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Os 10 melhores concertos dos Queen com Freddie Mercury [Arquivo]

O espetáculo de 1975 no londrino Hammersmith Odeon, um dos mais pirateados de sempre do grupo e agora editado em CD/DVD, é um deles. Leia o artigo em que se contam as histórias da atuações mais celebradas de Mercury e companhia, agora que passam 24 anos sobre a morte do cantor.

A vida dos Queen em palco durou 16 anos pouco, se compararmos com a travessia dos Rolling Stones; muito se virmos que os Beatles aguentaram os gritos seis anos. Coincide com a entrada do rock nas grandes arenas e foi nelas que Freddie Mercury melhor exercitou um perfeito domínio das massas. Estes são 10 dos mais brilhantes concertos dos Queen. 1. Live Aid, Londres, 13 julho 1985 Como é que uma curta atuação dos Queen, integrada num espetáculo de beneficência e ensanduichada entre prestações de Dire Straits e David Bowie, se transformou na mais marcante de uma carreira cravejada de sucessos em palco? A explicação é simples: foram dos 20 minutos mais intensos a que o universo rock alguma vez assistiu. No concerto inglês do Live Aid, evento que decorreu simultaneamente em Filadélfia e tinha como objetivo angariar dinheiro para ajudar a acabar com a fome na Etiópia, a banda liderada por Freddie Mercury conseguiu, sem direito a soundcheck ou som pré-gravado e com um alinhamento de apenas sete temas (dois deles, "Bohemian Rhapsody" e "We Will Rock You" em versões encurtadas para poupar tempo), revigorar-se e recolher aplausos por parte dos seus pares, das 80 mil pessoas que acorreram ao Estádio de Wembley, em Londres, e de uma audiência televisiva que ascendeu a quase dois mil milhões em todo o mundo. A prestação vocal de Mercury e a sua capacidade de interação com as largas dezenas de milhar de pessoas que tinha à sua frente ajudaram a transformar a atuação dos Queen no Live Aid num dos grandes momentos da história do rock, isto mesmo tendo o grupo britânico atuado ainda com luz do dia (perto das 19h00), sem o seu jogo de luzes habitual, e sofrido com alguns problemas técnicos. A atuação marcou tanto a banda que ainda em dezembro do ano passado, em entrevista ao jornal irlandês Irish Independent, o baterista Roger Taylor relembrava: "tínhamos passado por um período de alguma exaustão. O Live Aid conseguiu revigorar-nos. Voltámos em grande depois dessa atuação. Não esperávamos isso. Fomos para o palco sem fazer soundcheck. Era de dia. O público não era necessariamente o "nosso" público. A dada altura, olhei para a frente e pensei "oh, está a correr bem". Só depois nos apercebemos que tinha corrido muito bem". Algum tempo depois, Bob Geldof, que dividiu a tarefa de organizar o Live Aid com Midge Ure, não poupava nos elogios à prestação da banda: "os Queen foram, sem qualquer dúvida, a melhor banda do dia. Tocaram melhor, tiveram o melhor som, usaram todo o tempo que lhes foi dado. Perceberam perfeitamente a ideia que era isto ser uma espécie de jukebox global. Entraram e rebentaram com tudo, êxito atrás de êxito. Aquele era o palco perfeito para o Freddie: o mundo inteiro". Como o próprio cantor assumira antes de a banda subir ao palco, os Queen aceitaram o desafio de atuar não só devido à causa a que o evento estava ligado mas também porque queriam concorrer com as outras bandas: "toda a gente vai querer fazer melhor do que os outros, o que vai causar alguma fricção. Isso faz-me, pessoalmente, sentir orgulhoso de fazer parte disto". Apesar de não terem tido direito a soundcheck, os Queen tinham ensaiado afincadamente a sua prestação num pequeno teatro perto de King's Cross, em Londres, Shaw Theatre, e diz-se também que, contornando as regras impostas pela organização, o engenheiro de som da banda conseguiu desligar os limitadores instalados no sistema de som do estádio, fazendo assim com que a banda tenha conseguido tocar num volume mais elevado que os outros artistas. Três horas depois do concerto, entre