Optimus Alive'11: reportagem e fotos do 2º dia, 7 de julho
Foo Fighters e Iggy Pop trouxeram 40 mil pessoas (números da organização) ao segundo dia do Optimus Alive'11. BLITZ esteve no recinto e contou-lhe tudo, ao minuto.
Foo Fighters, Iggy & The Stooges, Xutos & Pontapés - com uma possível [entretanto confirmada, como adiante se verá] participação de Zé Pedro, afastado dos palcos por motivos de saúde - e Primal Scream são alguns dos concertos mais aguardados neste segundo dia do Optimus Alive!11 (7 de julho).
Palco Optimus
Foo Fighters - 00h25
Iggy & The Stooges - 22h45
Xutos & Pontapés - 21h20
My Chemical Romance - 19h45
Jimmy Eat World - 18h30
Palco Super Bock
Bloody Beetroots Death Crew 77 - 03h00
Teratron - 01h35
Kele - 00h15
Os Golpes - 23h10
Primal Scream apresentam Screamadelica - 21h15
Bombay Bicycle Club - 20h05
Seasick Steve - 18h55
Everything Everything - 17h55
Crocodiles - 17h00
Palco Optimus Clubbing
Enchufada apresenta:
Diplo - 02h30
Buraka Som Sistema DJ/MC - 01h15
Joker com Nomad - 23h45
Carte Blanche - 22h45
Goose - 21h30
Wildlife! - 20h15
Spoek Mathambo - 19h15
Diamond Bass - 18h00
Da Chick - 17h40
The Yardangs - 17h00
17h45
- Chega-se ao recinto e quase que dá para esquecer que ainda há umas horas este enorme espaço estava tomado por uma imensa multidão. À chegada temos por compromisso uma entrevista com os Primal Scream que mais logo trazem o seu clássico
Screamadelica
até ao palco Super Bock. Será, certamente, um dos momentos altos do programa deste dia. Enquanto a banda não chega, aproveita-se a "relva" e a sombra da plateia deste palco e descansa-se os músculos. Parece que não, mas ao fim do dia as caminhadas todas contabilizadas ainda são capazes de somar para aí uma mini-maratona.
Bobby Gillespie é um tipo muito, mas mesmo muito simpático. E modesto. E isto não é, podemos garantir, piada. É mesmo a sério. Bobby tem o ar de estrela rock experimentada que já viveu momentos altos e outros baixos e que por isso mesmo nunca minimiza o que tem à frente. Atitude saudável. E que se traduz numa garantia de que esta noite vai ser especial. Não há como não acreditar.
Em jeito de alinhamento cósmico, sai-se da entrevista com o líder dos Primal Scream no momento em que os
Crocodiles
já se encontram no palco. E fica-se com a sensação de que a pop é mesmo terreno de eternos retornos, de repetição incessante de ideias. Os Crocodiles soam ao que os Jesus & Mary Chain faziam quando Bobby Gillespie fazia de Mo Tucker e tomava conta da bateria. Só que da Escócia passa-se para a Califórnia e dos 80s avança-se até ao presente.
A banda de
Summer of Hate
e
Sleep Forever
apresenta-se com a combinação clássica de baixo, guitarra e bateria + Farfisa em fogo e toca rock and roll com história, com declinações surf muito claras e uma ambição psicadélica nítida. Funciona e é ultra-cool. provavelmente um dos nomes mais cool do cartaz de hoje. O público que já se acumulava em números generosos em frente ao palco partilhava essa coolness e dava para perceber que havia ali muita gente sem ser por acaso. O que significa que se arrancou em beleza.
18h57
- Há muita gente sentada frente ao palco Super Bock - especialmente adolescentes, muitos estrangeiros e muitos adolescentes estrangeiros (caras com acne agressivo não enganam) - a guardar baterias para a longa noite de concertos. Os ingleses
Everything Everything
são os próximos a subir ao palco, depois de os Crocodiles terem inaugurado o segundo dia do Optimus Alive'11.
Os teclados titubeantes prenunciam o início do concerto e segundos depois os quatro de Manchester entram em palco, envergando macacões cinzentos, quais operários fabris, para abrir com "Qwerty Finger". O falsete muitas vezes irritante (e outras tantas convincente) de Jonathan Higgs vai ajudando a colorir uma sonoridade forte em hormonas do quarteto que se estreou no ano passado com o álbum
Man Alive
.
