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O dia em que eu... comprei o What's Going On [crónica de Rui Miguel Abreu] -
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O dia em que eu... comprei o What's Going On [crónica de Rui Miguel Abreu]

A pergunta eterna de Marvin Gaye serviu de banda sonora para as questões que se avolumaram na cabeça de Rui Miguel Abreu perante os acontecimentos recentes em Inglaterra.

O Facebook inundou-se de sugestões para a banda sonora dos saques que tomaram conta de Londres e os Clash pareciam liderar a "tabela" com temas como "London's Burning" ou "Police & Thieves", mas cá em casa a pergunta levantada por Marvin Gaye há exactamente 40 anos parecia fazer muito mais sentido, ou pelo menos ecoar aquilo em que eu próprio não conseguia parar de pensar: "o que é que se passa?".

O álbum que Marvin editou em finais de Maio de 1971 é apontado por muitos como um dos melhores da história da pop. A Rolling Stone, por exemplo, deu-lhe o sexto lugar na lista dos 500 Maiores Álbuns de Sempre. Eu, provavelmente, seria capaz de o colocar um pouco mais acima. É um álbum muito pequeno, com cerca de 35 minutos e com apenas 9 canções, um disco que parece esgotar-se num sopro, de cada vez que se coloca a tocar, tão intenso e tão breve que é. Nesse álbum, que Marvin escreveu e gravou num período muito especial da sua vida, o cantor que era na altura uma das figuras de proa da Motown deixou de lado as canções românticas que lhe tinham garantido a fama e optou por se dirigir a toda uma geração e questionar o rumo da sociedade, na altura a braços com a guerra do Vietname, o Movimento dos Direitos Civis e todos os tumultos e agitações que essas duas "frentes de batalha" geravam. O resultado dessa fuga da linha de montagem da Motown foi espantoso: Marvin iluminou o caminho para a soul, ofereceu a essa música uma sofisticação orquestral até aí pouco comum, deu-lhe uma dimensão de protesto e como resultado obteve um daqueles discos eternos, dos raros que conseguiram superar o tempo e impor-se como uma banda sonora para a eternidade. Tão pertinente em 1971 para responder às angústias dos soldados que regressavam do Vietname - como tinha sido o caso do irmão do próprio Marvin, que inspirou a direcção conceptual do álbum - como em 2011 para ajudar a entender o que todas as televisões mostraram neste verão que só parece ter aquecido com o calor das chamas.

Não consigo recordar a data exacta da compra de What's Going On , mas localizo-a na segunda metade dos anos 90 e lembro-me exactamente da ocasião: uma feira de vinil, a primeira do género, se bem me lembro, que trouxe a nata dos coleccionadores nacionais até ao CCB, em Belém. A feira teve lugar numa grande tenda montada na praça central e apesar de ter sobretudo vendedores portugueses, havia também um stand de um "dealer" canadiano. Na época não era muito vulgar ter acesso a prensagens do lado de lá do Atlântico e por isso não hesitei quando vi a edição canadiana de What's Going On . Com Detroit tão perto da fronteira com o Canadá, achei que essa seria a mais flagrante oportunidade de chegar perto de uma prensagem original e lá comprei o disco. Sei o preço, porque mantive a capa de plástico original onde vinha inscrito o valor: mil e quinhentos escudos ou sete euros e meio a preços de hoje. Uma pechincha, mas ainda assim o disco mais caro que comprei nesse dia. E todas as compras desse dia foram financiadas com o negócio que realizei com um dos vendedores portugueses: um álbum de Elvis Presley prensado no Brasil (a banda sonora de King Creole ) rendeu-me cinco mil escudos, negócio excelente sobretudo tendo em conta que o tinha comprado numa loja de velharias perto de casa por meia dúzia de tostões. Foi esse o orçamento que tive disponível para "investir" e a julgar pela forma como os discos que comprei nesse dia resistiram à evolução dos meus gostos, penso ter feito investimentos acertados. Esse vendedor canadiano ainda ficou uns tempos em Portugal e durante algumas semanas que se seguiram ao evento do CCB foi possível comprar-lhe mais alguns clássicos de soul na banca que montou na Feira da Ladra. Ainda tenho todos esses discos.

E agora o remate final para a coluna de hoje: a possibilidade de ligar a música à história, às nossas histórias, nunca foi tão real como hoje. Qual seria a banda sonora nos auscultadores das pessoas que se envolveram nas pilhagens? Que música fizeram questão de ouvir nos telemóveis e leitores de MP3 saqueados em todas aquelas lojas? Não faço a mais pequena ideia, ao contrário dos comentadores mais conservadores dos tablóides britânicos que não levaram tempo algum a apontar o dedo ao suspeito do costume. O que eu sei é que já Marvin Gaye sentia o caminho que o mundo estava a tomar, há 40 anos, quando apelou a que se salvassem as crianças. Assim:

I just want to ask a question
Who really cares?
To save a world in despair
Who really cares?
There'll come a time, when the world won't be singin'
Flowers won't grow, bells won't be ringin'
Who really cares?
Who's willing to try to save a world
That's destined to die
When I look at the world it fills me with sorrow
Little children today are really gonna suffer tomorrow
Oh what a shame, such a bad way to live
All who is to blame, we can't stop livin'
Live, live for life
But let live everybody
Live life for the children
Oh, for the children
You see, let's save the children
Let's save all the children
Save the babies, save the babies
If you wanna love, you got to save the babies
All of the children
But who really cares
Who's willing to try
Yes, to save a world
Yea, save our sweet world
Save a world that is destined to die
Oh, la, la, la, la, la, la, la
Oh, oh dig it everybody
Artistas de A a Z    ¤   Marvin Gaye
Notícia escrita por RMA Terça, 16 de Agosto de 2011 às 14:14
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