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Vi Laurie Anderson pela quarta vez na minha vida na passada sexta-feira. A artista nova-iorquina apresentou-se em Torres Vedras no âmbito de uma mini-digressão nacional com o espetáculo
Dirtday!
, uma combinação inteligente de música, performance de recorte teatral e observação das grandes, médias e pequenas questões da vida traduzida numa forma muito particular de contar histórias. Descobri-a - e já por aqui recordei esse dia... - em meados dos anos 80 e cruzei-me pela primeira vez com ela num espetáculo no Fórum Picoas em 1988 não muito diferente deste que agora presenciei no Teatro Cine. Lembro-me que nessa ocasião, Laurie Anderson assinou a minha cópia de
United States Live
. Voltei a vê-la em duas muito diferentes situações: num Coliseu dos Recreios pré-renovação e na primeira parte de um concerto de Bob Dylan no Pavilhão do Dramático de Cascais. O que me levou repetidamente ao encontro de Laurie Anderson foi uma noção que parece estar a cair em desuso entre os consumidores de música ao vivo e que resulta da combinação da apreciação do conjunto de uma obra e do desejo de ser permanentemente surpreendido. Quando me sentei na plateia do Teatro de Torres Vedras na última sexta-feira a verdade é que não fazia a mínima ideia do que ia ver.
Como é óbvio, tenho perfeita consciência de que o que leva alguém a comprar um bilhete para Laurie Anderson é completamente diferente do que leva outra pessoa a querer ver, digamos, os Amor Electro em cima de um palco. Poderá argumentar-se que nesses dois extremos se situam a típica manifestação cultural elitista e o fenómeno pop de massas. Mas o que para mim foi válido no caso de Laurie Anderson - o tal compromisso entre a apreciação do conjunto da obra e a vontade de encaixe da surpresa - também justifica a minha presença em espetáculos tão diferenciados ao longo dos anos como, sei lá, David Bowie no Estádio José de Alvalade no arranque dos anos 90 ou Lil' B na ZDB há um par de semanas.
Este longo preâmbulo serve para, com os paninhos mais quentes que consigo desencantar por aqui, manifestar uma certa incredulidade perante o que me parece ser um fenómeno recente. Se nos casos já descritos há uma obra cristalizada com múltiplos pontos de interesse de onde os artistas podem extrair alinhamentos recheados de clássicos (David Bowie), ou uma constante vontade de desbravar novo território que rende momentos únicos (Laurie Anderson) ou ainda uma efervescente atitude de rutura que traduz busca constante de surpresa (Lil' B), a verdade é que tenho assistido ao nascer de fenómenos que parecem levar as pessoas às salas de concertos não para serem surpreendidas, não para serem transportadas numa viagem panorâmica por uma obra singular, certamente não para serem esmurradas no estômago (ainda que metaforicamente...) , mas simplesmente para ouvirem - e verem! - o excerto do hit do momento. E sublinho a palavra "excerto".
A ver se me faço entender: talvez ecoando uma capacidade de atenção cada vez mais reduzida, tenho a sensação que se passou de se marcar presença em concertos por causa de uma obra inteira para apenas ouvir um hit muito específico e que até isso já foi substituído pela mera satisfação em ouvir o "snippet" que surge agregado ao anúncio de um produto qualquer ou ao genérico da novela mais recente. Já não uma discografia, já não um conjunto de sucessos ou mesmo um hit estrondoso como pilar para um concerto, mas simplesmente uma frase: "que perfeito coração" ou "é de pedir aos céus" bastam para incendiar audiências? É o que parece... Pelo menos visto daqui. A construção de hits não pela repetição constante nas playlists da rádio, mas pela associação a spots publicitários ou genéricos de programas que raramente se estendem por mais do que algumas dezenas de segundos parece ter gerado um público que já só quer ouvir aquela frase-chave, aquele crescendo particular que de tão repetido se torna ubíquo e permanente, uma espécie de injeção de açúcar pop tão aditiva quanto inescapável.
Será isto mesmo verdade? Provavelmente é só impressão minha, mas por vezes tenho a sensação que se alguém começar a organizar digressões com uma banda qualquer que interprete o mais recente jingle do hipermercado X ou da cerveja Y é bem capaz de vender alguns bilhetes.
Crónica de Rui Miguel Abreu
Artistas de A a Z
¤ Amor Electro
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