prestações de Elton John e Paul McCartney, que seria o último músico a atuar em nome individual, Mercury e o guitarrista Brian May regressariam ao palco do Estádio de Wembley para, numa espécie de encore, tocar "Is This the World We Created?", tema incluído no álbum The Works, editado no ano anterior, que a dupla escrevera inspirada em notícias sobre a pobreza em África. "Parece que escrevemos esse tema para este evento, mas não, apesar de ser bastante indicado", diria Mercury mais tarde. A colocar um ponto final no Live Aid londrino, esteve "Do They Know It's Christmas?", tema interpretado por uma Band Aid alargada a todos os músicos incluindo elementos dos Queen que tocaram nesse dia, entre os quais estiveram Sting, U2, Elton John, The Who, Paul Young, Bryan Ferry, Elvis Costello. A influência que aqueles 20 minutos tiveram na carreira dos Queen levou a que, depois da morte de Mercury, em 1991, os seus colegas de banda organizassem um concerto de homenagem ao estilo de Live Aid. O evento, cujos lucros reverteram para o Mercury Phoenix Trust, criado para ajudar a "combater a sida a nível mundial", realizou-se também no Estádio de Wembley, a 20 de abril de 1992, e contou com atuações de, entre muitos outros, Metallica, U2, Guns N' Roses (Axl Rose cantou "Bohemian Rhapsody" em dueto com Elton John), George Michael, Liza Minelli e David Bowie. MRV SET LIST 1. Bohemian Rhapsody 2. Radio Ga Ga 3. Hammer to Fall 4. Crazy Little Thing Called Love 5. We Will Rock You 6. We Are The Champions 7. Is This The World We Created?
2. Hammersmith Odeon, Londres, 24 dezembro 1975 Passavam quase dois meses desde a chegada de "Bohemian Rhapsody" ao número um dos singles mais vendidos em Inglaterra quando os Queen subiram ao palco do Hammersmith Odeon, em Londres. Não era apenas mais um concerto. Nessa noite, véspera de Natal de 1975, os Queen tocavam para um número de fãs "imprevisível": além da plateia presente na sala londrina, todos os telespectadores da BBC2 (o concerto foi transmitido no Old Grey Whistle Test) e ouvintes da Radio One da emissora nacional britânica. Freddie Mercury falhou notas e Brian May errou acordes, dois acontecimentos raros na carreira das duas maiores figuras dos Queen. Ainda assim, o ritmo, nas cordas vocais ou nas cordas da guitarra, rapidamente voltou ao habitual e o resultado fez-se histórico. Dias depois, na contagem final dos discos mais vendidos no final do ano, um marco há muito assinalado pela indústria e fãs de música britânicos: a vitória seria de "Bohemian Rhapsody", a melhor faixa de A Night at the Opera, hoje o single mais vendido na história da música britânica e, para muitos, a melhor canção de rock alguma vez escrita. Mesmo à beira de quatro meses de digressão pelos Estados Unidos e já com os olhos postos no Oriente, o destino que se seguiria, a preparação para a aparição televisiva não foi descurada. Por imposição, a habitual setlist de hora e meia foi encurtada para dois terços e nem a mais conhecida de todas as suas canções escapou em vez da então habitual repetição, só foi tocada uma vez (ainda que em duas partes). Depois do arranque com "Now I'm Here", de "Ogre Battle" e "White Queen", ouviram-se nas ondas da BBC os versos do single do momento. Depois, tocadas "Killer Queen" e "The March of the Black Queen", viria o resto do êxito maior de 1975, o momento mais alto da atuação de duração cronometrada uma hora a fechar com o verdadeiro hino britânico, God Save the Queen. Até ao final da carreira, só por mais uma vez os Queen voltariam a atuar em exclusivo para a televisão e mesmo nessa ocasião só tocariam duas músicas, no norte-americano Saturday Night Live, já em 1982. Nos bastidores ficou na memória da banda a constipação que abrandava o ritmo a Mercury e May e o primeiro encontro entre as respetivas famílias. Na música, preparava-se uma transferência histórica Ronnie Wood deixava os Faces encaminhando-se para os Rolling Stones e ainda se saboreavam as primeiras