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30 lugares perdidos da música em Portugal

Sítios com história que entretanto desapareceram

1. Pavilhão Dramático de Cascais

Abriu à pressa, sem cerimónia de inauguração a condizer. E também fechou sem aviso prévio. O pavilhão que ficou conhecido como Dramático de Cascais(pois era ali que o Grupo Sportivo e Dramático de Cascais passou a ter a sua sede administrativa além da maior parte das suas atividades desportivas) havia sidodesenhado pelo arquiteto Henrique Albino. à época, era o pavilhão português com maior lotação, mas não dispunha de eletrificação adequada ou sequer de uma pintura quando abriu portas pela primeira vez. Mas no dia 20 de novembro de 1971 entraram por ali dentro Miles Davis, Keith Jarrett, Dexter Gordon, Ornette Coleman, Charlie Haden e Rão Kyao. O Pavilhão do Dramático, que beneficiava da ausência de locais para espetáculos com aquelas dimensões em Portugal, tinha o destino traçado: seria a música a dar-lhe fama apesar dos feitos do hóquei em patins e do andebol do Cascais.

O Festival de Jazz de Cascais permaneceria ali até 1980, recebendo visitas e concertos ilustres dos Giants of Jazz (Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art blakey e Sonny Stitt, entre outros), Cannonball Adderley, Dave brubeck, Elvin Jones, Jimmy Smith, Phil Woods, Duke Ellington, Sarah Vaughan, bb King, McCoy Tyner, Charles Mingus, Gil Evans, Sonny Rollins, betty Carter, Muddy Waters, Art blakey, George Duke, Toots Thielemans, Tete Montoliu, Freddie Hubbard e John Abercrombie, representantes maiores do jazz e dos blues. Seriam, no entanto, os concertos de rock que viriam conceder ao inóspito equipamento desportivo o epíteto de Catedral.

Ainda nos anos 70, por ali passaram os Procol Harum, blood Sweat and Tears (com os Vinegar Joe, de Elkie brooks e Robert Palmer), Soft Machine, Amon Düul II e, claro, os Genesis, provando que aquele era o local dos concertos de eleição da época. Ali tocaram os maiores do rock progressivo e sinfónico que marcaram aquele tempo. Um sinal: os black Sabbath tiveram dois concertos marcados para ali, em abril de 1973, mas viriam a cancelar a sua estreia em Portugal, tendo a desistência direito a anúncio publicado no semanário Expresso. Porém, seria o punk rock e a new wave, primeiro, e o hard rock e heavy-metal, depois, a dar nome à casa emprestada do Dramático de Cascais.

Esse era o tempo em que o corpo de intervenção do COPCON zelava pela segurança com excesso e denodo, mais tarde substituído pela atuação fora do pavilhão do inspetor Catita, da PSP.

Ficaram então na história os motins que antecederam um concerto, também cancelado, dos Stranglers (com os 999 na primeira parte) em 1978. Mas também os tumultos dentro e fora do pavilhão antes, durante e depois das prestações dos Tubes, Dr. Feelgood, Stranglers, Joe Jackson, Lene Lovich, Lou Reed, Steve Harley (com Gang of Four), Clash, Iggy Pop, Ian Dury, boomtown Rats, Dexys Midnight Runners ou Ramones. Estava aberta uma nova era, ainda que os concertos de rock progressivo, sinfónico e seus derivados ainda espreitassem (Camel, barclay James Harvest, Mike Oldfield, Supertramp, Nazareth ou Peter Gabriel). O Pavilhão doDramático tinha passado a ser uma escola de rock em Portugal. Para os músicos, obviamente, mas também para o público, que ali tomava contacto com novas formasde espetáculo e entretenimento, nas quais se incluíam as viagens de comboio na Linha de Cascais. Não vale a pena esconder: tratava-se, para todos, da primeira vez.

O profissionalismo, inclusivamente para os promotores de espetáculos, só viria depois. Nos anos 80, já depois dos primeiros concertos de heavy-metal por conta dos Rainbow, Whitesnake, Kiss ou dos Iron Maiden, o Pavilhão do Dramático começa a receber, sobretudo mercê das organizações da Tournée, espetáculos produzidosde acordo com o standard internacional.

A lista é quase interminável e transformou o Dramático de Cascais em anfitrião de um rol de artistas de fazer inveja às grandes salas da Europa.

Leonard Cohen, PIL, Gary Moore, Kinks, James brown, Lloyd Cole, Suzanne Vega, bob Dylan e Laurie Anderson (no mesmo dia), brian May, Nirvana e Pearl Jamdeixaram marcas, numa época em que o heavy-metal e o hard rock já tinham transformado aquele pavilhão em região demarcada. Os Iron Maiden faziam com que todas as suas digressões ali poisassem, mas também WASP, Motörhead, bon Jovi, Judas Priest (com Annihilator e Pantera), Sepultura, Extreme, Def Leppard, Paradise Lost, Slayer, Machine Head, Megadeth e Manowar tiveram as suas grandes noites dentro daquele aglomerado de betão gigantesco que se dizia albergar mais de dez mil almas em noites de enchente.

A 7 de novembro de 1998, quase 27 anos depois dos primeiros acordes, aconteceu o derradeiro concerto, com Slayer, Sepultura e System of a Down.

Por essa altura, o risco de derrocada já era aparente e existia uma bancada interditada. Em setembro de 2005, o Pavilhão do Dramático de Cascais começou a serdemolido e no seu lugar, hoje, encontra-se um pacato parque de estacionamento.

Texto: Miguel Cadete

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Originalmente publicado na revista de novembro de 2014, comemorativa dos 30 anos da fundação do jornal BLITZ.