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Os 50 melhores solos de guitarra de todos os tempos

Os solos, as canções, as guitarras, os intérpretes: 50 histórias para devorar. Porque não podemos viver sem o instrumento mais icónico da história do rock'n'roll.

1. "Stairway To Heaven" 1971 LED ZEPPELIN JIMMY PAGE Fender Telecaster Os oito minutos e dois segundos de "Stairway To Heaven" encerram o primeiro lado de Led Zeppelin IV e contêm alguns dos elementos que "fizeram" o rock clássico dos anos 70, dos riffs corpulentos de Page à vocalização aguda de Plant. A canção começa como delicada balada folk e transforma-se gradualmente num caudaloso rock pesado, onde sobressai um solo intrincado de Jimmy Page, "a bordo" de uma Telecaster de 1959, a mesma que usou nos Yardbirds. Este épico de combustão lenta não seria o mesmo sem o "grand finale", um solo que nasceu de um improviso. A estrutura das partes de guitarra existia; as notas não. E quando chegou a altura de gravar o solo, saíram três e ainda estão registados na fita original. Só um sobreviveu e, diz Page, foi o melhor. À revista Classic Rock, o engenheiro de som Andy Johns lembra, contudo, um processo mais tortuoso: "Hoje em dia passa-se um dia inteiro a trabalhar numa coisa só; na altura, nem pensar. Nunca nos demorámos a gravar o que quer que fosse, mas recordo-me de ele estar ao pé de mim, de tentar e de não sair nada. Ele estava a ficar paranoico e eu também. Então acusámonos mutuamente e no take seguinte bang! saiu aquilo". E "aquilo" é um solo tremendo, o sonho molhado de qualquer aspirante a "guitar hero". 2. "All Along the Watchtower" 1968 JIMI HENDRIX Fender Stratocaster Escrita e composta por Bob Dylan, "All Along the Watchtower" foi gravado pela Jimi Hendrix Experience em 1968 e incluída no álbum final de Hendrix, Electric Ladyland. De acordo com o engenheiro de som Eddie Kramer, Hendrix gravou uma série de takes no primeiro dia, mas a meio da sessão o baixista Noel Redding mostrou-se insatisfeito e saiu do estúdio a parte final de baixo foi mesmo gravada por Hendrix. Nos solos, tudo mais fluído: Hendrix usou uma tonalidade diferente para cada parte, um isqueiro para a secção slide e um efeito de delay nas secções posteriores. Estava criado um solo clássico. 3. "Comfortably Numb" 1979 PINK FLOYD DAVID GILMOUR Black Strat Um dos temas mais reconhecíveis de The Wall, "Comfortably Numb" conta com dois solos de David Gilmour. De acordo com a Guitar World, o segundo foi construído com fragmentos de outros solos que Gilmour estaria a experimentar na altura. O equipamento é, afirma o coprodutor Bob Ezrin, secundário: "Podes dar-lhe um cavaquinho e ele vai fazer com que soe a um Stradivarius". Certo é que Gilmour "sacou" meia dúzia de solos e seguiu a sua metodologia: ouviu-os de novo e fez uma pauta assinalando as partes "boas"... até que tudo fluiu. 4. "November Rain" 1991 GUNS N'ROSES SLASH Gibson Les Paul As raízes de "November Rain", incluída em Use Your Illusion (1991), remontam às sessões de onde saíram "Paradise City" e "Welcome To The Jungle", que viriam a fazer parte do primeiro álbum dos Guns N'Roses, Appetite For Destruction, e que se tornariam clássicos. A base da canção, registada numa maqueta, era piano e guitarra acústica. O solo que marcou 1991 é, garante Slash, o mesmo de 1987, apenas muda a guitarra: passou a elétrica, cortesia da Les Paul Standard e do amplificador Marshall 2555. "Soou bem. Tão simples como isso", afirmou o guitarrista com uma humildade assinalável. Nada a contrariar. 5. "Bohemian Rhapsody" 1975 QUEEN BRIAN MAY Red Special São apenas 26 segundos dos quase 6 minutos de duração do single que fez "rebentar" os Queen em 1975, mas têm um lugar na história. Freddie Mercury tinha tudo planeado exceto o solo, obviamente. Aí entrou Brian May e a guitarra por si construída, com um solo em que a melodia de guitarra, defende May, funciona como um extra, não como um reflexo da melodia vocal. "Tinha uma melodia na cabeça e não levei muito tempo a gravá-la". Ainda bem, porque a fita não demorou a tornarse transparente (os Queen abusavam de overdubs numa mesa de 16 pistas) e salvouse por milagre... 