voltas nos LPs de Wish You Were Here, o nono disco dos Pink Floyd. Entre os Queen, a luta era pelo número um. E a passagem na televisão ajudou e muito a esse ensejo. Há muito que a exuberância das atuações ao vivo se tornara num dos pontos fortes da banda e agora a audiência tornar-se-ia bem mais vasta que o habitual. Todos trajados a preceito com roupa desenhada por Zandra Rhodes, designer que habitualmente apenas vestia Mercury, e com o jogo de luzes de palco devidamente afinado para alimentar o tom entre o psicadélico e a discoteca, só Mercury mudou de roupa além do casaco de cabedal, do tronco nu e das garridas calças vermelhas, naturalmente também de cabedal, para a versão de "Big Spender", o vocalista ainda apareceu de Kimono, o traje japonês que um fã lhe oferecera uns meses antes. O resultado foi, na boa tradição da banda, esmagador. No seguinte mês de fevereiro, ainda com "Bohemian Rhapsody" no topo das vendas, o concerto haveria de ser repetido pela Radio One e pouco mais de um ano depois, a 28 de dezembro de 76, novamente na BBC2. Passados quase quarenta anos mantém-se como um dos concertos mais pirateados da banda, apesar de não existir, até agora, uma versão com chancela oficial [atualização: A Night at the Odeon, seria lançado a 20 de novembro de 2015] e nem a própria BBC fez uso das gravações. Há versões áudio e vídeo para todos os gostos, mas aquelas que se basearam nas retransmissões não contam com as referências natalícias, oportunamente eliminadas. Também as há em que o apagão no som da bateria em "White Queen" foi disfarçado. Ate às há com o encore que originalmente não foi emitido, alegadamente porque a equipa da BBC já estava a arrumar o material. E, provavelmente por isso, Brian May chegou a perguntar aos fãs, em 2009, se existiam registos de áudio desse encore, tendo em vista uma eventual edição do concerto completo. Certo é que, inesquecível para os fãs, o concerto não satisfez inteiramente a banda: "é muito difícil saber para onde te viras, se para o público pagante, se para a câmara de televisão". FG
3. Wembley, Londres, 12 julho 1986 De calças e camisa branca e envergando o famoso blusão amarelo: a imagem icónica de Freddie Mercury que vimos incontáveis vezes serviu, até, de modelo à sua estátua na Suíça foi na verdade captada na histórica passagem dos Queen por Wembley, em julho de 1986. Inicialmente, a banda preparava-se para dar apenas um concerto no estádio londrino, num sábado, dia 12. Contudo, a procura desenfreada de bilhetes levou o quarteto a marcar uma segunda data, logo para sexta-feira, dia 11. O espetáculo é dos mais especiais da vida dos Queen por várias razões, das mais técnicas e objetivas às puramente emocionais. À época, apenas duas bandas haviam tocado por duas vezes em Wembley: Beatles e Rolling Stones (desde então, também os Muse, U2 e Eminem acrescentaram essa proeza aos seus currículos). Para fazer face à ocasião especial, os homens de "Radio Ga Ga" puxaram dos seus galões, com uma produção inédita: o palco foi construído de propósito e incluía um ecrã gigante então uma novidade para que os 200 mil espectadores pudessem ver o grupo em todo o seu esplendor. A grandeza do espetáculo é traduzível em números: mais de dez toneladas de equipamento, um palco de 50 metros de comprimento e 15 de altura, mais de meio milhão de watts em potência elétrica. Então a bordo da Magic Tour, os Queen encontravam-se, porventura sem disso terem conhecimento, muito perto do fim. É verdade que, depois de A Kind of Magic, lançado em junho desse ano, os ingleses ainda editariam outros álbuns, nomeadamente The Miracle, em 1989, e Innuendo, em 1991. Mas em virtude dos problemas de saúde de Freddie Mercury, que viria a falecer em 1991, a carreira de palco dos Queen conheceria um ponto final pouco depois de Wembley, no concerto em Knebworth, Inglaterra, menos de um mês depois (a 9 de agosto de 1986). Ainda que os fãs certamente desconhecessem que a banda estava prestes