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Os 21 melhores concertos de sempre em DVD

Grandes multidões ou plateias intimistas? Pirotecnias milionárias ou recato “acústico”? Artista solitário ou “família” numerosa? Um grande concerto não tem uma receita certa, mas o seu impacto sente-se na pele, ressoa para sempre. E para que não se pense que estamos a exagerar, tudo isto pode ser visto na sala de sua casa.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

1 Talking Heads
Pantages Theatre (Los Angeles), 14.12.1983

DVD Stop Making Sense

Há alguns anos, David Byrne apresentou-se ao vivo em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, com uma trupe de bailarinos que interferia igualmente na música que o antigo vocalista dos Talking Heads apresentava nessa digressão. Esse espetáculo era mais um capítulo numa longa história de intervenção sobre o lado mais convencional da performance rock. David Byrne fez sempre questão de subverter as normas das convenções rock no que diz respeito a magnetismo sexual, performance física, vocal e instrumental, gestão cénica, etc. E tudo terá começado com os concertos documentados no fabuloso filme de Jonathan Demme, Stop Making Sense.

Ao longo de três noites no Pantages Theatre de Hollywood, em dezembro de 1983, encontramos um Byrne explora toda a sua veia absurdista, usando a seu favor as normas clássicas da performance rock para oferecer uma visão alterada de um concerto. Byrne começou por entrar em palco sozinho e com um «tijolo», interpretando, logo a matar, «Psycho Killer». A partir daí, a cada nova canção, mais um músico ia entrando em palco, começando, claro, pelos restantes membros da banda. Mas os Talking Heads, que vinham da cena punk do CBGB, rapidamente se viram rodeados em palco de uma série de monstros do funk, incluindo músicos dos Parliament/Funkadelic e Brothers Johnson. O que fez de qualquer um destes concertos uma lição tremenda de groove, com «Burning Down The House» a fazer exatamente o que o título promete. «Once in a Lifetime», «Genius of Love», dos Tom Tom Club, «Girlfriend is Better» ou o clássico de Al Green, «Take Me To The River», foram outros momentos altos de um espetáculo imaculado onde a luz, a cenografia, as movimentações em palco e a icónica roupa de Byrne sobretudo o fato de tamanho XXXXL contribuíram para um momento insuperável.

Aqui não há pirotecnias avulsas, gestos gratuitos ou pormenores de encher o olho. Apesar do lado «arty», declaradamente inspirado nas ideias avançadas de Byrne, os Talking Heads rockam e funkam! a sério em palco, provando ser à época, e com uns Clash a entrarem em fase descendente, a melhor banda do planeta. Fossem todos os concertos assim, tão entusiasmantes, tão cerebrais e, no entanto, tão físicos.

2 Jimi Hendrix
Monterey Pop Festival,18.06.1967

DVD Live at Monterey

É aos 44 minutos do espetáculo de 1967 que, durante uma versão insana de «Wild Thing», Jimi Hendrix, então com 24 anos, despeja um pouco de álcool sobre o instrumento que o tornou um ícone do rock e incendeia a guitarra elétrica com que tinha acabado de dar um concerto histórico no festival californiano. À época, Hendrix, Noel Redding e Mitch Mitchell eram mais conhecidos em Inglaterra do que nos Estados Unidos, mas depois desta atuação a história seria outra. Pete Townshend, dos The Who, já sabia do que a casa gastava, e por isso recusou-se a tocar depois de Hendrix.

3 Nirvana
Festival de Reading, 30.08.1992

DVD Live at Reading

Um dos momentos incontornáveis da história do grunge é também um dos momentos mais marcantes da história do rock. Kurt Cobain mostrava aqui quem ditava as regras e levava os seus Nirvana ao centro do mundo com «Smells Like Teen Spirit» e as canções de um Nevermind ainda bem fresquinho. O líder da banda de Seattle, envergando uma bata de hospital, entrava em palco numa cadeira de rodas, empurrado pelo jornalista musical Everett True, para aquele que se tornaria o último concerto dos Nirvana em terras de Sua Majestade.

