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Hoje apetecia-me escrever sobre o fim das férias, sobre a ameaça que paira sobre a Antena 3 e a RTP, sobre alguma da excelente música que aí vem, sobre a tendência para as edições de luxo que parece estar a acentuar-se, sobre tudo aquilo que, sentado na praia, fui pensando ao longo deste último par de semanas. Mas ontem, um amigo deu-me a notícia do desaparecimento de Hal David, o homem das palavras que sobrevoavam as incríveis melodias de Burt Bacharach.
Não foi nenhuma tragédia, mas o ponto final numa vida longa e carregada de triunfos. Ao lado de Burt Bacharach desde finais dos anos 50, Hal David escreveu letras para temas tão memoráveis como "Raindrops Keep Fallin' On My Head", "Anyone Who Had a Heart", "Walk on By", "Do You Know The Way to San Jose?", "I Say a Little Prayer", "What The World Needs Now is Love" ou "(There's) Always Something There To Remind Me", "(They Long to Be) Close To You" e tantas, tantas outras que fizeram a glória de intérpretes como Dionne Warwick, dos Carpenters, de Dusty Springfield, Gene Pitney ou Tom Jones.
David era, claramente, um homem de outro tempo, de outra era musical, um verdadeiro artesão que ajudou a moldar a identidade pop de um país oferecendo ao mundo standards que servem para medir os grandes cantores, canções que apresentam labirintos melódicos e poéticos, uns mais simples do que outros, que servem para as vozes se perderem ou se encontrarem. Do barulho do Brill Building, da cacofonia da Tin Pan Alley, David, como tantos outros compositores e letristas profissionais, ajudou a desenhar a identidade de uma geração, de uma era. Os anos 60 não pertenceram apenas aos Beatles e aos Stones, foram também um bom bocado de Bacharach e de David, sobretudo se o cenário das vidas se aproximasse mais dos ambientes que vemos em
Mad Men
e menos das imagens que associamos à geração de Haight-Astbury e de Woodstock.
No início dos anos 90, uma compilação dedicada aos Carpenters foi parar lá a casa. Na época, gente como Sonic Youth e De La Soul, R.E.M., Nick Cave, Public Enemy e KLF dominava os meus hábitos musicais, mas por alguma razão não consegui livrar-me daquela compilação, que de resto ainda repousa nas prateleiras lá de casa. A música não era abrasiva, nem combativa, não tinha grooves pronunciados, nem feedback ou arranjos condizentes com a época, mas de cada vez que me tentava livrar do disco algo me impedia de o fazer. Descobri um pouco mais tarde que era a arte de Burt Bacharach e Hal David a verdadeira razão para segurar aquele disco na minha coleção: vieram outros, de Dione Warwick e Dusty Springfield e até de Tom Jones, todos dotados de canções de excepção que não precisavam de pertencer a este tempo porque pareciam adequar-se a todos os tempos. Hal David assinou palavras que se vão cantar por muitas mais eras e que vão marcar muitas outras pessoas, ainda que os discos originais em que foram gravadas possam ser de outros tempos. Mas um verdadeiro clássico, já se sabe, nunca sai de moda.
Crónica de Rui Miguel Abreu
Foto:
Getty Images
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