a despedir-se dos concertos, a ideia de fim já ocuparia o espírito de Freddie Mercury. Antes de "Who Wants To Live Forever", e também como comentário aos boatos que, na altura, davam conta de que a banda se iria separar, o cantor e animal de palco garantiu: "havemos de ficar juntos até morrermos, disso tenho eu a certeza". Anos mais tarde, Brian May reconheceu a importância destas duas noites para os Queen: "foram o corolário [da nossa carreira]. Estávamos no nosso melhor, enquanto banda, e o Freddie tinha desenvolvido uma forma fenomenal de lidar com o público em estádios. Regressar a Londres para tocar dois concertos esgotados foi enorme para nós. [Mas] nenhum de nós se apercebeu de que aquelas seriam praticamente as últimas vezes que tocávamos juntos [ao vivo]", confessa, citado pelo site Queen Live. Abençoado pela chuva, que também visitou os concertos no Rio de Janeiro, e com ilustres como Mick Jagger na plateia, o espetáculo de Wembley não contou, ao contrário do que se chegou a esperar, com David Bowie no tema "Under Pressure", mas é até hoje um dos concertos mais populares e celebrados da história do rock. Além das imortais "Bohemian Rhapsody", "We Will Rock You", "Friends Will Be Friends" ou "We Are The Champions", os Queen tocaram versões de "Gimme Some Lovin" e "Big Spender" (popularizada por Shirley Bassey) e despediram-se com Freddie Mercury apropriadamente coberto por uma manta real e de coroa na cabeça. A marcante visita dos Queen a Wembley ficou registada para a posteridade num VHS lançado logo em 1990, com menos nove canções que o concerto, e mais tarde como CD, em 1992. Em 2003, o disco seria reeditado, acompanhado pelo espetáculo em formato DVD. Mais recentemente, em 2011, para celebrar o 25º aniversário do evento, o mesmo concerto foi lançado como duplo DVD e, numa edição de luxo, enquanto duplo DVD e duplo CD. LP
4. Rock in Rio, Rio de Janeiro, 12 janeiro 1985 A passagem dos Queen pelo Rio de Janeiro é parte integrante não só da história de palco da banda, como da do negócio da música ao vivo no Brasil. Antes desta primeira edição do Rock in Rio, os concertos de artistas internacionais em Terras de Vera Cruz eram mais raros: os próprios Queen já haviam atuado naquele país, em 1981, mas é dos dois espetáculos de julho de 1985 que a lenda reza com toda a pompa e estrondo. Ainda que a data dos concertos seja de 11 e 18 de julho, na verdade os Queen só entraram em palco bem depois da meia-noite (mais precisamente, às duas da manhã). Boatos dão conta de razões coloridas para o atraso Freddie Mercury, que ficou hospedado na suite presidencial do Copacabana Palace Hotel, terá exigido que vários artistas brasileiros que o aguardavam à porta do camarim, entre os quais Ney Matogrosso, se retirassem das instalações, o que causou algum stress entre o staff e antecedeu vários estragos nos bastidores. Ninguém sabe ao certo o que terá ocupado Freddie Mercury que chegou ao festival de helicóptero naquelas duas horas mas, a partir do momento em que, com Brian May, John Deacon e Roger Taylor, subiu ao palco do Rock in Rio, a rendição das 250 mil pessoas foi total. Além de uma garrafa de saqué a 20 graus, Freddie Mercury exigiu, enquanto membro dos Queen, outras condições à organização. O espetáculo de luzes que o grupo levava consigo implicava uma montagem complexa e demorada, pelo que os grupos que tocaram antes dos ingleses tiveram de usar o seu material. Na primeira noite, a "sorte" coube aos Iron Maiden, que antecederam os compatriotas no palco do Rock in Rio, e na segunda aos norte-americanos The B-52's. Ainda que nesta primeira edição do festival que, já neste século, se transplantaria para Portugal, tenham tocado pesos pesados do rock como AC/DC, Scorpions ou Yes, é da bombástica prestação dos Queen que se fala até hoje. Na verdade, a banda, então a bordo da digressão The Works, deveria ter tocado no Rio em 1981; no entanto, os britânicos viram ser-lhe negada a possibilidade de