"Somos os Everything Everything e vimos de Inglaterra" são as primeiras palavras que ouvimos da boca do simpático baixista, antes de o ritmo mudar para o inconstante "Suffragette Suffragette", que rapidamente revela guitarras fortes e baixo sedutor. É neste momento que o guitarrista confirma (gesticulando para a mesa de som) aquilo que já desconfiávamos: a voz de Higgs estava mais imperceptível que o habitual porque se perdia entre os instrumentos. Era preciso aumentar o volume.
"Final Form", "MY KZ, UR BF" e "Schoolin" foram os temas que mais facilmente conquistaram a plateia, com a banda a aproveitar para apresentar também, pelo meio, um tema novo. Os Everything Everything provaram em menos de uma hora que são uma boa banda de final de tarde festivaleiro. Depois de agradecerem o facto de os portugueses os terem recebido tão bem nesta sua primeira investida em terras lusas, terminaram em alta com "Photoshop Handsome".
19h10
- Em palco, os norte-americanos
Jimmy Eat World
dão corpo à ideia que temos de banda para "high school movies" ou "teen movies" norte-americanos. Para o fim de uma atuação suada guardam o maior êxito, "The Middle", de um já longínquo 2001.
O grupo liderado por Jim Adkins - provavelmente a voz matriz da geração punk-pop - já está nisto há quase 20 anos, mas a música que pratica não sofreu transformações desde os tempos em que, com os Get Up Kids, esteve na linha da frente da primeira vaga emo.
Apesar de a discografia acusar sete entradas na secção "álbuns", a sonoridade rock (banhada a refrães pop) não se alterou ao longo dos anos e é sintomático que a banda principie e acabe o concerto com canções do seu álbum de maior sucesso, um
Bleed American
que em 2001 vendeu a bom vender. E que os trouxe, pouco depois, a Portugal para um concerto no extinto Paradise Garage, em Lisboa. O melhor que se pode dizer é que quase 10 anos depois não demos pela diferença.
19h40
- Faz muito mais vento do que no dia de ontem e a visão da poeira levantada e dos chapéus de palha que são levados, como aqueles arbustos de palha seca nos filmes do velho Oeste, é estranhamente apropriada para o concerto que nos preparamos para ver.
Seasick Steve
... que personagem: tatuagens de quem passou tempo na prisão ou no mar dentro de um barco (o que até quase pode dar no mesmo), t-shirt e chapéu da John Deere e uma série de guitarras pouco ou até mesmo nada ortodoxas. Redneck de corpo inteiro. Juntamente com um baterista que parece um sósia de Jeff Daniels, Seasick Steve faz a festa em grande e congrega uma enorme multidão no palco Super Bock, como se fosse uma espécie de pastor. Vinho para a consagração não lhe falta, já que há por ali uma garrafa de tinto que parece não o largar. Espera-se sinceramente que a produção lhe tenha arranjado qualquer coisa do Alentejo. Seria poeticamente apropriado.
As "guitarras" de Seasick Steve são um espectáculo em si mesmo. Com 4, 3 ou até mesmo uma corda, feitas de pedaços de carros, tábuas, pregos e arame, Seasick Steve descreve-as como "uma porcaria, mas alguém tinha que as tocar". Só que, provavelmente, ninguém seria capaz de as tocar como ele. A velha Fender Coronado de três cordas e cheia de fita isoladora a segurar pick ups e o que mais se possa imaginar leva-nos a pensar que Steve é um tipo que não liga muito às aparências rock. E no entanto, move-se, claramente em direcção aos favores do público que não lhe poupa aplausos e que retribui totalmente a sua energia. Essa reverência é partilhada também por outros músicos: os Crocodiles estão no fundo do palco, a estudar a lição, e um dos membros dos Everything Everything é até chamado à boca de cena para receber um aplauso. E depois, Steve salta para o meio do público, escolhe uma musa de nome "Ocean" (o que é uma escolha apropriada para alguém que responde ao nome Seasick) e canta-lhe um tema acústico de forma emocionada. Tudo funciona neste velho Lobo do Mar: os blues são descarnados, carregados de músculo, prontos a serem consumidos numa qualquer roadhouse do Mississippi. Enfim, grande espectáculo.
E entretanto, os avisos sobre os passes que são mostrados nos ecrãs gigantes em inglês, português e espanhol são mais uma prova de que este é um festival realmente internacional. As várias línguas que se ouvem pelo recinto são outra prova. Tal como o facto de uma escolha aleatória de rapariga produzir uma moça de nome Ocean. E o Tejo aqui tão perto.