6. "While My Guitar Gently Weeps" 1968 THE BEATLES ERIC CLAPTON Gibson Les Paul A canção é de George Harrison e a presença de outro guitarrista, Eric Clapton, tem uma explicação: em família já então desavinda, um elemento exterior poderia validar o trabalho de Harrison no seio do grupo. O tema gravado para The Beatles (o "álbum branco", de 1968), começou com Harrison na guitarra acústica, mas o único Beatle a responder foi Ringo Starr. A canção era boa, acreditava Harrison, e o convite a Clapton aconteceu para legitimá-la. Foi Clapton a considerá-la "pouco Beatles" mas aí já ninguém se importou... 7. "Voodoo Child (slight return)" 1968 JIMI HENDRIX Fender Stratocaster A gravação de "Voodoo Child (Slight Return)" (a canção que nasceu da jam "Voodoo Chile", também de Electric Ladyland) foi registada pelas câmaras do canal de televisão americano ABC, em maio de 1968. Noel Redding, baixista da Jimi Hendrix Experience recordou à Guitar World a experiência: "[a canção] foi ideia de Jimi e aprendemo-la ali mesmo à frente das câmaras. Tocámo-la três vezes e bastou". Jimi usou a sua Stratocaster através de um amplificador Fender Bassman, o mesmo material usado em "Voodoo Chile". Infelizmente, a ABC perdeu as imagens. Fica o mito. 8. "Beat It" 1982 MICHAEL JACKSON EDDIE VAN HALEN Frankenstrat Composta para o álbum Thriller, de 1982, "Beat It" tem um dos solos de guitarra mais reconhecidos de todos os tempos, cortesia de Eddie Van Halen. O guitarrista dos hard-rockers Van Halen foi contactado pelo produtor Quincy Jones e começou por duvidar da credibilidade do telefonema. Mas ultrapassada a desconfiança, Eddie fez o "serviço" de graça. Apesar da "borla", Quincy Jones deu-se ao luxo de recusar o primeiro solo: era, alegadamente, muito duro. Reduziu-se na distorção e emergiu o "número rock" de Thriller. 9. "Wish You Were Here" 1975 PINK FLOYD DAVID GILMOUR Martin D-35 Incluída no álbum homónimo de 1975, "Wish You Were Here" começa com uma guitarra de doze cordas, processada para soar como se estivesse a ser tocada através de um rádio antigo e com overdubs de um solo de guitarra acústica. O riff de "intro" é repetido várias vezes e volta a surgir quando Gilmour acrescenta solos. No final, o último solo cruza-se com efeitos sonoros de vento e "desagua" na segunda secção da suite "Shine On You Crazy Diamond". A homenagem a Syd Barrett não poderia ser mais sentida. 10. "Johnny B Goode" 1958 CHUCK BERRY Gibson ES-335 Considerada por muitos a primeira canção rock'n'roll, esta gravação de 1958 estabeleceu também a base de muitos solos ou não tivesse uma letra sobre um rapaz que toca guitarra. O primeiro esboço surgiu três anos antes, numa digressão que levou Berry a Nova Orleães, um sítio que o guitarrista desejava há muito visitar, inspirado por letras de Muddy Waters "Going down to Louisiana was behind the sun". As letras foram escritas em duas semanas de, afirma Berry na sua autobiografia, "aplicação periódica". Mais de 60 anos depois, é como se sempre tivesse existido. 11. "Alive" 1991 PEARL JAM MIKE MCCREADY Fender Stratocaster Editada em 1991 e um dos pontos altos de Ten, disco de estreia dos Pearl Jam, "Alive" é uma composição do guitarrista Steve Gossard que fez parte da maqueta gravada para recrutar um vocalista. A canção a que Eddie Vedder viria a emprestar a sua voz inconfundível, conta com um solo de Mike McCready. A honestidade da explicação é desarmante: "basicamente, copiei o solo de Ace Frehley em "She" [dos Kiss]. "Que, por sua vez, o foi buscar ao solo de Robby Krieger em "Five To One" [dos Doors]". Tão simples como isto. 12. "Cortez The Killer" 1975 NEIL YOUNG Gibson Les Paul É o próprio Neil Young que o diz: ""Cortez..." é uma das minhas melhores guitarradas de sempre". A canção, gravada em 1975 e lançada em Zuma (o disco que se seguiu ao sucesso de Tonight's The Night) tem unhas afiadas, mas também muita "carne" dentro: "Sou naturalmente destrutivo", afirma Young. "E isso passa para a minha forma de tocar guitarra. Sou marcado pela vida; por nada em particular. E não mais do que qualquer outra pessoa. Mas enquanto outros não se deixam aperceber de quão danificados se encontram, eu deixo e tenho que lidar com isso". 