atuar no Estádio do Maracanã, que as autoridades consideravam indicado apenas para "manifestações desportivas ou culturais", e acabaram por fazer o seu debute brasileiro no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Em janeiro de 1985, 250 mil cariocas e não só aguardavam com expectativa um concerto que bateu vários recordes, estabelecendose como o maior de sempre da banda. De bandeira brasileira em riste, durante "God Save The Queen", ou de mamas falsas em "I Want To Break Free" (mas apenas na primeira noite; a reação ambígua da plateia fê-lo abandonar o acessório no segundo concerto), Freddie Mercury comandou o público brasileiro com mestria e emoção. Um dos momentos mais memoráveis chegou com a versão de "Love of My Life", canção especialmente popular na América do Sul, e nos vídeos que circulam online é possível ver como Mercury e Brian May, cujo nome os fãs gritam em uníssono, se comovem com o coro acertado e convicto de um quarto de milhão de humanos. O concerto carioca dos Queen foi editado em VHS quatro anos mais tarde mas ainda não existe um DVD oficial da sua participação triunfante no que foi considerado o Woodstock brasileiro. O espetáculo, pelo qual a banda terá recebido um cachê avultadíssimo, foi também transmitido, na altura, pela Globo e visto por 200 milhões de pessoas. Hoje, está no Youtube. LP
5. Hyde Park, Londres, 18 setembro 1976 Quase um ano depois de terem lançado o seu primeiro álbum a chegar ao número 1 britânico, A Night At the Opera, e ainda a alguns meses da edição do seu segundo álbum sucessivo a atingir o topo das tabelas no Reino Unido, A Day At The Races, os Queen de setembro de 1976 ainda não estavam completamente seguros do seu estatuto na terra natal. E, talvez para cimentar o sucesso em que ainda não acreditavam piamente, Freddie Mercury e companhia decidiram oferecer aos fãs uma recompensa pelo seu apoio. Com ajuda de Richard Branson, o fundador da Virgin (nesta época uma força já muito considerável da indústria britânica), os Queen montaram um mini-festival gratuito em Hyde Park que terá atraído, no sexto aniversário da morte de Jimi Hendrix, entre 150 a 200 mil pessoas, uma das maiores assistências de sempre naquele espaço. Antes dos Queen tocaram Supercharge, Steve Hillage, Rufus e ainda Kiki Dee, com os Queen a esperarem pelo cair da noite para poderem retirar máximo efeito do seu cuidadoso show de luzes. As crónicas da época sublinham o nervosismo da banda, perfeitamente ciente de que jogava nessa noite parte importante do seu futuro. Mais tarde, Brian May terá mesmo dito que tudo mudou em Hyde Park e que terá sido esse o concerto que abriu definitivamente aos Queen as portas da primeira divisão pop. No Record Mirror, que fez uma estimativa muito conservadora dos números da assistência, confirmava-se essa ideia: "a performance de Freddie Mercury diante de 50 mil pessoas em Hyde Park no sábado provou que ele pode ombrear com Jagger, Bowie e um punhado de americanos". Nesta noite, os Queen atacaram momentos míticos do seu repertório como "Bohemian Rhapsody", "White Queen", "Flick of the Wrist", "You're My Best Friend", "Killer Queen", "Brighton Rock" ou "Keep Yourself Alive" arrebatando a audiência, apesar dos problemas de visibilidade do palco, demasiado baixo para tão maciça massa de público. Para o triunfo ter sido absoluto só terá faltado o encore, proibido pelas autoridades devido ao adiantado da hora. Ainda assim, um concerto para a história. Há documentos que o provam: gravações do público de que resultaram bootlegs, como o LP de edição japonesa Free In The Park. Das imagens captadas, só alguns excertos são conhecidos, alegadamente devido a problemas técnicos. RMA
