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Cantam as nossas vozes - uma lista de melhores vozes de Portugal [ARQUIVO]

Em 2009, a BLITZ apresentou uma lista com algumas das melhores vozes de Portugal, comentadas por fãs ilustres - recorde aqui o que diz Sam the Kid sobre Carlos do Carmo ou Ana Bacalhau sobre Teresa Salgueiro.

1 AMÁLIA por Nuno Gonçalves (The Gift, Amália Hoje) Por estar envolvido no projecto Amália Hoje, tive que ouvir muito o reportório da Amália. E para lá do ícone, da figura histórica que todos os portugueses amam, o que me apanhou, o que eu acho que nela era fantástico, era a voz, a qualidade de interpretação, a entrega. O fado existe porque a Amália existiu. A voz dela transmitia todo um país, as amarguras, as paixões. E o incrível é que ainda estamos agarrados a essa voz, a esse sofrimento, à maneira incrível que ela teve de dar voz a todos aqueles poetas. Apesar de a voz dela não ser muito musculada e de na fase final da carreira se falar em decadência, é precisamente esse período que eu acho muito interessante e posso mesmo dizer que é aí que se encontra a minha fase preferida. Porque no final sentia-se na voz de Amália toda a história, todo o peso de uma vida. Nesse sentido, um tema como o "Grito", que ela terá escolhido para se ouvir no seu funeral, é muito representativo daquilo que ela era nessa altura tocante, comovente. Talvez por isso eu prefira essa fase da carreira dela, mais iluminada, mais esclarecida. Essa fase foi como um final de noite, mais cabaret, mais marcada pelas agruras da vida. Nesse tempo, ela transportava as marcas de tudo o que lhe tinha acontecido, o que pode fazê-la soar mais interessante do que quando tinha a técnica perfeitamente afinada. Tinha um timing próprio e os músicos seguiam-na, porque já a conheciam. E essa dignidade é que me captou a atenção e me fez olhar de maneira diferente para uma fase menos apreciada.
A OUVIR: "Povo Que Lavas no Rio", "Estranha Forma de Vida", "Com Que Voz", "Amália" INFLUENCIOU: A nova geração de fadistas, de Camané a Mariza. 2 CARLOS DO CARMO por Sam The Kid Carlos do Carmo tem uma voz única e não há outra assim em Portugal. Ele cantou grandes poetas e já admitiu em entrevistas que se tivesse cantado poetas "fatelas" talvez não tivesse sobressaído tanto. Uma voz tem que me transmitir sentimento, tem que me arrepiar e a voz dele é assim: é como o que se diz no caso do cinema, um bom realizador é aquele que nos faz esquecer que estamos a ver um filme, e o Carlos do Carmo é assim; só pensamos na voz e não na técnica. Adoro a fase dele mais orquestral. Canções como "Amor Total" ou "Estrela da tarde" matam-me. Nem é caso para se dizer que ele é o nosso Frank Sinatra. Nada disso: ele é o nosso Carlos do Carmo.
A OUVIR: "Um Homem na Cidade", "Canoa", "Por Morrer Uma Andorinha" INFLUENCIOU: Camané, Pedro Abrunhosa, Sam The Kid 3 ANTÓNIO VARIAÇÕES por Hélder Gonçalves (Clã, Humanos) Antes do projecto Humanos não era grande fã do António Variações, nem conhecia bem a sua música. O que me marcou, ao ouvir pela primeira vez as maquetas que deram origem aos Humanos, foi saber que ele as gravava em casa, sem filtro nenhum. Fiquei muito surpreendido com aquela veia mais soul, de que não estava nada à espera. O que me impressionou não foi o timbre da voz dele, mas sim aquela maneira muito naïf de cantar. Os maiores cantores que conheço têm isso na voz: cantam com o máximo de verdade, não há ali nada de falso.É assim com a Aretha Franklin, a Amália ou o Frank Sinatra: são vozes directas e verdadeiras. Sendo o Variações um cantautor, que escrevia as suas próprias músicas, mais forte a coisa ficava... Acreditávamos plenamente nele.
A OUVIR: "O Corpo é que Paga", "É P'ra Amanhã", "Canção de Engate" INFLUENCIOU: Lena d'Água, Delfins, Tiago Guillul 4 JOSÉ AFONSO por Cristina Branco José Afonso tinha uma enorme capacidade de contar histórias, também porque compunha para a sua própria voz. O timbre dele era único e possuía também uma versatilidade vocal enormíssima, o que é muito fácil de se perceber se se ouvir, por exemplo, "Era Um Redondo Vocábulo" ou "Canto Moço". Mas na verdade, quase todas as canções dele são exercícios de interpretação, como eu muito bem percebi quando fiz o espectáculo baseado no seu reportório. Os temas dele não são nada fáceis e exigem um certo malabarismo vocal, o que atesta o grande cantor que ele era. Mas talvez mais do que grande cantor, ele era um grande intérprete.Fazia-se entender.
