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Optimus Primavera Sound: reportagem do 1º dia (7/6) com Suede, Drums e Rapture, etc [texto + fotos] -
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Optimus Primavera Sound: reportagem do 1º dia (7/6) com Suede, Drums e Rapture, etc [texto + fotos]

Novo festival do Porto recebeu 20.750 pessoas (até às 23h00, dados da organização). Rapture vitaminados, Suede mataram saudades, Mercury Rev opulentos. Mas houve mais.

Arranca hoje a primeira edição do Optimus Primavera Sound, no Parque da Cidade, no Porto. A BLITZ já está no (verdejante) recinto, para já, e ao contrário das piores expectativas, sem sinais de chuva. Veja aqui os horários e consulte regularmente esta notícia, para encontrar toda a informação e a reportagem fotográfica da edição nacional do Primavera Sound, evento que já fez história do outro lado da fronteira, mais concretamente em Barcelona, e este ano chega pela primeira vez a Portugal.

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7 de junho (quinta-feira)

Palco Optimus 
02h00 The Rapture 
22h45 Suede 
20h15 Yann Tiersen 
18h00 Bigott

Palco Primavera 
00h30 Mercury Rev 
21h30 The Drums 
19h00 Atlas Sound 
17h00 StopEstra!



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19h32 - Harmónica rente aos dentes, camisa de ganga arregaçada nas mangas e semi-aberta no peito, empunha uma guitarra acústica. O fundo é pré-gravado, com teclados em rodopio. Ele é Bradford Cox, também conhecido como vocalista dos apreciáveis Deerhunter, e tem à sua responsabilidade uma das primeiras atuações do Optimus Primavera Sound, estreante festival da Invicta (apesar de termos entrado junto ao mar de Matosinhos). Cox não deslumbra: a música do seu projeto Atlas Sound é mais planante (e eletrónica) do que a dos Deerhunter, o que - para concerto de homem só - não resulta em muito mais do que pano de fundo neste fim de tarde surpreendentemente soalheiro ("eles" davam chuva).

Um rápido olhar para o lado revela-nos um cenário verdejante (não colocaremos um copo de plástico neste chão) e à primeira vista custa a perceber como é que ainda ninguém tinha tido a ideia de fazer um festival aqui. A mesma radiografia instantânea mostra-nos a nação indie no seu habitat natural: este é o festival hipster por excelência e isso nota-se a milhas na forma de vestir, de falar, e na frequência com que o smartphone sai do bolso das calças (ou dos calções) para mais uma pose para o Facebook ou Tumblr. Comenta-se aqui que os servidores do Instagram e do Hipstamatic devem estar hoje um bocadinho mais sobrecarregados.

Falámos de nação indie, mas de várias proveniências. Ouvimos falar espanhol e inglês, sobretudo, mas há fisionomias que indiciam outras latitudes. Longe vão os tempos em que o festivaleiro vestia uma t-shirt dos Pearl Jam e uns calções largos, até ao tornozelo, com bolsos para o tabaco e restantes aditivos. O festivaleiro indie é "retromaníaco": veste blusão de ganga desbotada de início dos anos 90, usa calções curtos como as raparigas dos filmes de pândega do início dos anos 80, ora tem barba até ao peito, ora parece mais barbeado do que uma supermodelo; há sósias da vocalista dos The xx, modelitos decalcados da Moda Lisboa 1991, vestidos da avó, perdão, da bisavó, e camisas quadriculadas apertadas até à última casa. O cabelo é o pormenor mais livre: tanto há melenas neo-beto, como pequenos fiapos de cabelo falsamente oleoso a atravessar o escalpe de uma ponta a outra - é estilo.

Aparentemente alheio à massa humana que, sentada ao sol, assiste ao seu concerto, Bradford Cox canta "Te Amo", de Parallax (2011), álbum mais recente do projeto. Caminhamos sobre a verdura até ao local onde escrevemos estas linhas com a sensação de que o Optimus Primavera Sound não começou mal, mas é muito provável que vá melhorar.