A caminho da base de trabalho ainda dá para espreitar
Spoek Mathambo
que com dois percussionistas digitais vai fazendo a festa com público reduzido à frente. Estavam todos ou no palco principal ou no de Seasick Steve.
20h45
- Tem-se a nítida impressão de que boa parte das almas que se começam a concentrar em frente ao palco Super Bock estão mais preocupadas em assegurar um bom lugar para testemunharem o concerto dos Primal Scream do que propriamente para seguirem de perto o espectáculo dos
Bombay Bicycle Club
, banda inglesa (como se as iniciais BBC não o confirmassem...) que foi certamente preparada para harmonizar a transição entre o blues rock do cartaz da tarde e a explosão de pop evangélica aliada à dança prometida pelos Primal Scream.
Não se pode dizer que haja algo de errado com o que os BBC fazem: banda premiada pela máquina de fazer hypes da imprensa inglesa (aka NME), estes rapazes fazem pop derivativo da longa tradição pop das ilhas britânicas, dos Orange Juice aos Smiths e daí até aos Blur ou XX. Guitarras swingadas, vozes de rapaz com coro de colégio no currículo, melodias que aprenderam o que sabem no cancioneiro de Lennon e McCartney. Tudo "by the book". Mas como Seasick Steve ainda há pouco demonstrou, às vezes basta uma corda para incendiar o público e a voz e as canções. Se a alma não é pequena a coisa funciona. E pelos lados dos BBC, e apesar de um historial que já inclui dois álbuns (há um terceiro prestes a sair), não se percebeu nada que os eleve acima do genérico. Adiante...
De regresso à "base", cruzámo-nos com um pai de 30 e muitos com o seu filho de 7 ou 8 anos. Os dois de calções, os dois com o mesmo corte de cabelo, os dois de t-shirt dos Xutos. Não foi possível resistir a perguntar qual o tema favorito do miúdo. A resposta "À Minha Maneira" indica que o adágio popular do pequenino e do pepino é mesmo verdade. Vai ser uma festa.
20h50
- Mais uma volta ao recinto e algum fixador de cabelo depois (entenda-se: pó), a reportagem BLITZ estacionou no Palco Optimus e deixou-se ficar para o concerto dos
My Chemical Romance
. A banda conterrânea dos Bon Jovi (New Jersey, USA) não se demora a mostrar ao que vem: punk-pop com laivos progressivos e teatrais e canções a revelar, lírica e musicalmente, uma vivência tipicamente americana.
Gerard Way, cabelo vermelho e camisa verde tropa, comanda as operações de um espetáculo que teria, certamente, outro tipo de saída quando o emo era um rito de passagem (já lá vai o tempo...). A tocar sob a luz do dia, o outrora negro e gótico Way é hoje uma figura super-pop, sem maquilhagem, sem a teatralidade de um passado mais ou menos recente.
O que não é necessariamente uma perda quando se arranca com um enérgico "Na Na Na Na Na", o encontro algo improvável entre os Kaiser Chiefs e os Green Day com os Queen mais pomposos em pano de fundo. Ou quando se deixam as pretensões de refazer
American Idiot
, dos Green Day, para se entrar, sem pruridos, no anos 80 dançáveis com os quais os suecos Sounds ou os americanos Killers têm ganho a vida. O povo dança e as bruxinhas emo já não estão tristes; 2011 é lollipop, está visto. E não há emo que resista a um chapéu de palha...
Em "Mama", percebemos que os MCR não são banda de uma nota (ou de um estilo) só. À memória vem-nos "Alabama Song", pelos Doors, mas os Gogol Bordello também não desdenhariam deitar aqui a unha - já o refrão retoma a normalidade; é drama-rock (ou drama-Queen?), aspiração music-hall, outra vez no encalço dos Green Day de
American Idiot
.
O rock FM xaroposo existe e "The Only Hope For Me Is You" aparece para confirmá-lo. E, num repente, a antena muda para "Destroya", o mais próximo que os MCR estarão alguma vez dos Nine Inch Nails. Para que ninguém se queixe da variedade, uma formulaica mas funcional "Teenagers" arranca a reacção mais entusiasmada do fim de tarde - são os MCR mais pop, os MCR que poderiam ser outra banda.