13. "Knights of Cydonia" 2006 MUSE MATT BELLAMY Manson Chrome Bomber Com um som de guitarra inspirado em "Telstar", dos Tornados (não estranhamente, a banda onde o pai de Matt tocava guitarra-ritmo), esta é uma das entradas mais recentes desta lista. "Knights of Cydonia", incluído em Black Holes and Revelations (álbum de 2006 dos Muse), é um épico que pede inspiração aos Queen mais pomposos e que cimentou Matt Bellamy como um dos guitarristas mais destacados da nova geração a revista Total Guitar considerou-o mesmo o melhor guitarrista do novo milénio. Méritos para comprovar na versão registada ao vivo no Estádio de Wembley, incluída no DVD Haarp. 14. "Crossroads" 1968 CREAM ERIC CLAPTON Gibson ES-335 A reconstrução do blues de Robert Johnson é, ainda hoje, um dos feitos de Clapton. Contudo, alerta o guitarrista, "o andamento desse solo está errado": em vez de tocar no tempo 2 e 4, Clapton toca no 1 e 3. Esta não foi a única peculiaridade da versão dos Cream, captada no Winterland Ballroom, em São Francisco: o baterista Ginger Baker, até aí incontactável, chegou atrasado ao concerto, tendo subido ao palco acabado de sair do seu Corvette. Ao contrário do que se chegou a supor, o solo não foi reduzido para a versão em disco. 15. "Texas Flood" 1983 STEVIE RAY VAUGHAN Fender Stratocaster "Texas Flood" é um blues composto e gravado por Larry Davis in 1958. A versão de Stevie Ray Vaughan é uma das interpretações mais estimadas do guitarrista falecido em 1990, com apenas 35 anos. Incluído em Texas Flood, primeiro álbum de Vaughan com a sua banda Double Trouble, foi a última canção desse álbum a ser gravada. "Não havia nada entre a guitarra e o amplificador", diria o produtor Chris Layton a guitarra era uma Strat, o amplificador era Dumble, propriedade de Jackson Browne, que estava também em estúdio. 16. METALLICA "Fade To Black" 1984 KIRK HAMMETT Gibson Flying V No início de 1984, os Metallica gravavam aquele que viriam a ser o primeiro single do segundo álbum, Ride The Lightning. "Fade To Black" é Kirk Hammett e uma Flying V, mas é também assume o próprio guitarrista um "som mais quente". A razão: "usei o pickup pescoço e toquei através de um pedal wahwah sempre na posição "up"". O solo extenso no final não foi "dobrado", apesar de alguns arpejos. E, porque a canção era sombria e dada a negrumes, Hammett pensou "em coisas deprimentes durante o solo". 17. "Walk This Way" 1986 AEROSMITH COM RUN DMC JOE PERRY Gibson Les Paul "Walk This Way" tanto o original de 1975, como a colaboração nos anos 80 com os Run DMC é mais recordada pelo riff insidioso do que pelo solo de Joe Perry. Mas uma coisa não vive sem a outra, e o solo final e mais prolongado é o corolário perfeito de uma canção eminentemente rítmica que tem o privilégio de estar bem colocada simultaneamente em topes de canções rock e hip-hop (a comunhão que, de resto, o teledisco de 1986 tão bem exemplifica). E a prova de que ambas as versões fizeram mossa, é a presença das duas em Guitar Hero, o jogo para consolas em que as cordas são substituídas por botões coloridos. 18. "Hotel California" 1976 THE EAGLES DON FELDER Gibson EDS-1275 "Hotel California", êxito dos Eagles e seis minutos de apelo radiofónico sem precedentes (experimente entrar num táxi de madrugada), é um clássico. A canção nasceu numa casa de praia em Malibu, em julho de 1975, com Don Felder, muito calor, e uma guitarra acústica de 12 cordas entre os braços. Com a ajuda de um gravador de quatro pistas da TEAC, precioso auxiliar de memória, o primeiro esboço foi gravado e, alguns dias depois, Felder acrescentou as guitarras elétricas. Nessa versão de Malibu, a harmonia das guitarras já existia; o solo também. As palavras de Don Henley e Glenn Frey vieram depois. 