19h50 - "O Porto é uma das minhas cidades favoritas em todo o mundo", elogia Bradford Cox.

O músico norte-americano partilhou então as suas boas memórias de uma passagem pelo Porto, à frente dos Deerhunter e na companhia dos Liars, para um concerto "num barco [Porto Rio]. Andava em digressão e sentia-me doente. No Porto senti-me melhor e fui passear com a banda", explicou, lembrando um belo pôr-do-sol com nevoeiro a que assistiu na Invicta.

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20h15 - A chuva cai no Parque da Cidade mas o público que se concentra frente ao Palco Optimus não desarma - as jovens fãs que gritam desalmadamente a cada intervenção de Yann Tiersen até ensaiam uma espécie de dança da chuva, como que celebrando a dádiva destes céus carregados. Há quem, por outro lado, procure abrigo nas tendas de cerveja, mas o aguaceiro passa rapidamente e Tiersen chama as culpas a si: "Viemos do Norte, trazemos a chuva connosco", brinca o francês, que se desdobrou em palco. Já um pouco grisalho, o músico multifacetado tocou violino (belíssimo o seu "duelo" com este instrumento, e sem mais instrumentos a "atrapalhar"), guitarra elétrica, órgão moog e, claro, encarregou-se de cantar algumas das suas músicas, quase sempre no espetro do contemplativo/melancólico/catártico. Há aqui muita melodia em miniatura, muitos coros cheios de bonomia e muito nervo, também, ainda que o ruído fique, habitualmente, longe de canções como "Fuck Me" ("uma canção de amor", apresentou) ou "Ashes".

Enquanto Tiersen e os seus cinco músicos dão o litro em palco, cá em baixo boa porção da audiência poliglota põe a conversa em dia e praticamente toda a gente regista e comenta o momento, ora com smartphones ora com mais modestas, mas sempre práticas, máquinas descartáveis. A emoldurar a música cerimoniosa que vem do palco, os céus cinzentos do Porto, por onde voam as gaivotas de Matosinhos e alguns patos do parque.

21h40 - Ouvem-se gritos de excitação vindos das primeiras filas do concerto dos Drums , e o entusiasmo circula nos dois sentidos quando a banda norte-americana apresenta "Best Friend". "Ao fim de três anos em digressão, é muito bom poder estar aqui a tocar no nosso festival favorito, o Primavera Sound", elogia o vocalista Jonathan Pierce, que encabeça esta espécie de tributo ao indie pop britânico dos anos 80 (e não só: talvez por sugestão dos senhores que hão de tocar no palco ao lado minutos depois, já nos parece haver sombras da voz de Brett Anderson, dos Suede, nas cantigas dos Drums).

"Bags! Bags!" é o "pregão" que anuncia a chegada de uma menina com sacos-mantas para distribuir gratuitamente. E em poucos minutos a moça deixa de ter mãos a medir, com a quantidade de pedidos gulosos que prontamente a cercam. Atrás da mesa de som, de olhos fechados e costas viradas para o palco, um rapaz canta a letra de "Book of Stories", a canção que, lá à frente, os Drums vão tocando. Novas formas de apreciar um concerto?

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22h24 - Os Drums , gente de Brooklyn, atacam o êxito "Let's Go Surfing" com vigor e o público, sabedor, aplaude. Mas o que fica para trás, não obstante o jangle pop empertigado (em bom) do grupo a que Jonathan Pierce dá voz é, parece-nos, um repertório muito agarrado a uma ideia só. E essa ideia é, à falta de melhor definição, uma síntese de boa parte da indie-pop (versão elétrica) da última década, coisa para conjugar guitarrinha mexida e baixo gingão (que se ouve sobre tudo, o que não é mau) em prol de melodias rápidas e não especialmente sofisticadas ideal para musicar um VHS de umas férias de verão de 1989.

