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O dia em que eu... conheci Raekwon dos Wu-Tang Clan [crónica de Rui Miguel Abreu] -

O dia em que eu... conheci Raekwon dos Wu-Tang Clan [crónica de Rui Miguel Abreu]

Encontrar mitos nos subterrâneos de Paris não é algo que se faça todos os dias, como Rui Miguel Abreu explica na sua crónica de hoje.

Já por aqui escrevi que uma das grandes recompensas da minha vida profissional foi sempre a oportunidade de me poder cruzar com pessoas cuja música admiro. No fundo, poder ver de perto aquelas figuras que adornam as capas de discos tantas vezes escutados devolve-os a uma condição mais terrena e humana. E a mim sempre me interessou perceber quem eram, afinal, os homens - e as mulheres! - por trás dos mitos.

O arranque da minha carreira foi nesse aspeto absolutamente estonteante: David Bowie, Amália Rodrigues, Rui Reininho, Adolfo Luxúria Canibal, Bryan Ferry, Lou Reed, David Byrne... Fartei-me de riscar nomes da minha lista pessoal de ídolos que fazia questão de conhecer. Confesso que, com o passar dos anos, esse maravilhamento foi-se perdendo. De certa maneira, até fui aprendendo a respeitar os mitos e a não fazer tanta questão de vislumbrar as figuras humanas que se escondiam por trás. Muitas vezes, a imagem na capa do disco é mais interessante do que a realidade. E participar em maratonas de entrevistas com vários outros jornalistas, às vezes de diferentes pontos do globo, devolve-nos à realidade: não estamos ali para conhecer o homem ou a mulher, mas apenas para colocarmos algumas perguntas ao artista, para participar, afinal de contas, na contínua construção do mito. Nunca fui às compras ao mercado com nenhum dos meus ídolos, nunca os ajudei a levar filhos à escola ou a arrumar a garagem. E foi por aí que a magia inicial dos primeiros tempos de profissão foi desaparecendo.

Continuo, pois claro, a gostar de me cruzar com pessoas cuja música admiro, mas aquela réstia de admiração juvenil parece ter desaparecido e nos últimos anos já não são assim tantos os músicos que elevam os meus níveis de ansiedade para lá do normal. Até porque com a transformação da indústria, muitos destes encontros no plano físico passaram em boa parte para cronometradas conversas telefónicas.

Mas há uns três anos, e a serviço da BLITZ, fui a convite de uma marca de telemóveis até Paris para assistir a uma festa com will.i.am como cabeça de cartaz. A conversa com o homem do leme dos Black Eyed Peas aconteceu num elegante hotel da cidade e decorreu, como seria de esperar, na companhia de vários outros jornalistas de outros pontos da Europa convidados para o mesmo efeito. Apesar de ser um razoável fã dos primeiros dois álbuns dos Peas e de ter em boa conta a contribuição de will.i.am para a série Beat Generation da BBE (a mesma para que produtores como Pete Rock, Jay Dilla ou Marley Marl também contribuíram), o nome que realmente me excitava no cartaz desse evento era o de Raekwon, lendária figura dos não menos lendários Wu-Tang Clan. Nessa mesma noite apresentavam-se ainda os Chromeo, que também tive oportunidade de entrevistar, mas era o homem de Only Built For Cuban Linx... que realmente me interessava conhecer.

já depois de ter conversado com os Chromeo no local do referido evento - um gigantesco clube para que se entrava por debaixo de uma das pontes do Sena - pedi para falar com Raekwon. A resistência foi imediata: um representante da marca começou por me dizer que era complicado falar com o manager, que "eles" - referindo-se à entourage de Raekwon - não eram assim tão simpáticos, que provavelmente seria melhor nem sequer tentar. Mas perante a minha insistência, lá fui apresentado ao manager. E aí, novo filme: "O Rae está com uma terrível dor de dentes, já teve que ir esta noite ao hospital e está intratável. Tens a certeza que queres mesmo estar sozinho numa sala com ele?". Por esta altura comecei a pensar que se calhar era mesmo melhor não riscar mais um nome da tal lista, que ter falado com o will.i.am e os Chromeo já tinha sido bom e que, pronto, ao menos iria ver o Raekwon em palco e que a perspetiva de o ver a interpretar "Can It All be So Simple" ou "Ice Cream" já era suficientemente apelativa e que mais valia deixar a fera amansar e esperar por melhores dias.

Mas antes que eu pudesse responder ao manager, uma voz de dentro do camarim disse algo como "bring the man in". O manager disse depois que parecia que eu estava com sorte e abriu a porta. Lá dentro, Raekwon não era nada do que eu estava à espera. Sorriso amplo na cara, levantou-se para me cumprimentar, afável, paciente, calmo nas respostas, cheio de palavras de incentivo para a cena portuguesa de hip hop, sobre a qual me questionou. No final, e reparando na pequena máquina digital que eu tinha, sugeriu até que tirássemos uma foto. Nunca fui grande caçador de autógrafos ou de fotos e só documentei desta forma uma ínfima parte destes encontros que por aqui refiro. Mas essa foto teve um sabor especial. Raekwon é um cronista da vida das ruas, um homem que pinta nítidos retratos das malhas do crime, mas é, antes de mais nada, um artista. E o artista que encontrei naquele camarim, num subterrâneo de Paris, permitiu-me que vislumbrasse o homem na sombra do mito - pude até desejar-lhe as melhoras! Nessa lista de encontros com mitos, Raekwon ocupa um lugar muito especial, bem lá no cimo.

O dia em que eu... conheci Raekwon dos Wu-Tang Clan [crónica de Rui Miguel Abreu] -


Crónica de Rui Miguel Abreu
Notícia escrita por RMA Segunda 2, às 11:12
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