19. "Sultans of Swing" 1977 DIRE STRAITS MARK KNOPFLER Fender Stratocaster A palavra a Mark Knopfler, nas páginas da Guitar World: ""Sultans of Swing" foi originalmente composta numa National Steel [pode vê-la na capa de Brothers In Arms] em afinação aberta, apesar de nunca a ter tocado assim". A guitarra não o satisfazia e a canção só ganhou vida com uma Stratocaster de 1961, a guitarra que usou no primeiro álbum dos Dire Straits, em 1977. Fica o conselho: "se sente que não está a tirar o suficiente de uma canção, mude o instrumento; vá de acústica para elétrica ou vice versa, ou tente uma afinação aberta". Como conseguir o som do solo? Junte-se lhe um amplificador Fender Twin. 20. "Bulls On Parade" 1996 RAGE AGAINST THE MACHINE TOM MORELLO Ibanez Talman Esta história começa com Tom Morello a dirigir-se à Ibanez, que por essa altura construía uma guitarra com uma inovação que Morello deveria experimentar. Morello testou a guitarra mas não encontrou nada de novo, a não ser um ruído estranho. Na verdade, um defeito: o pickup interno estava a "apanhar" um som esquisito. A Ibanez queria livrar-se do ruído; Morello não deixou. Moral da história: a marca de guitarras teve de construir uma guitarra para Morello com o ruído incorporado, que Morello ajusta com o tremolo ouvimo-la no solo de "Bulls on Parade", pois então. 21. "Purple Rain" 1984 PRINCE Hohner Telecaster Quando chega a vez de entrar o solo de guitarra (e ele não é tímido), "Purple Rain" já é um monumento propulsionado a guitarra, teclados e voz plena de eco de Prince Nelson. O solo, porém, é a catarse a visão panorâmica que versos como "I never meant to cause you any sorrow / I never meant to cause you any pain" reclamam com fervor. Depois do último refrão, a canção é toda dele do solo de guitarra, entenda-se até que se junta o piano solo e as cordas para a coroação suprema. Não há coração que resista. 22. "Surfing With The Alien" 1987 JOE SATRIANI Kramer Pacer O tema que deu título ao álbum mais afamado de Joe Satriani (icónica, a capa do surfista prateado) não ganhou forma antes de o guitarrista norte-americano ter ligado um pedal wah-wah e um pedal Tubedriver num Marshall de 100 watts. O som que saiu das colunas foi tão avassalador que Satriani não teve outro remédio que não fosse gravar a melodia e o solo em apenas meia hora. 23. "Dani California" 2006 RED HOT CHILI PEPPERS JOHN FRUSCIANTE Fender Stratocaster Não há que enganar: o solo de um minuto no final de "Dani California", o primeiro single de Stadium Arcadium (2006), é uma variação do "intro" de "Purple Haze", do "mestre" Jimi Hendrix e isso já é dizer muito das "origens" de John Frusciante, o cessante guitarrista dos Red Hot Chili Peppers. Frusciante não se limitou a "configurar" um solo perfeitamente letal: usou ao longo da canção uma panóplia de efeitos, de teclados a pedais de teclados processados. O resultado, reconhece-se, é um oleadíssimo êxito. 24. "Highway Star" 1972 DEEP PURPLE RITCHIE BLACKMORE Fender Stratocaster "Highway Star" é um dos momentos mais pujantes de Machine Head, o álbum de 1972 dos Deep Purple. É também um protótipo perfeito da vitalidade do hard rock dos anos 70, com um solo do outro mundo composto nota a nota por Ritchie Blackmore. A intenção, afirma o guitarrista, era recriar o som de alguém a conduzir um carro em alta velocidade, mas com um "feeling" de Bach na progressão de acordes. Em palco, o solo que já é veloz em disco foi-se tornando cada vez mais trepidante. A culpa aí já não é de Bach, mas do uísque. 25. "Whole Lotta Love" 1969 LED ZEPPELIN JIMMY PAGE Gibson Les Paul O segredo da guitarra da fervilhante "Whole Lotta Love", canção de abertura de Led Zeppelin II (1969) está, defende Jimmy Page, no microfone melhor, na distância a que o microfone se situava da guitarra. A distância, justifica Page, cria profundidade que, por sua vez, torna o som da guitarra mais "gordo". Acresce referir que o amplificador apontava para o máximo, a distorcer ou seja, estavam criadas as condições para mais um solo intemporal onde o wah-wah volta a brilhar. Pontos extra: a técnica de eco invertido, cuja invenção Jimmy Page reclama. Não lhe façamos a desfeita... 