade, fiz durante um par de meses um caótico programa numa "rádio livre" de Coimbra onde valia absolutamente tudo, incluindo tentativas de encenar textos de Woody Allen do livro Para Acabar de Vez Com A Cultura .

Mas a primeira vez que coloquei os pés numa cabine de rádio e tive a oportunidade de falar para um microfone aconteceu quando ainda estava no liceu. O desafio foi colocado pela professora de filosofia e a sua superação implicou o tipo de coisa que hoje me valeria o apelido de "geek" ou algo assim (uma boa nota num teste ou num trabalho, se bem me recordo). O "prémio" foi a possibilidade de ir discutir qualquer coisa que supostamente interessaria aos "jovens" num programa da delegação regional da RDP, em Coimbra. Já não guardo na memória o que se discutiu. O que lembro com total clareza é que quem nos recebeu e conversou connosco foi a senhora Né Ladeiras. Há-de ter sido antes de Corsária (1989) e certamente depois de Sonho Azul (1984). Mas na altura eu conhecia-a sobretudo de canções como "Salvé Maravilha", "Natação Obrigatória" e "Ai Se a Luzia", que tinha gravado no início dos anos 80 com a Banda do Casaco.

A Né Ladeiras não sabe e a sua memória tem certamente coisas mais importantes para guardar do que uma conversa distante com alguns adolescentes com a mania, mas eu acho que não podia ter escolhido melhor voz para me apresentar a essa maravilha que é a rádio.

E se não sabem quem é a Né, ouçam-na por favor aqui mesmo (e ouçam-na mesmo que saibam, já agora):





Crónica de Rui Miguel Abreu  
Notícia escrita por RMA Segunda, 19 de Setembro de 2011 às 11:36
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