4 Led Zeppelin
Madison Square Garden (Nova Iorque), 27.07.1973

DVD The Song Remains the Same

Os britânicos Led Zeppelin estavam no auge da popularidade acabados de editar Houses of the Holy, depois do quarteto de álbuns homónimos quando o manager os foi arrancar às férias para dar três concertos no Madison Square Garden.

«Stairway to Heaven», «canção de esperança» nas palavras de Robert Plant, é, obviamente, um dos pontos altos de uma atuação que termina, de forma literalmente incendiária, com um «Whole Lotta Love» a aproximar-se da marca dos 15 minutos de riffs e improvisações. De cortar a respiração.

5 The Who
Festival da Ilha de Wight, 29.08.1970

DVD Live at the Isle of Wight

Mais do que um concerto de cerca de hora e meia de uma das mais famosas bandas rock de sempre, Live at the Isle of Wight é o testemunho de uma época histórica da música popular. Pela terceira edição do festival, que se realizava desde 1968 na pequena ilha britânica, estima-se que tenham passado 600 mil pessoas. Com a ópera rock Tommy (1969) ainda bem fresca, e duas semanas depois de terem estado em Woodstock, os The Who apresentaram esse álbum, ao lado de clássicos como «My Generation» ou a sua versão de «Summertime Blues».

6 Bob Marley
Rainbow Theatre (Londres), 3.06.1977

DVD Live! At the Rainbow

O efeito mais imediato do concerto de Bob Marley no Rainbow Theatre, em Londres, terá sido, porventura, o cimentar do fenómeno reggae entre o público do lado de cá do Atlântico, em particular no Reino Unido aproveitando a influência que a música jamaicana tinha no fenómeno punk, então em franca expansão. Quatro anos antes da sua morte, o músico jamaicano apresentava, com os seus Wailers, as canções de Exodus, disco gravado na capital inglesa, mas não contornava os hinos «No Woman, No Cry», «I Shot the Sheriff» ou «Get Up, Stand Up».

7 David Bowie
Hammersmith Odeon, 3.07.1973

DVD Ziggy Stardust and the Spiders From Mars

No exato momento em que ameaçava tomar conta do planeta, trajado como Ziggy Stardust, David Bowie decidiu matar essa personagem andrógina e alienígena, sem avisar os seus companheiros de banda. Essa noite histórica e dramática foi documentada em filme por D.A. Pennebaker, com Bowie a transformar em arte o mais famoso «suicídio rock and roll» de sempre. Assistido por Mick Ronson, Trevor Bolder e Mick «Woody» Woodmansey, Bowie transformou o palco num altar de sacrifícios, estabelecendo a fasquia por que todas as estrelas rock seriam julgadas em anos seguintes.

8 Queen
Estádio de Wembley (Londres), 12.07.1986

DVD Live At Wembley 86

Poucos o saberiam, mas o último concerto dos Queen no Estádio de Wembley seria também um dos últimos de sempre da banda britânica menos de um mês depois (e após três datas em Espanha, com Portugal ainda fora do roteiros dos concertos de estádio), Knebworth Park dizia adeus, sem saber, a «Suas Majestades» do rock inglês. Em Wembley, Freddie Mercury parecia ciente de que o adeus aos palcos seria irredutível: deu um concerto imperial, correndo o grande palco de lés a lés e, por entre versões de rock'n'roll primevo, desfilou êxitos que 75 mil pessoas queriam ouvir.

9 AC/DC
Pavillon de Paris, 9.12.1979

DVD Let There Be Rock

Bon Scott parecia indestrutível. De tronco nu e pose macho, pegou aqui ao serviço na trepidante «Live Wire» e só descansou no fim de «Let There Be Rock». Pouco mais de dois meses depois, o vocalista da banda australiana encontrava a morte, depois de uma noite de excessos alcoólicos. Os AC/DC ficariam bem entregues à voz de Brian Johnson (o álbum seguinte, Back in Black, foi o de maior sucesso do grupo), mas uns certos anos 70 celebratórios e excessivos morreram em Paris, nas calças justas rasgadas de Bon Scott.