26. "Purple Haze" 1967 JIMI HENDRIX Fender Stratocaster "Purple Haze" é o segundo single de Jimi Hendrix e o primeiro a ser retirado do álbum de estreia, Are You Experienced?. Composto em 1966, mas só gravado no ano seguinte, este tema, que o guitarrista afirmou ter nascido de um sonho em que andava debaixo do mar, é um dos seus maiores emblemas. Para o solo, Jimi usou um pedal Octavia e a sua fiel Stratocaster. Socorreu-se dos seus conhecimentos de blues, mas injetou igualmente toques de jazz na sua gestão de acordes. O fuzz e o feedback emolduram o solo, mais cristalino e livre do que o riff que marca a canção, exemplo clássico do "acorde Hendrix". 27. "Eruption" 1978 VAN HALEN EDDIE VAN HALEN Frankenstrat Se Bach tivesse acesso a uma guitarra elétrica no século XVIII e a tivesse podido ligar a um amplificador Marshall seria natural que uma das suas "fugas" soasse como "Eruption". Este tema, que Eddie Van Halen tocou num modelo único criado por si para reunir o melhor da Stratocaster e das Gibson, nem deveria ter entrado em Van Halen, mas o produtor insistiu que fosse gravada. É um longo solo, em que a técnica de tapping é usada de forma impressionante. Anos depois, Eddie afirmou desejar regravá-la: "tem um erro no início". 28. "Seven Nation Army" 2003 WHITE STRIPES JACK WHITE J.B. Hutto Montgomery Hoje, "Seven Nation Army" é visto quase como um novo "Smoke on the Water": um tema simples que parece ter sido criado à medida de quem acaba de pegar numa guitarra e procura tocar algumas notas. O tema só chegou a single por insistência de Jack White, o que demonstra que nem a editora acreditava na sua extrema simplicidade. Mas a verdade é que se impôs: o solo que Jack executa na sua Airline guitarra invulgar para um guitarrista invulgar é igualmente simples e erguido a partir de um uníssono com o riff. Mas a verdade é que "rocka" como poucos e possui a qualidade explosiva que um solo deve conter. 29. "Smells Like Teen Spirit" 1991 NIRVANA KURT COBAIN Fender Stratocaster "Smells Like Teen Spirit" é uma daquelas raras canções cujo impacto não é imediato, mas cuja intensidade alimenta um crescendo. Foi assim em 1991, com a lenta mas segura ascensão nas tabelas de vendas primeiro single de Nevermind a servir para impor o sucesso tremendo do segundo álbum dos Nirvana. Kurt Cobain afirmou ter escrito este tema inspirado pelos Pixies. No solo, o malogrado músico replica a melodia vocal, insuflando-o de urgência e raiva. É por isso mesmo um daqueles solos que se podem "cantar", tal o seu caráter icónico. 30. "No One Knows" 2002 QUEENS OF THE STONE AGE JOSH HOMME Maton MS-520 Nas malhas que definem a década de todos os zeros, "No One Knows" tem um lugar de destaque. É o tema que deu aos Queens of The Stone Age o fôlego comercial de que se fazem os fenómenos. Josh Homme, fã de guitarras invulgares e que sempre fez questão de evitar Strats ou modelos Les Paul, toca aqui uma Maton Mastersound num solo que surge num contexto invulgar é enquadrado por dois momentos de baixo solo que parecem sublinhar o caráter demencial e explosivo das notas arrancadas por Homme à sua guitarra. 31. "You Shook Me All Night Long" 1980 AC/DC ANGUS YOUNG Gibson SG Sob muitos aspetos, o solo que Angus Young assina em "You Shook Me All Night Young" só reforça a ideia de que os AC/DC são simplesmente uma banda de blues com uma torre de amplificadores invulgar. É graças a este tema que Back in Black ganhou o estatuto de álbum clássico: rock sem pretensões a qualquer tipo de sofisticação. "You Shook Me All Night Long" também não complica no solo que tem aquela característica melódica e cantarolável que ajuda a puxar qualquer comum mortal para a prática dessa nobre instituição dos bares que é a "air guitar". 32. "Sympathy For The Devil" 1968 ROLLING STONES KEITH RICHARDS Gibson Les Paul Em 1968, Keith Richards tocou sobretudo a sua Gibson Les Paul Custom, pintada com motivos psicadélicos. É quase de certeza essa a guitarra que aparece na versão definitiva de "Sympathy For The Devil", um tema que mostrava os Stones a procurar outro tipo de soluções em termos de arranjos. Embora a referência ao diabo os coloque no mesmo terreno de "bluesmen" como Robert Johnson, o ambiente é bem mais tropical do que seria de esperar. Sobre essa base, Keith, que também tocou a linha de baixo, assina um solo estrondoso, encaixado entre as vozes do refrão, levemente dissonante e absolutamente brilhante. 