Tenho quase a certeza que conheci Sam The Kid no estúdio da Rádio Marginal, algures entre 1998 e 1999. Na época fazia um programa chamado
Hip Hop Don't Stop
que tinha a particularidade de ter várias sessões ao vivo em estúdio, com DJs e MCs em modo "freestyle" a debitarem tudo o que lhes passava pela cabeça ou pelos dedos, sem rede e sem censura de qualquer espécie.
O Sam passou por algumas dessas sessões de improviso e foi aí que me apercebi do seu extraordinário talento. Não que eu mereça algum mérito por isso: era mesmo impossível não reparar na criatividade de uma pessoa que rimava como poucos, produzia os seus próprios beats com um sampler rudimentar e ainda fazia filmes de uma forma tão amadora como imaginativa usando uma pequena handycam e absolutamente mais nada - a edição e a montagem eram feitas na própria câmera. Com a tecnologia que hoje temos à disposição talvez não se consiga perceber como tais feitos eram impressionantes. Mas eram.
Em vésperas da edição de um novo trabalho dos Orelha Negra, grupo instrumental onde Sam une esforços com DJ Cruzfader - outro dos residentes habituais do
Hip Hop Don't Stop
- Fred e dois velhos amigos dos Cool Hipnoise, João Gomes e Francisco Rebelo, lembrei-me do episódio que haveria de conduzir ao nascimento do álbum
Beats Vol. 1: Amor
, que editei na Loop:Recordings há já uma década (e como passa o tempo...).
Ainda na Nortesul tentei traduzir o meu interesse por Sam The Kid num convite com um ângulo muito particular: gostaria de editar um disco só com os seus instrumentais, pois reconhecia já na sua abordagem à produção uma profunda originalidade, talvez por ir semeando a sua paixão por música portuguesa nas entrelinhas do seu discurso e na arquitetura dos seus beats. Em
Entre(tanto)
havia Amália por via de Dulce Pontes, por exemplo, quando a maior parte dos seus companheiros ainda não tinham conseguido olhar para lá das texturas soul-funk que tinham ajudado a erguer o edifício hip hop nos Estados Unidos.
O resultado foi algo de semelhante ao que nos habituámos a ver em prolíficos artistas como Madlib. Sam entregou-me na altura 3 CDRs com 90 instrumentais!!! Ainda tenho esses CDs em casa, com beats que, na sua esmagadora parte, nunca viram a luz do dia. Recordo, por exemplo, um sample de José Afonso num dos instrumentais mais curiosos e originais (algo de
Galinhas do Mato
, se não me engana a memória). O material contido naqueles três CDs era assombroso, prova clara do tal talento que saltava à vista e que garantia mesmo que Sam era um futuro fenómeno.
O disco na Nortesul nunca chegou a acontecer. Entretanto, Sam confirmou o que era impossível ignorar com a sua estreia "a sério", o álbum
Sobre(tudo)
, também de 2002. A Loop já tinha nascido há um ano e eu decidi insistir na ideia do disco de instrumentais e voltei a falar com Sam. O resultado foi o hoje clássico
Beats Vol. 1
. Para mim, parte do imenso charme desse disco reside na sua arquitetura algo artesanal: Sam foi para o estúdio da Loop com a sua MPC e tocou cada um dos temas ao vivo, directamente para o DAT que serviu de Master para a produção do álbum. Sam ainda não utilizava as possibilidades de sequenciação permitidas pela máquina da Akai, talvez porque durante tantos anos o seu pequeno sampler da Boss o tenha obrigado a produzir dessa maneira. Isso significava que todos aqueles arranjos estavam na sua cabeça. E a maior parte dos temas foi depois "tocado" ao primeiro take, directamente para o Dat. E mais nada.
Esse disco foi importante: para o Sam, para a Loop, para o hip hop português. Chegou a um outro público e foi justamente distinguido pela crítica. Dez anos depois, Sam prossegue o seu singular caminho e o novo capítulo da aventura Orelha Negra só lhe reforça o imenso talento. Obrigado Samuel.
Crónica de Rui Miguel Abreu
Artistas de A a Z
¤ Sam the Kid
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