O público reage moderadamente, o segundo álbum, o repertório do segundo álbum, Portamento , parece menos estimulante e aos Drums parece faltar sempre alguma coisa para conseguir, além de fazer música capaz de temperar uma boa conversa, algo que levante o ânimo de uma multidão (e há muita gente a vê-los).

No dia em que Bradford Cox, ou Atlas Sound, recorda com saudades um concerto no Porto-Rio, a poucos quilómetros daqui, apercebemo-nos que boa parte da plateia não perceberá a referência. Não há assim tantos portugueses quanto isso no Primavera Sound e é na zona de alimentação (não especialmente multifacetada) que encontramos, por uma vez, uma "mulher do norte". Eis o que ouvimos, com inegável prazer: "a minha mãe gosta menos que eu diga "fogo" do que "foda-se"". E também há lisboetas, intrépidos cidadãos que trocaram o Algarve costumeiro nesta altura pelo tempo "farrusco" do Douro Litoral (para que não se diga que alfacinha não passa da portagem de Alverca). A chuva, marota, que vai caindo tem gerado "caça" às capas impermeáveis oferecidas pelo patrocinador. E nessa altura, não há delicadeza indie que nos salve: é só alarvidade.

Alinhamento The Drums

Optimus Primavera Sound: reportagem do 1º dia (7/6) com Suede, Drums e Rapture, etc [texto + fotos] -


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00h15 - Os Suede terminam uma empenhadíssima atuação com o épico "Still Life", glória de 1994 via estupendo Dog Man Star . A regressada banda de Brett Anderson não teve a seu favor um público que, naturalmente, não é o mesmo que a levou aos píncaros em meados dos anos 90, quando o grupo se afirmou como um dos mais suculentos exemplos da pop britânica de guitarras.

O êxito "Trash", de Coming Up , composto e interpretado pela formação que vemos hoje em palco (ou seja, pós-Bernard Butler) foi apresentada logo de início, mostrando uma banda apostada em não quer ficar atrás da sua reputação. "Filmstar", pesadona, evidencia um Brett Anderson, elegantíssimo nos seus 44 anos, homem com vontade e argumentos para se entregar à função como se da primeira vez se tratasse.

Revisitam-se "Animal Nitrate" (do álbum homónimo, de 1993), "We Are The Pigs" e o lado B "To The Birds", memórias bem-vindas interpretadas sem mácula. Brett Anderson, a sobressair sobre uma banda sóbria e bem afinada, sua a camisa em "The Wild Ones", junto às grades e um reduto de fãs abnegados que - vinte anos depois dos primeiros "sintomas" desta pop romântica (elogio!) - mostra devoção.

Os álbuns dos anos 90 são escrutinados através das canções mais famosas, mas não só: "Everything Will Flow", de Head Music (1999) não foi um "hit", mas ainda nos toca sobremaneira. Reparamos mais em Anderson, "pantera" de passos seguros e insinuantes, eterna pin up desses anos 90 britânicos que glorificaram Jarvis Cocker ou Damon Albarn, vocalista de sexualidade dúbia que em tempos pareceu a versão feminina (é elogio outra vez) de Justine Frischmann, das Elastica (que, há muitos anos, também fez parte dos Suede).

"So Young" e "Stay Together" prolongam o flirt com os Suede seminais dos dois primeiros álbuns, mas é em completa escuridão de palco que outro "monumento" assoma: "New Generation", hino interpretado com galhardia por uma banda que procurou galvanizar uma plateia que, a custo, tentou recompensá-la (em aplausos).

Na retina, um belíssimo concerto de uma banda que brilhou numa "frequência" diferente da maior parte do público. Mas um belíssimo concerto na mesma.

