"Meu nome é máquina, eu não sou feliz. É claro que os homens são muito mais felizes. Eu fui programado para ser feliz, os homens tem mais sorte do que eu". Após esta introdução cibernética, mais de uma década de saudades e petições eram finalmente saciadas e a paisagem bucólica das margens do rio Coura foi literalmente abaixo com a intensidade das emoções libertadas por aquele imenso mar de almas. Os Ornatos Violeta!
A tensão latente de "Tanque", o primeiro tema do mítico "O Monstro Precisa de Amigos", o 2º e derradeiro disco da banda, que seria tocado na íntegra naquele espectáculo que marcaria oficialmente o regresso dos Ornatos após um longo afastamento, não poderia ser mais perfeita para abrir as hostilidades. Importava saber se um único disco seria capaz de sustentar todo um espectáculo, mas a história da música não poucas vezes já nos deu uma resposta afirmativa para esta questão. Há carreiras mais longas e contínuas que se apoiam num único disco revisitado vezes sem conta e até casos extremos em que um único e solitário êxito fortuito serve para o mesmo efeito.
O "Monstro" tem hoje infinitamente mais pessoas desejosas de ouvi-lo agora em 2012 do que quando foi editado, com sucesso, em 1999 e ouvindo-o com atenção, graças à sua consistência, assemelha-se a uma espécie de "falso disco conceptual" e foi recebido avidamente com muita sede e com todas as suas palavras acompanhadas por um coro gigantesco. A agitação de "Chaga" e "Dia Mau", a tão antecipada catarse de "Ouvi Dizer", a alegria de "Capitão Romance", o poder de "O.M.E.M" (com o Manel Cruz a mergulhar no público), a majestade de "Coisas", enfim, até ao derradeiro "Fim da Canção", o disco foi tocado num tom bastante fiel ao que ficou gravado, com uma ou outra nuance, mas com a intensidade e a entrega que se esperava numa ocasião tão solene como a desta noite.
A banda soou bastante coesa e aparentemente com muito boa onda e alegria e após terminarem a sessão "Monstro", fizeram um longo encore com temas inéditos que não couberam nos discos e que resultaram muito bem, até ao momento final, em registo hardcore. Coube naturalmente ao Manel Cruz, mais do que uma vez, ficar a fitar com um ar aparvalhado todo aquele mar de gente e numa dessas ocasiões disse o seguinte: "Na minha terra diz-se fodasse!". Épico.
Antes do Ornatos, já com a moldura humana devidamente compactada, subiu ao palco aquele que é, por estes dias, o nome mais sonante do panorama musical Português, com todo o mérito: os Dead Combo. Nesta ocasião, a dupla foi uma tripla, com o convidado de estrada Alexandre Frazão (aka o melhor baterista cá do Burgo) e como haviam anunciado algures, esta noite teríamos um concerto mais "Rock".
"Rock" é dizer pouco. Esta noite os Dead Combo ofereceram "Serralharia Pesada", com versões bem mais musculadas do seu reportório, adornadas com a mestria do Sr. Frazão. Houve um pouco de tudo, desde o "Assobio", "A Menina Dança", "Cachupa Man", a Western Spagetti "Mr Eastwood", a brilhante "Cuba 1970" e até uma visita ao mestre Tom Waits, com uma visita a sua "Temptation", com a ajuda de um Kazoo. Pelo meio, um convidado ilustre: O Peixe dos Ornatos, que deu uma perninha na guitarra num par de temas, com destaque para o "Blues da Tanga", em alto estilo sónico. Mais lá para o fim, uma ainda mais árida rendição de "Cacto" e a animação geral com o toque Africano da animada "Lisboa Mulata". Ovação geral, para uma banda que, segundo as palavras do sempre Cool Tó Trips, sempre aspirou tocar em Paredes de Coura no palco Jazz na Relva, mas que de repente, viu-se no palco maior, tocando para milhares e milhares de pessoas!
No início da tarde, tive tempo de assistir ao curto e insípido concerto dos Ladrões do Tempo, um supergrupo que conta com o Zá Pedro e as duplas Da Punk Sportif e Dead Combo, mas na verdade, aquilo não passa de Roquezinho do mais genérico que existe. No palco secundário, consegui finalmente ver os Best Youth ao vivo e gostei muito, como pareceu ter gostado o apreciável número de pessoas que lá se juntou. Definitivamente está ali um produto Pop de excelência, com canções e boa vibe suficientes para o sucesso. Temas como "Honey Trap", "Wait For Me" e "Hang Out", volto a dizer, são das melhores pérolas Pop que tenho ouvido nos últimos tempos.
Foi muito bom regressar mais uma vez a este Festival, que reitero com toda a certeza e experiência, é o melhor que se faz neste país e ficou provado que nem só de nomes "gordos" se fazem os bons cartazes e, para quem alvitra que o termo música "Portuguesa" tem uma conotação secundária ou depreciativa e que serve apenas para "tapar buracos" na ausência de estrangeiros, deve dar uma olhada às imagens e às reportagens do que se passou em Paredes de Coura Na passada sexta-feira.
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"Na minha terra diz-se fodasse!"
engraçado, na minha também.
Ando a falhar os Dead Combo há uns tempos...
"mas na verdade, aquilo não passa de Roquezinho do mais genérico que existe"
Ouch! Ainda não os ouvi ao bibo, também tenho de ver isso...
Bons momentos em Paredes de Coura, estou a ver. Óptimo!!
"que nem só de nomes "gordos" se fazem os bons cartazes"
Dead Combo e Ornatos e Zá Pedro são nomes bem gordos, para mim.
na sexta feira, a muito custo la sai para jantar com os amigos, mas inventei uma treta qualquer para vir a correr para casa e ainda conseguir apanhar os ornatos.
cheguei ainda estavam a tocar dead combo e realmente "deram-lhe no rock" quando liguei o radio até tive d ir confirmar se aquela era a hora em que eles tocavam porque sinceramente, nem os reconheci
quanto a ornatos, mal começaram a tocar eu feita parva quase chorava, ouvi-los depois deste tempo todo, ouvir o publico a cantar também foi mt bonito...deixou m ansiosa para o concerto do coliseu, espero que corra tão bem ou melhor, porque agora as minhas expectativas estão bem la em cima xDD