Quando a bandeira portuguesa com a palavra "Contaminated" é enrolada no suporte do microfone, percebemos que o caso é sério. "Welcome to the Black Parade", na sua alternância de andamentos, é a opera-rock do grupo e é devolvida com empenho, olhos cerrados e voz no limite. Perto do final, um "The Kids From Yesterday" onde se mostra a costela sofredora daquele a que a BLITZ, aqui há atrasado, denominou de "o menino da lágrima": "they only care when you bleed" poderia ser o lema de um hospital manhoso, mas é uma reflexão sobre a sociedade atual. Bom concerto, convém dizer.
22h23
- Foram uns
Xutos & Pontapés
revigorados aqueles que subiram esta noite ao palco do Optimus Alive'11. Com vontade de dar ao público tudo aquilo que este queria ouvir, em pouco tempo a banda foi acelerando num registo best of que passou por temas emblemáticos como "Nao Sou o Único" ou "Chuva Dissolvente". Numa hora muito celebrada pela plateia, que no ínicio nos parecia em bastante menor número que aquela que ontem assistiu ao concerto dos Coldplay, Zé Pedro foi a grande estrela, num regresso muito aguardado e algo surpreendente depois da recente operação cirúrgica de que foi alvo.
O guitarrista foi, como não poderia deixar de ser, o primeiro a entrar em palco. Envergando um casaco branco, Zé Pedro agradeceu aos fas o carinho que demonstraram nos últimos meses. "Muito obrigado. Já estava com saudades. O vosso apoio deu-me alento", disse o músico antes de verbalizar o quão importante foram as mensagens de melhoras e a força que lhe transmitiram. Depois de agradecer também aos colegas, e de recordar os recém falecidos Angélico (dos D'ZRT) e Zé Leonel (primeiro vocalista dos Xutos), o guitarrista apresentou os restantes membros dos Xutos & Pontapés, que entraram em palco para atacar, logo a abrir, "Sémen", primeiro single da banda (da autoria de Zé Leonel).
O que se seguiu foi um autêntico desfile de sucessos, acompanhado por um coro gigante - muitas famílias com crianças entre o público, para provar que a carreira dos Xutos vai continuar a ter seguidores fiéis por muitos e muitos anos - sempre com as letras na ponta da língua. "Ai Se Ele Cai", "À Minha Maneira", "Quem É Quem", "Mundo ao Contrário", "Contentores" e "Dia de S. Receber" foram algumas das canções apresentadas em ritmo acelerado. Depois de Tim pedir uma salva de palmas para Zé Pedro - momentos depois de dizer que estava um pouco nervoso e de ter explicado com "Perfeito Vazio" aquilo que a banda sentiu por tocar ao vivo sem o guitarrista - o final ficou a cargo de "Minha Casinha", que, como sempre, levou o público à loucura.
22h30
- Belíssimo concerto, o dos
Primal Scream
que ressuscitaram
Screamadelica
para o momento alto de hoje do palco Super Bock. E "ressuscitar" não é, decididamente, a palavra certa, uma vez que duas décadas não foram suficientes para diminuir o impacto desse extraordinário disco, filho bastardo das experiências psicadélicas dos Stones com o "boom" que os sistemas de som dos clubes e das raves ilegais debitavam em Inglaterra à entrada dos anos 90. Os Primal Scream não esquecem essa combinação e o som é tão cuidado neste espectáculo como os arranjos das canções: mais do que singles, os rapazes de Bobby Gillespie estão aqui para interpretar maxis, versões dilatadas dos temas que perfizeram o álbum clássico: "Higher Than The Sun", "Loaded", "Come Together", hinos apresentados com groove, com panache e com devoção. Bobby, na sua camisa prateada, continua a vestir na perfeição o papel de evangelizador rock e manifesta o desejo de que todos possam estar "mais altos do que o sol" e que o colectivo possa "congregar-se" (e soa melhor no "come together" original!).
O público revela uns bilhetes de identidade um pouco mais... carregados. Há ali muita gente que claramente recorda a edição original do disco e que até se lembra que o homem do baixo, Mani, tocava noutra banda, os não menos fabulosos Stone Roses. Há alguns ingleses de rastas que dançam como xamãs no meio do deserto, mas a maior parte parece absorvida pelo show visual apresentado nos três ecrãs gigantes: sobretudo imagens de tendência abstracta e psicadélica, traduções visuais do efeito de certas substâncias quando convidados para um baile com os nossos neurónios. Ao que parece...
Além dos temas de
Screamadelica
, o espectáculo abriu ainda espaço para alguns clássicos, como "Country Girl" ou "Rocks", "crowd pleasers" com a dose certa de rock e carisma que surtiram o efeito desejado. São grandes, estes rapazes!