Alinhamento Suede

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00h30 - 14 anos depois do marcante Deserter's Songs , disco que vêm apresentando na íntegra nalguns concertos, os Mercury Rev voltaram a aterrar em Portugal (vimo-los, assim de memória, numa Queima de Coimbra longínqua, no Paradise Garage, no CCB). Contrariamente ao que acontecia em 1998, com as listas de melhores do ano a prestar-lhes vassalagem, e por consequência ainda em All Is Dream , três anos mais tarde, o momento já não é dos Mercury Rev. Mas uma banda com uma visão tão pessoal e, diríamos mesmo, mágica do dream pop e de algum psicadelismo não devia propriamente sair de moda. O concerto no Primavera Sound, após o brilharete dos Suede no palco vizinho, ali a dois passos, provou que os norte-americanos liderados pelo inigualável Jonathan Donahue ainda têm o seu nicho bem cravado no coração de muito boa gente ("Não é bem clássico... é intemporal", explicava um rapaz ao amigo, no final do concerto).

Resgatada ao último disco, de 2008, "Snowflake In a Hot World" abriu o concerto, perante uma plateia com alguns conhecedores e muitos curiosos, de um tempo em que são outras canções que não "Endlessly" a musicar campanhas publicitárias. Bruxuleante na frente de palco, Jonathan Donahue é, ainda e sempre, a figura em que todos os olhos se fixam, num concerto de Mercury Rev.

Com os seus gestos de feiticeiro e poses de garça real, foi conquistando o público devagar, com paciência. "You're My Queen", "Tides of the Moon", "Godess on the Highway" foram alguns coelhos tirados da cartola dos Mercury Rev, com Donahue a oferecer-se a cada instante e a defender todas as canções como se tivessem nascido ontem.

Num crescendo de atenção por parte da multidão, e graças a um esforço constante, musical e cénico, por parte da banda, o concerto foi subindo de tom: em "Delta Sun Bottleneck Stomp" sentimos a bateria diferente, mais vital e quase tribal, mas talvez fosse das saudades; "Dark Is Rising", épica como sempre, serviu para Donahue repetir a frase "in my dreams I'm always - so - strong", numa imagem que serve como metáfora a um concerto dos Mercury Rev, um momento em que das fraquezas se faz forças e a realidade só volta a mostrar a sua cara feia depois de dissipada a nuvem onírica levantada por estes xamãs. Um espetáculo cheio de batimento cardíaco, portanto.

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03h10 - A uma hora em que outros festivais destilam house puro e duro para corpos e mentes aceleradas, o Primavera Sound aposta no meio-termo: uma banda que garante a devida dose de ritmo amigo da folia madrugadora (facção anterior ao repouso), mas não deixa nas mãos da química (facção aditivo) o motivo da adesão. Os Rapture conseguem almejar a plateia mais efusiva deste primeiro dia de festival, com um Luke Jenner (voz e guitarra) de agudos timbrados e traços vocais de um David Byrne ginasticado.

A máquina da banda nova-iorquina, apurada desde os tempos em que o punk-funk ribombava de sistema de sons vagamente clandestinos (recuemos às pioneiras festas do DJ Kitten, celebradas nesta mesma cidade, há mais ou menos dez anos), impressiona por motivos salutares: há aqui filigrana funk de primeira água, uma espécie de Talking Heads sob estímulos elétricos, sintoma atestável em "Get Myself Into", de Pieces of the People We Love , com o sax bem presente.

O regime de baixo sincopado, guitarra borbulhante e percussão maquinal não deixa falhar: quando chega a vez de "House of Jealous Lovers", hino absoluto da primeira metade do século XXI hedonista (Radio 4, !!! e quejandos, onde andais vós?) há crowd surfing na frente de palco e não temos dúvidas quando a velha e gasta expressão "rock" é chamada à "cabine de som". É rock, é vital, e é uma banda tremendamente ensaiada a mostrar que uma ausência de cinco anos (quebrada, em 2011, por In The Grace of Your Love ) pode ser apenas um beijo de até já.

Segundo dados da organização, até às 23h00 entraram 20.750 pessoas, mais de 60% com passe de 3 dias, e uma percentagem de público estrangeiro superior a 50%.

Textos de Lia Pereira e Luís Guerra
Fotos de Rita Carmo/Espanta Espíritos
Artistas de A a Z    ¤   Suede
Notícia escrita por LG Sexta, 8 de Junho de 2012 às 17:00
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