A OUVIR: "Venham Mais Cinco", "Maio Maduro Maio", "Grândola Vila Morena" INFLUENCIOU: Pedro Abrunhosa, João Aguardela, Sérgio Godinho 5 MARIZA por Carlos do Carmo GOSTO MUITO do timbre e da potência da voz da Mariza. Não apenas na voz como na postura que exibe em palco, há ali um bom bocado de sangue africano a fazer toda a diferença. Não terei a presunção de fazer uma análise técnica, mas quando fecho os olhos, eu ouço e sinto isso nem preciso de ver. Ao longo destes anos todos, habituei-me a distinguir uma voz africana de uma voz europeia ou de uma voz americana. No caso da Mariza, desde muito cedo me apercebi de qualquer coisa diferente, que a princípio não sabia explicar. Lembro-me da primeira vez que a ouvi cantar: foi numa festa do Casino Estoril, quando ela ainda não era conhecida do grande público. Agora que conheço a sua história, e sei que ela cantou música brasileira e música americana, entendo que isso lhe tenha dado esse traquejo que vai além do fado, porque também eu cantei muitas outras músicas.
A OUVIR: "Ó Gente da Minha Terra", "Rosa Branca", "Barco Negro" INFLUENCIOU: Raquel Tavares, Ana Moura, Camané 6 PAULO DE CARVALHO por José Cid O Paulo de Carvalho consegue conciliar uma voz de qualidade mundial com uma atitude vocal, um swing, que eu acho fenomenal. E consegue aos 60 anos ter a mesma capacidade vocal que tinha aos 20 ou aos 30 anos. Pode já não ter o mesmo físico, mas a voz está lá e a qualidade vocal permanece inalterada. Há artistas cujas qualidades vocais se vão perdendo, mas isso não aconteceu com ele. E por isso posso assegurar que ele é um cantor de nível mundial. Cruzei-me muitas vezes com o Paulo ao longo dos anos, mas só nos anos 90 é que cantámos juntos um tema chamado "O Pintor Não Morreu", muito bluesy, muito bonito.
A OUVIR: "E Depois do Adeus", "Flor Sem Tempo", "Nini dos Meus Quinze Anos" INFLUENCIOU: Os Azeitonas 7 MARIA JOÃO por Mário Laginha A Maria João tem nela muitas vozes consegue vestir muitas peles, é muito camaleónica. E isto apesar de ter um estilo imediatamente reconhecível. É uma grande improvisadora e é também uma grande intérprete. Sabe agarrar no que tem à mão e fazer com que mesmo o que não foi escrito para ela pareça ter sido feito à sua medida. Além disso tem uma dicção muito boa e é excelente em línguas interpreta muito bem em inglês, espanhol e francês. E tem um sentido rítmico incrível, absolutamente invulgar. É uma virtuosa, com uma extensão enorme: vai dos muito graves aos muito agudos. Ela é soprano, mas também consegue ser contralto porque possui uma riqueza de registos imensa. Um caso à parte.
A OUVIR: "Beatriz", "Feijão com Arroz", "Várias Danças" INFLUENCIOU: Manuela Azevedo (Clã), Ana Bacalhau (Deolinda) 8 TERESA SALGUEIRO por Ana Bacalhau (Deolinda) Lembro-me da primeira vez que ouvi Madredeus. Estava no 9º ano e ainda não cantava, ou tinha começado a cantar há pouco tempo. Mas a primeira coisa que eu senti foi que estava ali uma voz diferente de todas as vozes portuguesas que eu costumava ouvir era de uma beleza quase etérea mas tinha força, era uma voz esclarecida, e que transmitia a língua portuguesa de uma forma muito bonita. Este é um atributo que eu sempre associei à voz da Teresa Salgueiro: a beleza quase onírica. Depois há que ressaltar a dicção, que é muito importante para se perceber as letras. A Teresa é também a imagem da sua voz. É coerente: quando se ouve a voz e, depois, se vê a Teresa Salgueiro, faz sentido. A OUVIR: "Vaca de Fogo", "Haja o Que Houver", "Pastor"
INFLUENCIOU: Ana Bacalhau (Deolinda) Artigo originalmente publicado na BLITZ 35, de maio de 2009