Antes do concerto, Bobby revelou que os Primal Scream se encontram a trabalhar num novo álbum que deverá conhecer a luz do dia no Verão do próximo ano. A que soa? A BLITZ conta-vos a história um dia destes. Para já, há mais choques eléctricos para absorver. Há outro xamã em palco, está de tronco nu apesar do muito frio e acaba de anunciar "Search and Destroy". Viva o rock and roll!
23h00
- Termina um assombroso concerto de
Iggy Pop
e os seus
Stooges
. Os Foo Fighters não tardam, mas ficam algumas notas soltas: início abrasivo com "Raw Power", final não menos excitante com "No Fun", exemplos maiores do património do rock; pelo meio, uma sequência imparável de electricidade e um Iggy Pop que recusa admitir - e bem - a idade que tem no BI. Não há muitos cavalheiros com 64 anos a rastejar, morder o fio do microfone em pose canina, a cuspir água como o verdadeiro punk (antes do tempo) que foi e ainda é, a vociferar contra as "fucking commercial bands", a "pop bullshit", a segurança em festivais ("security is a lie"), os próprios festivais ("fuck festival shit") e tudo em geral ("fuck everything").
Em mais de uma hora, um pouco de história em movimento: a mesma silhueta de sempre, o tronco nu tonificado, descidas às grades, contacto corpo-a-corpo, um quinteto à procura - mais uma vez - de um estado de graça. Candura? Nenhuma. Procura de algo elevado? Nem por isso. Este estado de graça resume-se a uma palavra e Iggy proferiu-a: "Riot!". Enquanto isso, alguns convidados (entenda-se: público) foram chamados a palco e dançaram, espernearam (e ok, tiraram fotos) como se não houvesse amanhã. Os Stooges são de todos e foram-no de "Search and Destroy" a "I Wanna Be Your Dog", teclas febris demoníacas, os instrumentos todos em uníssono infernal.
Iggy saiu a fazer poses e a mandar o suporte do microfone ao chão. Quer estar aqui, mas quer ir embora. Adora-nos e odeia-nos. Sente-se vivo. "Raparigas: a vossa cara bonita vai para o inferno", cantou já no encore. Não são só elas - vamos todos atrás.
01h32
- A tenda do palco Super Bock estava bem composta para receber
Os Golpes
, que provaram ao público como não é justo julgar uma banda pela seu maior sucesso. As guitarras aceleradas e a bateria galopante (ora pensamos em Strokes, ora nos vêm à cabeça os Joy Division) da banda de Manuel Fúria mostram um portento rock longe da candura pop de "Vá Lá Senhora", que quase no final do concerto - e cantada a meias com Rui Pregal da Cunha - levou a audiência à loucura.
De cabelo endiabrado, Fúria levou o seu quarteto a bom porto, entre a força de "Território Justo" e a competência com que oferecem "A Marcha dos Golpes". A finalizar em grande, a banda atirou-se em modo rock a "Paixão", tema dos Heróis do Mar, com Pregal da Cunha a dançar até cair mas sem abandonar a sua preciosa cartola.
Poucos minutos depois de Os Golpes abandonarem o palco, o britânico
Kele
conseguiu a proeza de levantar do chão até aqueles que pensavam que já não conseguiam pular mais. O cantor que ficou conhecido como líder dos Bloc Party percorreu os melhores momentos de
The Boxer
, o álbum de estreia a solo, e não desapontou os fãs (e até não eram poucos os que cantaram a plenos pulmões) quando se atirou a um medley de temas da sua antiga banda.
"Walk Tall" abriu o concerto em grande estilo, com a batida penetrante a atrair o público para a frente e "On the Lam" manteve o nível infeccioso. De cabeça rapada, calções e t-shirt de alças, o músico saltou, dançou e deixou-se levar até bem perto dos fãs para cantar o belíssimo "Everything You Wanted".
Aos Bloc Party, Kele foi recuperar "Blue Light", "The Prayer" e "One More Chance" e depois de um poderosíssimo "Tenderoni" e de se mostrar um pouco confuso ao referir-se ao "Super Bock Festival", recuou ainda a "This Modern Love", para delírio da plateia. O ponto alto da atuação foi, no entanto, o intimista "All the Things I Could Never Say", que começou quase sussurrado e terminou numa verdadeira festa de dança. Estão, potanto, lançadas as coordenadas certas para a noite continuar em alta no palco Super Bock com as atuações dos Teratron e dos Bloody Beetroots.