33. "It Serves You Right To Suffer" 1966 JOHN LEE HOOKER Gibson semi-acústica O especialista em blues Peter Stone Brown entrevistou John Lee Hooker em 1977 e procurou esclarecer o mistério do seu som, sem o conseguir. George Thorogood disse ao mesmo jornalista que nem o próprio John Lee Hooker o saberia, levando-o a concluir que Hooker teria sempre conseguido aquele som fosse qual fosse a guitarra e amplificador que usasse. Editado na famosa Impulse num álbum do mesmo título, este tema possui aquela qualidade sobrenatural que os melhores "bluesmen" trouxeram do Delta. 34. "Brighton Rock" 1974 QUEEN BRIAN MAY Red Special Os Queen são justamente apontados como uma das mais completas bandas de palco de sempre, mas o grupo soube igualmente aproveitar ao máximo todas as possibilidades oferecidas pelos estúdios. Que o diga o "geek" Brian May. A multiplicação de pistas de voz em "Bohemian Rhapsody" é um exemplo claro, mas neste "Brighton Rock", Brian May também procedeu a uma certa multiplicação, aproveitando o delay Echoplex para duplicar a sua "voz" na guitarra num longo solo que ao vivo era maximizado com três conjuntos de amplificadores diferentes. 35. "Marquee Moon" 1977 TELEVISION TOM VERLAINE Fender Jazzmaster Em 1977, rezam as crónicas, o rock regressou ao essencial, implodiu, concentrou-se em três acordes e declarou que "solo" era uma palavra muito feia. Na verdade, há muitas exceções a esse retrato que, ainda assim, estão alinhadas com a urgência punk. Mas talvez nenhuma melhor do que "Marquee Moon", o tema dos Television que deu título a um álbum que é uma obra-prima. E que em disco assumia uma "progressiva" (heresia!) duração de mais de 10 minutos, com cerca de metade da canção reservada para um magistral solo de Tom Verlaine, fã de Jazzmasters e Jaguars e "licks" herdados do jazz. Fora do comum, certo, mas visionário. 36. "Eight Miles High" 1966 THE BYRDS ROGER MCGUINN Rickenbacker 360/12 Apesar da dominação histórica da British Invasion sobre o território americano, os fluxos criativos não foram em meados dos anos 60 unilaterais: os Byrds também visitaram o Reino Unido em 1965 e até escreveram uma canção sobre a experiência. Apesar de serem dias de expansão de consciências com químicos e ervas, estas "milhas de altura" referiam-se ao voo transatlântico. Ainda assim, foi mesmo por influência de George Harrison que Roger McGuinn adquiriu a Rickenbacker de 12 cordas com que assina o solo, informado pela audição de Ravi Shankar e John Coltrane. 37. "Won't Get Fooled Again" 1971 THE WHO PETE TOWNSHEND Gretsch 6120 Hoje, claro, todos conhecemos este tema de uma série televisiva passada em Miami e com um personagem chamado Horácio. Essa constante exposição na TV pode ter transformado o "intro" de órgão e sintetizador num emblema áudio imediatamente reconhecível, mas esta canção que fala de revolução e de luta nas ruas tem igualmente um solo musculado que Pete Townshend arrancou a uma guitarra que tinha personalidade para estúdio, mas não para ser usada (e possivelmente destruída) em palco. Era uma Gretsch Chet Atkins e continua na posse do guitarrista até hoje. 38. RADIOHEAD "Paranoid Android" 1997 JONNY GREENWOOD Fender Telecaster OK Computer é um daqueles álbuns que ajudam a suportar a história: inovadores, com excelentes exemplos de escrita de canções, com um grande som e uma interpretação inatacável. Em "Paranoid Android", a banda de Oxford decidiu colar três canções distintas, dando ao tema vários andamentos pontuados não por um, mas por dois solos do guitarrista Jonny Greenwood. O primeiro surge sensivelmente a meio da canção, é rápido e cheio de técnica, e o segundo, já no final, é levemente demente, mas ao mesmo tempo certeiro e, sobretudo, totalmente intenso e original. 