6. Montreal Forum, Montreal, 24 novembro 1981 Exatamente 10 anos antes da sua morte, Freddie Mercury subiu ao palco em Montreal, no Canadá, para um concerto cujo principal objetivo passava por captar imagens e som que permitissem à banda ter um registo fiel daquilo que era capaz de fazer ao vivo. De acordo com a Rolling Stone, aquela cidade canadiana foi escolhida por ter um público particularmente efusivo, embora opções exercidas pelo realizador Saul Swimmer tenham mascarado essa característica. Nesta época, os Queen estavam em plena forma e eram gigantes certificados do circuito rock internacional: no ano anterior tinham editado The Game (mais um número 1 dos topes) e a sua banda sonora para Flash Gordon, e preparavam-se para lançar, alguns meses depois, Hot Space, o álbum de "Under Pressure", tema que já surgia no alinhamento desta noite (tinha sido editado em single exatamente um mês antes desta performance), a primeira de duas que o grupo protagonizou no Fórum de Montreal. O alinhamento, aliás, resultava de um cuidadoso aprimoramento ao longo dos anos que tinha permitido ao grupo desenvolver um espetáculo de impacto global: "We Will Rock You" e "Let Me Entertain You" logo a abrir para tirar o fôlego; "Somebody to Love", "Killer Queen" e "I'm In Love with My Car" para piscar o olho ao passado; "Love of My Life" para comover; "Crazy Little Thing Called Love" e "Another One Bites the Dust" para dançar; "Bohemian Rhapsody" porque sim; "Sheer Heart Attack" para rockar forte e "We Are The Champions" e "God Save The Queen" para o final apoteótico, de braços no ar. Este concerto teve várias edições ao longo dos anos, começando com as versões de Saul Swimmer que a banda reprovou durante anos devido a determinadas opções estéticas. Em 2007, o grupo adquiriu os direitos deste material e lançou o DVD Queen Rock Montreal & Live Aid com o som devidamente tratado deixando claro o tom efusivo do público canadiano que para muitos representa um dos melhores documentos áudio do poderio de palco dos Queen. Brian May, no seu site oficial, explica que não guarda muito boas memórias do realizador, mas descreve o concerto como "real e cru", deixando claro que mesmo àquela escala grandiosa, nada no concerto dos Queen era ensaiado ou coreografado. Os Queen de Montreal são, afinal, um grupo de rock autêntico, ainda suficientemente perto dos anos 70 para que tudo ali seja aparentemente genuíno. RMA
7. Estádio Vélez Sársfield, Buenos Aires, 28 fevereiro 1981 Em 1981, os Queen estendiam a receita de sucesso da digressão de The Game (o álbum de "Another One Bites the Dust" e "Crazy Little Thing Called Love) a territórios até aí, por si, inexplorados. Não é o caso do Japão, onde a banda era bem recebida desde 1975 e por onde o périplo de 81 começou, em fevereiro; daí, Freddie Mercury e companhia seguiriam para a América Latina onde se estreariam no Brasil (com dois concertos no Estádio do Morumbi, em São Paulo, para um total de 251 mil pessoas, depois de cancelamentos em Porto Alegre e Rio de Janeiro) e, no outono, na Venezuela e no México. Mas a primeira lança sul-americana seria espetada, a 28 de fevereiro, em Buenos Aires, no Estádio do Vélez Sársfield. A euforia do grupo pela conquista de um novo continente era óbvia os Queen foram a primeira banda a atuar em grandes estádios na América do Sul. A popularidade do grupo no país do tango era monstruosa: por altura da estreia na Argentina, dos 10 álbuns mais vendidos no país constavam 9 dos Queen. A cobertura mediática naqueles dias foi frenética: conta-se que as emissões da rádio e da televisão eram interrompidas regularmente com notícias sobre os Queen depois de dois concertos em Buenos Aires, a banda seguiria para outros dois Mar de La Plata e um em Rosario, para no final dar novo espetáculo esgotado na capital. 