10 The Clash
Palais des Sports (Paris), 27.02.1980

DVD Live in Paris 1980

London Calling é, provavelmente, o melhor álbum dos Clash e este concerto em Paris, dois meses depois do lançamento do álbum, apanha a banda de Joe Strummer no topo das suas forças, ainda que a voz do vocalista soe sempre no limite da exaustão. Para a história, vinte e nove vinte e nove, repita-se canções celebradas por 4500 pessoas a acotovelarem-se inquietamente. A fúria de «Complete Control» é indescritível e se Mick Jones não for um dos melhores guitarristas de sempre, algo estará errado com o mundo.

11 Santana
Woodstock Festival, 16.08.1969

DVD Woodstock

Há momentos decisivos, como aquele que Santana, a banda do guitarrista do mesmo nome, protagonizou em Woodstock a 16 de agosto de 1969. Um par de semanas antes da edição do seu álbum de estreia, estes Santana eram uns perfeitos desconhecidos, mas uma incendiária performance desta «jam band» sintonizada com o espírito da época transformou-os em estrelas instantâneas, sobretudo o seu líder e guitarrista. Temas como «Jingo» ou «Soul Sacrifice» retinham muita da energia latina na base do som de Santana, mas acrescentavam poder elétrico e hipnótico.

12 Simon and Garfunkel
Central Park (Nova Iorque), 9.09.1981

DVD The Concert in Central Park

Em 1981, Simon & Garfunkel voltaram a pisar o mesmo palco juntos e logo perante meio milhão de pessoas que em Central Park, Nova Iorque, presenciaram a combinação mágica que tinha marcado uma geração. Imortalizado em disco e num especial televisionado em todo o mundo, este concerto incluiu a imaculada interpretação de clássicos como «The Sound of Silence», «Mrs. Robinson» ou «The Boxer». Paul Simon ironizou e disse tratar-se «de um concerto para os vizinhos» e, de facto, há por ali muita magia própria de Nova Iorque, na forma como cada canção encontra eco no público.

13 Pearl Jam
Madison Square Garden, 8.07.2003

DVD Live at the Garden

Quando subiram ao mítico palco nova-iorquino em 2003, os Pearl Jam já não eram «só» os pontas-de-lança de um fenómeno chamado grunge: eram uma das maiores bandas do planeta. E chegavam lá com Riot Act, um dos álbuns menos memoráveis, em mãos para transformar o concerto num verdadeiro triunfo. Momentos altos: o solo improvisado de cinco minutos do guitarrista Mike McCready em «Even Flow», o coro generalizado em «Black» e a dedicatória a Andrew Wood, falecido vocalista dos Mother Love Bone, com uma versão de «Crown of Thorns».

14 Jeff Buckley
Cabaret Metro (Chicago), 13.05.1995

DVD Live In Chicago

«Os anos 60? Uma treta. Os 70? Quase uma treta. Os 80? Nem vale a pena dizer nada, à exceção, talvez, dos Smiths. Agora é que é, está tudo acontecer: maior, mais rápido, mais suado, mais magro, mais branco, mais preto». O discurso é do próprio Jeff Buckley, neste concerto da digressão Mistery White Boy, na qual já apresentava temas novos como «Vancouver». Mas é Grace, único disco gravado em vida, que nesta atuação brilha com uma intensidade tão cruel quanto mais nos lembramos que, desde que Buckley Jr. partiu, em 1997, nunca outro intérprete nos quebrou a alma assim.

15 The White Stripes
The Empress Ballroom (Blackpool), 28.01.2004

DVD Under Blackpool Lights

Quando, no início de 2004, o duo norte-americano chega à histórica sala da cidade costeira de Blackpool, em Inglaterra, o impacto de «Seven Nation Army» (canção mais notória de Elephant, álbum de 2003) fazia sentir-se dos dois lados do Atlântico. Um repertório impoluto (proveniente dos três primeiros álbuns), a que se acrescentam versões dos Gun Club, Lead Belly, Bob Dylan e Soledad Brothers, resultam num concerto intenso da banda certa, no sítio certo (uma Inglaterra que abraçou o grupo sem reservas) e na altura certa.

16 Portishead
Roseland Ballroom (Nova Iorque), 24.07.1997

DVD Roseland NYC Live

O que tinha nascido dentro de um sampler que pilhava velhas gravações de Isaac Hayes ou Lalo Schifrin transformou-se, em Nova Iorque, numa incrível performance em que as máquinas acabaram substituídas pela New York Philharmonic Orchestra. «Sour Times», «Only You» ou «Glory Box» foram assim entregues a uma magnificência orquestral, com a banda a interagir em tempo real com as cordas dirigidas pelo lendário Nick Ingman, arranjador de inúmeras gravações de culto do universo da Library Music.