2h30 - Os
Foo Fighters
preparam-se para o regresso ao palco, depois de duas horas intensas de casamento perfeito entre banda e público. Vem aí encore. A multidão não é a mesma de ontem, mas há um entusiasmo mais, digamos, primário - simulam-se solos estratosféricos em "air guitar", movimentam-se as pernas ao ritmo dos "riffs", há rock másculo e pêlo na venta. E um sorriso constante na face de Dave Grohl, o homem que a seguir ao suicídio de Kurt Cobain, em 1994, deve ter prometido a si mesmo: "nunca mais vou tirar este sorriso da cara, para que isto [um desfecho à Cobain] não volte a acontecer na minha família".
Cabelo sobre os olhos, pastilha elástica mastigada no intervalo entre músicas, discurso solto e domínio perfeito da comunicação para multidões, Grohl é como aquele tipo muito chato que queria trocar cromos connosco na escola primária e que acabou por se tornar um amigo para a vida inteira. A sua bonomia e a felicidade estampada no rosto não entroncam no cliché rock'n'roll, que incute credibilidade em personagens "difíceis", inacessíveis ou imprevisíveis, que dota de personalidade alguém que prefere ser esquivo em vez de tipo porreiro. Grohl não é um "badass motherfucker", apesar de meter "fucking" em tudo quanto é frase e ter emborcado cerveja de penalty. Em "Monkeywrench", imediatamente antes da gritaria, pede para baixarem as luzes: não quer ser visto a berrar. Este pudor (encenado, é certo) cativa-nos, cria empatia. Grohl quer estar connosco.
Há, claro, um jogo de charme. Logo no início, ele diz o que toda a gente quer ouvir: a noite vai ser longa, porque os Foos já cá andam há muito tempo e têm muita música para mostrar. "Quem é que está a ver Foo Fighters pela primeira vez?", indaga. Pelo coro de respostas, há muitos estreantes. E Grohl faz um ar de: "ok, é melhor tirar o carro de segunda fila".
Em "My Hero" reencontramos os anos 90 pós-Nirvana, um rock melódico mas agressivo. Vemos Taylor Hawkins atrás da bateria e lembramo-nos do Animal dos Marretas (a personagem a que, curiosamente, Grohl dará voz no cinema). Grohl responde com headbanging e correria louca de uma ponta a outra do palco, guitarra a tiracolo e o traquejo suficiente para não se estatelar ao comprido. Se Iggy Pop fez o mesmo e já tem uns parafusos...
"Rope" e "The Pretender", canções velozes mas menores, servem de aquecimento sem comprometer. "Learn To Fly", depois de "My Hero", gera as primeiras reacções de "eu queria era ouvir esta". Em "White Limo", do último
Wasting Light
, Grohl canta como o amigo Lemmy Kilmister. Passa-se por "Arlandria" e "Breakout" antes de Grohl gabar os novos ténis azul bébé do guitarrista veterano Pat Smear. Há uma aproximação ao stoner-rock em "Stacked Actors", com descida às grades e lambidela numa câmara pelo meio.
Convenhamos: a música dos Foo Fighters não é um exemplo tremendo de eclectismo, de heterogeneidade. A base é quase sempre a mesma: versos em que o riff pesado da guitarra sobressai; um refrão que ora adocica, ora explode; um vocalista - Grohl - que não se esquece da sua linhagem hardcore e desata a gritar sempre que pode ("é algo que sei fazer", reconheceu). Por vezes, sentimos que a mesma música se desdobra noutras três ou quatro ao longo do alinhamento. Falta de imaginação? Grohl prefere advogar a pureza do rock. "Sem computadores" (já os Queen diziam, nos álbuns dos anos 70, "sem sintetizadores"). "O rock é feito por pessoas e instrumentos". "O nosso álbum [
Wasting Light
] foi gravado na minha garagem!". Acreditamos em tudo porque acreditamos em quem parece ser amigo.
Até ao final, houve - claro - "Best of You" e "All My Life" e aí não há reincidências nem repetições nem fórmulas; há canções pop/rock eficazes e que o povo entoa com devoção. No encore, "Times Like These" e "Everlong" prolongam a euforia. O mesmo sorriso, a mesma felicidade, a mesma banda rock feita de pessoas e instrumentos. Longa vida aos Foos.
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Textos de Luís Guerra, Mário Rui Vieira e Rui Miguel Abreu