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Festival Med (Loulé): reportagem do 3º dia, com George Clinton [atualizado com fotogaleria] -

Festival Med (Loulé): reportagem do 3º dia, com George Clinton [atualizado com fotogaleria]

E ao terceiro dia a nave mãe pousou em Loulé. Será muito difícil que as palavras que se seguem façam justiça ao que George Clinton e os seus Parliament Funkadelic apresentaram no Med.



As imagens valem, dizem..., mil palavras, mas o espetáculo do bom Doutor Funkenstein valeu muito mais que mil imagens: uma patinadora de biquini com voz de diva lírica do São Carlos; um stripper masculino de nome Nose que se apresentou em palco de calças, casaco comprido e chapéu de peluche branco exibindo depois abdominais que deviam ser proibidos num país em que a cerveja é tão boa, como o nosso; uma cantora de blues que inadvertidamente (ou será que?...) exibiu um mamilo; um guitarrista que roubou a guitarra ao Pokémon e que fez um solo de 3 anos absolutamente incrível; outra guitarrista que acredita decerto ser aparentada de Michael Jackson, tal a parecença...

Cerca de duas dezenas de pessoas em palco, entre guitarristas, baixistas, bateristas, vozes... E depois, George Clinton, vestido com uma túnica que, entre outros dizeres, mostrava um símbolo dos gelados Olá. Dizer que foi surreal é, garanto, dizer muito pouco.

George Clinton já pouco mais faz em palco do que agir como símbolo vivo de uma época em que o funk revelou todo o seu poder libertário. Controla o volume da banda (que no final deve ter decerto batido recordes de nível de ruído no MED) com o próprio corpo, baixando-se e levantando-se num "gimmick" divertido e de encher o olho, canta, mas só um bocadinho, e mais nada. George Clinton limita-se a ser George Clinton, embaixador de outra galáxia que aterrou neste planeta para nos explicar como se funka sem reservas.

Por entre clássicos do demolidor eixo Parliament Funkadelic, executados em prolongados medleys em que as músicas se fundiam de forma perfeita - de "Flashlight" para "Gotta Get Over The Hump", por exemplo - o concerto evoluiu como lava, deixando tudo e todos em brasa. Mas houve clássicos que ficaram de fora - "Get off your ass and jam", "One Nation Under a Groove" ou "Atomic Dog" - deixando espaço, por exemplo, para temas menos óbvios, como "Maggot Brain" com o guitarrista Michael Hampton a mostrar que afinal o ingrediente nada secreto na fórmula P-Funk foi sempre o rock. Aliás, o que não faltou neste espectáculo, tanto do lado do público como do lado da banda, foram dedos em forma de cornos, símbolo do metal que aqui também se encaixou de forma estranhamente apropriada.

A banda que acompanha George Clinton é extremamente competente e fluida: há guitarristas que também são baixistas, saxofonistas que também são cantores, bateristas que fazem rap e o corropio em cima do palco é grande num espectáculo quea julgar pelos sinais desesperados do stage manager não devia ter durado duas horas, mas que foi dilatado o suficiente para incluir peso eléctrico, jams psicadélicas, rap, jazz, blues (com mamilos...) e funk em doses absolutamente desaconselhadas a fãs de Diana Krall. Esses estavam todos na estreia de Luísa Sobral nas lides festivaleiras, um concerto em modo veludo que captou o público, mas que não conseguiu prender por demasiado tempo a atenção de quem esperava cabedal e lingerie burlesca.

Houve mais música ontem à noite, mas todos os nomes que pisaram os palcos no terceiro dia de MED tiveram uma tarefa muito ingrata para cumprir. É que no palco principal serviu-se sanduíche de turista sexy, ofereceram-se charros ao Doutor Funkenstein e por momentos, juro, acho que toda a gente levitou um bocadinho. Barriga cheia, pois claro. O prolongamento do concerto levou a que se perdesse os Soaked Lamb, mas ainda permitiu que se apanhasse um pouco dos ucranianos dos DakhaBrakha - música tradicional com uma acentuada carga rítmica a colar-se às cordas. Uma espécie de DahkaBrakha Som Sistema que ainda assim soube a pouco depois de se ter visto a Mothership a aterrar e a levantar voo de novo.

De todas as tarefas ingratas alinhadas, a mais ingrata de todas tem que ter cabido a Noiserv, que se apresentou no pequeno palco do Arco, bem próximo da pista de aterragem dos Parliament Funkadelic. A pop delicada de Noiserv soou demasiado frágil para quem tinha acabado de testemunhar uma força capaz de mover placas tectónicas. Fomos espreitar outros palcos. Deu, por exemplo, para ver os Caldas Hand Saw Massacre (melhor nome de sempre?) a terminar o seu set no palco da Bica com uma interpretação reverente do clássico dos Monty Python "Always Look on The Bright Side of Life". Uma boa maneira de olhar para a vida, de facto, sobretudo nos dias que correm.

A noite terminou com os Batida, que voltaram a dar trabalho reforçado ao sistema de som do palco Matriz. O público estava visivelmente ansioso pelas batidas requebradas do kuduro dos Batida que apresentam já um espectáculo absolutamente vibrante, com uma componente multimédia cuidada a reforçar-lhes a identidade originalíssima. As percussões digitais e acústicas mexeram com o povo que ali estava e garantiram um óptimo fecho de noite. O Clube Conguito de António Pires e de Rodrigo Madeira (nome certamente familiar para quem está atento ao design - e às críticas de discos - da BLITZ) ofereceu no palco do Castelo ritmos tropicais a quem quis dar trabalho às ancas numa selecção de bom gosto apuradíssimo. Sabem obviamente da poda, os Conguitos.

Mas a noite, sinceramente, pertenceu a George Clinton. Durante a tarde, a lenda viva do funk, confessava-nos no hall do seu hotel que tinha tomado o seu primeiro banho de mar em 35 anos. No início do mês, Clinton foi hospitalizado com uma grave infecção numa perna. A proximidade do desaparecimento de Gil Scott-Heron levou a que alguma imprensa relatasse até temores de que outra tragédia se pudesse abater sobre mais um herói da música negra. O oceano temperado do Algarve há-de certamente ter ajudado o veterano a cumprir o seu desígnio de trazer à terra um pouco de poeira cósmica. E acho que saímos de lá todos a brilhar.

Ontem, havia visivelmente mais gente na rua, circulava-se um pouco mais lentamente nas ruas apertadas do centro histórico de Loulé, mas continuava a ser possível assegurar locais de qualidade para ver qualquer espectáculo. Terceiro dia de MED, terceira vitória. Hoje há Etiópia e batalha de metais dos Balcãs, Frankie Chavez e Márcia, Afrocubism e muito mais. Que venham. Depois de ontem, estamos prontos para tudo.

Texto: Rui Miguel Abreu
Fotos: Rolando Oliveira
Notícia escrita por RMA Sábado, 25 de Junho de 2011 às 12:12
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