39. "Floods" 1996 PANTERA DIMEBAG DARRELL Washburn Claro que a tragédia que se abateu sobre Dimebag Darrell, assassinado em palco durante um concerto dos Damageplan, só reforça o mito, mas a verdade é que o guitarrista já era celebrado em vida e considerado um dos maiores estetas do metal. Em "Floods", tema de The Great Southern Trendkill, Dimebag deixa isso mesmo claro com um solo que emprega uma série de técnicas incluindo tapping e onde a riqueza harmónica é imensa, conseguida com a dobragem em certas partes. Os blues, por debaixo de todo aquele peso, também marcaram a técnica de Dimebag que inspirou muitos guitarristas a adotarem o seu instrumento. 40. "Sweet Child O'Mine" 1988 GUNS N'ROSES SLASH Gibson Les Paul Slash referiu-se a "Sweet Child o' Mine" como "uma piada", um tema que nasceu de uma daquelas jam sessions de aquecimento nos ensaios. Mas a verdade é que se transformou num single tremendo, sinónimo de Los Angeles e de MTV nos anos 80, de modelos esbeltas e de rock'n'roll sujo e motas e autoestradas. A mesma displicência que serviu a canção no momento da composição parece ter norteado o solo de Slash: "foi gravado num só take, de forma completamente espontânea. Já tinha tocado aquilo tantas vezes nos ensaios que quando foi preciso gravar sabia exatamente o que fazer". 41. "Inca Roads" 1975 FRANK ZAPPA Gibson SG Estava-se no ano da graça de 1975 e o norteamericano Frank Zappa declarava que o seu rock era de tamanho único e servia a toda a gente. O solo do tema "Inca Roads", que abria, precisamente, o álbum One Size Fits All, é um símbolo dessa abordagem de abrangência. Tema mais longo de um álbum feito com uma banda de luxo George Duke, Johnny Guitar Watson ou Captain Beefheart estão a bordo "Inca Roads" falava de óvnis nos Andes e incluía um solo gravado originalmente ao vivo. Ao longo de quase três minutos, Zappa balizado por dois momentos "sintetizados" de George Duke explorava ele mesmo o espaço sideral, numa toada jazzy carregada de sofisticação. 42. ALICE IN CHAINS "Man In The Box" 1990 JERRY CANTRELL G&L No arranque dos anos 90, com Seattle a mover-se rapidamente na direção do centro do mundo, os Alice in Chains do malogrado Layne Stayley e de Jerry Cantrell eram uma das bandas que melhor definiam o momento (não vale dizer "grunge"!). Em "Man In The Box", ouvese uma talk box associada à guitarra para criar um groove peculiar em cima do qual Jerry assina um solo que deve muito aos blues, mas que é igualmente um showcase de uma técnica apurada que recorre ao tapping como equivalente a um fogo-de-artifício de notas. E ainda acrescenta ao todo um pedal CryBaby para maior riqueza tímbrica. Um mimo. 43. "Like a Hurricane" 1977 NEIL YOUNG Gibson Les Paul A guitarra principal de Neil Young de que o seu técnico de guitarras, Larry Cragg, fala no filme Heart of Gold é uma Gibson comprada em segunda mão. Originalmente dourada, a guitarra foi pintada de preto por um dono anterior e ganhou assim, já nas mãos de Neil, a sua alcunha: "Old Black". Será esta a guitarra que se ouve na versão original de "Like a Hurricane", gravada com os Crazy Horse para o álbum American Stars n' Bars. É um dos mais emblemáticos temas de Neil Young e uma amostra clara dos seus enormes talentos na guitarra, graças a um solo profundamente lírico que ao mesmo tempo emana força e raiva. Uma relação com a guitarra pouco pacífica, mas muito frutuosa! 44. "You Really Got Me" 1964 THE KINKS DAVE DAVIES Harmony Meteor Dave Davies é apontado como pioneiro do punk e do metal graças à pancada a que submetia os seus instrumentos, sempre à procura de um som mais, digamos, selvagem. Apesar de ter, em tempos, havido alguma polémica sobre se teria sido realmente Dave Davies a assinar o solo de "You Really Got Me" Jimmy Page era o nome alvitrado hoje já não há dúvidas de que terá sido o irmão tresloucado de Ray Davies a colocar os Kinks no futuro com maldades hediondas feitas à sua Harmony Meteor (paga a prestações) e ao seu amplificador Vox AC 30. O solo é breve, mas intenso, distorcido e profundamente elétrico. A história prestou atenção. 