63 mil pessoas viram os Queen pela primeira vez na Argentina e a banda retribuiu com um alinhamento recheado de êxitos, 26 canções (incluindo o grand finale com o hino britânico, depois de "We Are The Champions") das quais apenas 9 não foram single. A revista argentina Pelo, na edição de março de 1981, regista alguns factos do que, no meio cultural argentino, foi visto como um grande acontecimento. Refere-se à multidão que sempre se acercava do hotel, os carros que partiam a alta velocidade sob patrulha ao som de sirenes e a grande quantidade de gente que queria acorrer aos concertos sem bilhete, procurando entrar por lugares vedados. E alguns assuntos triviais: "os únicos dentro do grupo a manter uma relação extramusical são Roger Taylor e Brian May. Com o fotógrafo Neal Preston formam um trio inseparável. Os demais: cada um tem a sua vida, mas não é certo que haja atritos ou que não se falem, como deram conta alguns rumores". Aquela revista quinzenal enaltece ainda o "extraordinário profissionalismo com que o grupo se moveu a todo o momento, algo muito difícil de conseguir por parte dos organizadores locais, acostumados à elasticidade do nosso meio" e mostra surpresa pela forma como decorreram os soundchecks: "chegam separados, cada um experimenta o seu instrumento e as vozes, depois juntam-se e tocam um excerto de uma canção". O encontro entre jornalistas e banda deu-se no final da "manga argentina", numa quinta a oeste da área metropolitana de Buenos Aires: carne assada, empanadas e bebida abundante junto a uma piscina para a qual o grupo tentou, sem sucesso, atirar o manager Jim Beach. "Carcomidos pela curiosidade, os Queen queriam também ver como e onde se fazia o assado", relata a Pelo. Falando, informalmente, com os jornalistas, parecia haver unanimidade na banda em considerar a estreia na América do Sul "um marco" na carreira da banda. Nesse dia, 8 de março, os Queen travaram também conhecimento com aquele que será, para muitos, o maior ícone argentino dos últimos 40 anos: Diego Armando Maradona subiu ao palco do Estádio Vélez Sársfield antes de "Another One Bites The Dust". Três anos depois, o astro argentino marcaria o "golo do século" à Inglaterra e outro igualmente memorável, mas com a mão. LG
8. Rainbow Theatre, Londres, 31 de março de 1974 Começou de branco, acabou de preto. Começaram temerosos pela imponência da sala, enfrentaram problemas técnicos e acabaram com um concerto que agora, mais de 40 anos passados, será editado em áudio e vídeo. Meses depois, em novembro e numa nova digressão pelo Reino Unido, voltariam ao local do crime para outro concerto que também faz parte de Live at the Rainbow '74, a editar 9 de setembro. Foi marcante a passagem dos Queen pelo Rainbow Theatre em 1974. Tinham dois discos apresentados e há muito que pareciam fadados a chegar ao topo da hierarquia das bandas inglesas. Na última noite de março de 74, Mercury apareceu de fato branco para encerrar a digressão que tinha ocupado os Queen nos últimos meses pelo Reino Unido. A "Father to Son" seguiu-se "White Queen" e uma versão de "Jailhouse Rock". Mercury, May e companhia sabiam que por Terras de Sua Majestade o Rainbow Theater só era comparado ao norte-americano Madison Square Garden e que dificilmente encontrariam um palco melhor para se afirmarem como uma das maiores bandas da época. Entre o rock pesado e o glam um dilema que viria a marcar a imagem da banda Mercury estreou um fato novo, branco, a "águia", desenhado por Zandra Rhodes, uma estreante na conceção de roupa para artistas masculinos. A meio do concerto, aproveitando o longo solo de May em "Great King Rat", e numa altura em que os 3 mil espectadores já estavam conquistados, Mercury haveria de trocar por roupa preta. Começava a tornar-se óbvio que os Queen tinham nascido para atuar nos maiores palcos e, mesmo que o mundo ainda não o tivesse percebido, era em frente a milhares de fãs que Mercury melhor se sentia. "See What a Fool I've Been" (nunca editada em LP) seria a música de encerramento do segundo encore, a décima sétima da noite. Se durante o concerto May teve de mudar de guitarra depois de partir uma corda e se Mercury se estreou num gesto que haveria de tornar imagem de marca o arremesso de flores para o público nessa noite os Queen mostravam estar prontos para todos os palcos. Meses depois, na primeira semana de setembro, quatro das músicas tocadas seriam emitidas na rádio norte-americana como banda sonora para uma entrevista à banda. Mais tarde, as primeiras imagens vídeo recolhidas de um concerto dos Queen seriam usadas como ferramenta de promoção para a digressão da banda pelo Japão. Nessa noite, como tinham feito os Who, os Queen conquistaram o Rainbow e lançaram-se ao mundo. As salas de teatro ficariam, em breve, muito pequenas para estes futuros "campeões" dos anos 70. FG