17 LCD Soundsystem
Madison Square Garden (Nova Iorque), 2.04.2011

DVD Shut Up and Play The Hits

Porque nem sempre um concerto é só um concerto, Shut Up and Play The Hits, exibido este ano em Portugal, mostra o antes e o depois de uma noite muito especial: a última vez que os LCD Soundystem subiram a um palco. Diz quem lá esteve que o concerto demorou três horas e foi, como seria de esperar, um misto de música (a que os LCD gravaram ao longo de três álbuns, algumas versões) e overdose emocional, por todos saberem ser aquele o adeus dos nova-iorquinos aos concertos. No filme, há várias canções na íntegra, mas Shut Up. está longe de ser uma mera reprodução do que se passou no Madison Square Garden há coisa de ano e meio. Entrecortadas com as imagens ao vivo vemos, também, uma entrevista em que Murphy explica, quase como no divã do terapeuta, porque decidiu acabar com a banda, e sobretudo a ressaca, emocional e não só, do dia seguinte: o vazio, as memórias, a vida «real». Belo adeus.

18 Rolling Stones
Beacon Theatre (Nova Iorque), 1.11.2006

DVD Shine a Light

O título faz referência a uma canção de Exile on Main St, álbum de 1972, mas Shine a Light foi filmado em 2006 e lançado em 2008, retratando a passagem tripla dos Rolling Stones pelo Beacon Theatre, em Nova Iorque. A filmar a maior banda do mundo numa sala para menos de três mil pessoas está Marty, alcunha da banda para Martin Scorsese, o realizador de Taxi Driver ou Gangues de Nova Iorque. Mick Jagger queixa-se que ter 16 câmaras em palco lhe limitou os movimentos felinos, mas quem viu e aplaudiu o DVD congratulou-se com a sensação de ter os Stones a tocar na sua sala de jantar.

19 George Harrison
Madison Square Garden (Nova Iorque), 1.08.1971

DVD Concert For Bangladesh

Organizado por George Harrison, e pelo amigo Ravi Shankar (que influenciou as inflexões indianas na música do ex-Beatle), o concerto de beneficência em prol dos refugiados do Bangladesh (dizimado por um ciclone e pelos efeitos da guerra civil), reuniu 40 mil pessoas. Em palco, a fina flor do rock (e não só) dos anos 60 e 70: Bob Dylan, Eric Clapton, Leon Russell, Billy Preston, entre outros. Harrison interpretou uma emocionante «Here Comes The Sun», mas foi um inspirado Dylan (com um punhado de êxitos da década anterior) a fazer história.

20 Radiohead
Astoria (Londres), 27.05.1994

DVD Live At Astoria

Num tempo em que o álbum da consagração OK Computer, para quem não vive neste universo estaria ainda longe de ser esboçado, os britânicos Radiohead aproveitavam a sala do icónico Astoria, em Londres, para apresentar as canções de The Bends, sucessor do disco que, com «Creep», os arrancara ao anonimato. Com a garra que lhe conhecemos, Thom Yorke defendia «Black Star», «Just» ou «Street Spirit (Fade Out)» como se a sua vida dependesse disso (e das cordas da guitarra de Jonny Greenwood). O rótulo de «one hit wonder» começava aqui a ficar por terra.

21 Bruce Springsteen
Madison Square Garden (Nova Iorque), 1.07.2000

DVD Live in New York City

O Boss regressava a Nova Iorque, no verão de 2000, para colocar um grandioso ponto final na extensa digressão, iniciada no ano anterior, que marcava a reunião com a E Street Band, com quem cortara ligações musicais em 1989. O final da sabiamente intitulada Reunion Tour mostra Springsteen e a banda em topo de forma e fica para a eternidade pelas apresentações memoráveis de êxitos como «Born to Run», «The River», «My Hometown» ou «Born in the U.S.A.», este último apresentado a solo em formato acústico e versão bluesy.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2012