45. "Maggot Brain" 1971 FUNKADELIC EDDIE HAZEL Fender Stratocaster Talvez porque o funk é, mais facilmente, visto como a música do ritmo, não se pensa muito nesse género quando chega a hora de contabilizar os melhores solos. Mas Eddie Hazel, guitarrista dos Funkadelic, é a perfeita negação dessa ideia. "Maggot Brain", tema do álbum com o mesmo título, é um solo longo e psicadélico em que Eddie Hazel ostenta uma chama tão forte quanto a de Jimi Hendrix, arrancando lágrimas da sua Strat. A lenda reza que George Clinton terá pedido a Hazel que tocasse como se tivesse acabado de receber a notícia da morte da mãe (vale tudo pela arte!). O solo, bastante processado em alguns momentos, é um longo lamento. 46. "Taxman" 1966 THE BEATLES PAUL MCCARTNEY Epiphone Casino Em 1966, logo na abertura de Revolver, "Taxman" anunciava uma série de coisas ao mundo: por um lado, que George Harrison se podia inspirar no tema da série televisiva "Batman" para escrever um mordaz ataque ao sistema fiscal britânico, mas sobretudo que havia um novo som de guitarras para explorar e que Paul era tão bom na sua nova guitarra Epiphone Casino como no seu mítico baixo Höfner. Inspirado pela música indiana que Harrison andava a ouvir, Paul assinou um solo distorcido ligando a guitarra diretamente à mesa de George Martin sem passar por nenhum amplificador. Tudo o resto nasceu dos dedos de Macca! 47. "Shoplifters of The World Unite" 1987 THE SMITHS JOHNNY MARR Rickenbacker 330 Em tempos, Morrissey explicou que o título deste single dos Smiths (que nunca foi incluído em nenhum álbum de originais, só em compilações) se referia a um "roubo espiritual, a um roubo cultural, tirar coisas para proveito próprio". Talvez levando à letra a ideia avançada por Morrissey, Johnny Marr inspirou-se em Nils Lofgren (guitarrista de Bruce Springsteen) para fazer o solo que usa um efeito de chorus muito em voga nos anos 80. "As pessoas já me disseram que soa a Brian May, mas eu estava mais a pensar em Roy Buchanans amontoados", confessou o guitarrista, referindo-se ao guitarrista americano, pioneiro das Telecasters. 48. "Moonage Daydream" 1971 DAVID BOWIE MICK RONSON Gibson Les Paul "Put your ray gun to my head", canta, a dada altura de "Moonage Daydream", David "Ziggy Stardust" Bowie. Mick Ronson parece fazer exatamente isso, tomando a sua Gibson Les Paul como um instrumento de comunicação alienígena ou como uma solícita pistola de raios laser, disparando nota inspirada atrás de nota inspirada, como faz um verdadeiro herói da guitarra. Meses antes de gravar este brilhante solo, Ronson era um músico desiludido com a cena de Londres, conformado com o seu trabalho de jardineiro em Hull. Felizmente, as aranhas de Marte alteraram a sua vida e Mick encontrou o seu lugar na história. 49. "Europa" 1993 SANTANA Paul Reed Smith Santana é responsável por ter dado o nome aos amplificadores Mesa Boogie ("Man, that little thing really boogies"), que ainda hoje usa em conjugação com as guitarras Paul Reed Smith que adotou em finais dos anos 70. Este instrumental clássico de Santana nasceu em meados dessa década, mas para muitos a versão ao vivo de 1993 registada no álbum Sacred Fire Live in South América é a leitura definitiva do tema, uma lição de sustain e mestria em que o solo parece contar ele mesmo uma história, sobrevoando linguagens dos blues e do jazz às cores latinas para afirmar um lirismo que muitas vezes está ausente destes momentos. 50. "Reptilia" 2003 THE STROKES NICK VALENSI Epiphone Riviera No início da primeira década deste século, quando a eletrónica parecia ter ganho terreno às guitarras, grupos como os Strokes representaram um papel importante na recuperação de uma certa pureza elétrica, contribuindo para reacender a chama do rock. O grupo da parelha de guitarristas Nick Valensi e Albert Hammond Jr. (ecos da dupla dos Television) conseguiu essa proeza. E isso significou agarrarem-se ao essencial. O guitarrista Valensi exemplifica essa atitude com um solo de recorte clássico em "Reptilia", do segundo álbum dos Strokes sem invenções, mas mais certeiro do que um míssil teleguiado. Textos: Luís Guerra e Rui Miguel Abreu Ilustração: Hélder Oliveira Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2011