9. Nepstadion, Budapeste, 27 julho 1986 Integrado na digressão de A Kind of Magic, o concerto húngaro dos Queen foi, à época, o maior de uma banda rock ocidental para lá da Cortina de Ferro aliás, é até hoje o maior concerto ocorrido no estádio hoje chamado de Puskás Ferenc, em honra da antiga glória do futebol magiar. Na altura, o grupo com sede de levar o seu espetáculo a zonas "virgens" do globo tentou também apresentar-se também nas antigas Checoslováquia e URSS, mas apenas o concerto em Budapeste teria lugar. Os bilhetes venderam-se rapidamente, ainda que estivessem disponíveis apenas em locais selecionados para um grupo de pessoas restrito (caprichos do regime). A Hungria vivia, à época, sob a égide do Pacto de Varsóvia e o rock ocidental estava, até aí, proscrito. Com a imprensa local, Freddie Mercury trocou algumas palavras. Questionado sobre se aquele concerto seria o princípio de uma amizade com o público húngaro, o vocalista respondeu: "enquanto estiver vivo, vou voltar". O repórter agradeceu e Freddie virou costas para gracejar: "quem me dera que todas as entrevistas fossem assim tão curtas!". O alinhamento não seria radicalmente diferente do "menu" de outros espetáculos da mesma digressão inclusive o interlúdio de rock'n'roll dos primórdios com as versões de "(You're So Square) Baby I Don't Care", "Hello Mary Lou" e "Tutti Frutti", mas a banda ganharia os favores do público de Budapeste com uma rendição de "Tavaszi Szél Vizet Áraszt" (tradução aproximada: "o vento de primavera faz mover as águas"), uma canção tradicional húngara cuja letra Freddie tinha transcrito para uma mão. O espetáculo seria editado em 2012, sob título Hungarian Rhapsody. LG
10 Milton Keynes, 5 junho 1982 Registado para a posteridade e editado no final de 2004 em CD e DVD com o nome Queen on Fire Live at the Bowl o concerto que Freddie Mercury e companhia deram em Milton Keynes, em Inglaterra, estava integrado na digressão Hot Space, realizando-se pouco depois de a banda editar o álbum com o mesmo nome. Inicialmente anunciado para o Highbury Stadium, em Londres, o espetáculo seria transferido para o National Bowl, em Milton Keynes, porque a banda não conseguiu que lhe garantissem a licença necessária para atuar no então quartel-general da equipa do Arsenal Football Club. As 40 mil pessoas que se deslocaram ao recinto vibraram com um alinhamento que incluiu não só algumas canções retiradas do álbum que a banda queria apresentar mas também alguns dos maiores sucessos da sua discografia, como "Bohemian Rhapsody", "Another One Bites the Dust", "We Will Rock You" (numa versão acelerada quase no início da atuação e novamente, na versão normal, perto do final) ou "We Are the Champions". Ao apresentar "Staying Power", tema que abre Hot Space, o vocalista dirigiu-se à plateia para dizer: "a maioria de vocês sabe que temos algumas novas canções. Para que conste, vamos tocar algumas que se inserem na categoria de funk/ negra, ou como lhe queiram chamar. Isso não significa que esquecemos o rock and roll, ok? É apenas o raio de um disco. Só queremos experimentar algumas canções", aludindo assim a uma mudança de sonoridade que se revelaria pouco popular entre os fãs. A primeira parte do espetáculo em Milton Keynes seria assegurada pelas Heart, Joan Jett & The Blackhearts e pelos Teardrop Explodes de Julian Cope, que seriam alvo de uma série de objetos arremessados pelo público (incluindo um tampo de sanita e garrafas de limonada). MRV
Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2014