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Na verdade, há anos e anos que concordo com David Byrne. Sou um admirador assumido de tudo o que este senhor tem feito desde os dias dos Talking Heads, uma das minhas bandas favoritas e uma das minhas mais antigas paixões musicais. Mas precisava de dar um título à crónica de hoje e a ideia de concordar com David Byrne parece-me apropriada, sobretudo porque se prende com algo que ele defende no seu novo livro,
How Music Works
, que acaba de ser lançado nos Estados Unidos praticamente em paralelo com
Love This Giant
, o álbum que editou com St Vincent.
Lembro-me de, já há uns anos valentes, conversar com um colega que pertence à minha geração e que também escreve sobre música sobre isto de ser crítico. Dizia-me ele com alguma veemência que só lhe interessava a música que saía das colunas quando colocava um CD ou um vinil a tocar. Que mais nada era importante. E que um álbum de um artista português deveria ser comparado com o álbum de um artista americano ou inglês apenas de acordo com essa despida experiência auditiva. De certa maneira, essa é uma escola de pensamento que tem atravessado boa parte da nossa crítica musical, sobretudo a que se impôs em Portugal dos anos 90 em diante. E, acredito, passa por essa atitude boa parte da desvalorização que a nossa música sofre em termos críticos face à música que todos os dias importamos de fora.
A minha opinião era diametralmente oposta. Sempre acreditei - e essa é uma ideia em que trabalho com algum afinco nas aulas do curso de Jornalismo e Crítica Musical que coordeno na ETIC - que o contexto era igualmente importante e determinante e que compreender o contexto em que um disco era criado e gravado nos permitiria compreender e apreciar melhor o que saía das colunas logo que se carregava no "play". Enquanto o meu colega defendia que a sua relação crítica com um disco só começava no momento em que a música soava, eu acreditava que a relação se podia construir muito antes disso, ao ler sobre esse disco, ao descodificar as palavras do músico em causa nas entrevistas que ia concedendo, ao absorver a informação impressa na capa. Tudo isso, penso eu, afeta a forma como vamos ouvir o disco.
No seu novo livro, David Byrne defende, precisamente, a ideia do contexto. "O Génio - a emergência de um trabalho verdadeiramente extraordinário e memorável - parece surgir quando uma coisa está perfeitamente adequada ao seu contexto", escreve o músico, citado numa entrevista à Rolling Stone publicada na passada semana. Ontem mesmo, o Guardian também publicou uma entrevista com Byrne onde o músico volta a sublinhar a importância do contexto, da forma que rodeia as emoções expressas na canção. O que se diz e como se diz. O que se diz, como se diz e em que contexto. Faz pleno sentido para mim.
Apesar de reconhecer que a música vive hoje num contexto diferente e que a última década assistiu a uma transformação dramática na forma como a música é "descoberta e disseminada", Byrne explica que as cenas continuam a ser importantes, mas que hoje podem surgir em torno de um tipo equipado apenas com um laptop num quarto algures. "Mas ainda há algo de comunal nisto, a ideia da performance que ainda atrai pessoas para saírem e irem ver a banda. Uma vez que as pessoas se sentem isoladas no mundo online, talvez precisem mais disso. O contacto físico é uma necessidade humana".
Sinto-me curioso em relação à música que está a ser feita agora, neste contexto. Quantas canções irão ser escritas - ou já terão sido escritas - a propósito da manifestação do último sábado? Ouviremos a canção toda se só considerarmos o que sai das colunas, se não soubermos o contexto que as originou, se não revirmos as imagens de todos aqueles milhares de pessoas unidas em protesto? David Byrne pensa que não. E eu concordo com ele.
Crónica de Rui Miguel Abreu
Foto de Rita Carmo/Espanta Espíritos
Artistas de A a Z
¤ Talking Heads
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