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Nos belos dos anos oitenta, uma época em que, para mim, não havia grandes hipóteses de consultar o passado porque normalmente os singles de 45 rpm/ 7 polegadas estavam todos "descatalogados", o que queria dizer que já tinham sido derretidos, era um problema ouvir as canções mais antigas, que queríamos absolutamente ouvir.
Para os novos fãs de Siouxsie and the Banhees, Once Upon A Time colmatou algumas falhas. Apesar de o ter apanhado só seis ou sete anos após a edição original, ainda foi muito a tempo. Na altura, pareceu-me ser a primeira vez que ouvia um álbum em que as canções terminavam mesmo, sem serem cortadas ou com o volume reduzido progressivamente até se extinguirem - o que me irritava soberanamente porque queria sempre ouvir o resto que faltava. O pior era quando acontecia o mesmo nos 12". Com os Banshees isso nunca acontecia. Definitivamente, o meu tipo de grupo! Mas antes dos 12", houve o Once Upon A Time para tirar teimas.
Assim, pude ouvir pela primeira vez algumas das que se acabariam por tornar banda sonora para muito do que viria a seguir:
a versão de estúdio de Hong Kong Garden, aliás, a primeira vez que a ouvi, de estúdio ou não. Da qual, o jornalista Paul Morley dizia: "Fui marcado, feroz e incisivamente, por Hong Kong Garden e nunca mais voltei a ser o mesmo." É, naqueles tempos percebia o que ele queria dizer.
De qualquer forma, outros jornalistas acusavam a letra de racismo, pela forma como se referiam ao povo asiático... sendo irónico o facto de que a canção era precisamente também acerca de pressões racistas contra o povo asiático que geria um restaurante chinês...
Mirage, que estava prevista para ser o primeiro single do grupo, tendo depois a decisão pendido para Hong Kong Garden.
Em '78, ouvia-se "I'm just a vision on your TV screen / just something conjured from a dream". E continuava a fazer todo o sentido em 87/88 e desde então.
The Staircase (Mystery), uma canção hitchcockiana com gatos, escadas, tapetes e corrimãos. Perfeita.
Playground Twist, a tal canção que se Ingmar Bergman produzisse música, soaria a qualquer coisa deste género. "Exige ser ouvida repetidamente, com o volume no limiar da dor, para captar a sua dimensão total de pesadelo."
Love In a Void, a primeira canção escrita pelos Banshees. Ou melhor, a única canção que sobreviveu do primeiro conjunto de canções de Sioux e Severin que se ouviam em 77/78, até à fase de estúdio. E também a única canção cuja letra foi adaptada para poder ser ouvida na primeira Peel Session do grupo, em 1977, para a BBC.
Inicialmente, incluía o verso "Too many jews for my liking". Obviamente, foi retirada do contexto e alguns jornalistas entraram em guerra santa contra os Banshees.
Para a BBC, a letra passou a "Too many quacks for my liking"; no Once Upon A Time ouve-se como "Too many bigots for my liking".
De qualquer forma, não foi considerada "radio friendly"... e o anti-semitismo acabou.
Happy House, outro dos temas marcantes dos Banshees, dedicado aos tempos felizes que passavam na editora, que foi sempre a polydor e que entretanto foi absorvida pela universal, qual buraco negro.
Christine, uma canção esquizofrénica sobre uma rapariga esquizofrénica que tinha 22 personalidades diferentes. Caso verídico.
Israel. Toda a gente conhecia esta canção. Foi lançada por um lado para dar resposta às acusações de anti-semitismo por parte de alguns jornalistas, por outro, porque a estrela de David é um símbolo, tal como a cruz suástica. Era especialmente tocada sempre que nos concertos apareciam partidários da frente nacional britânica, que naturalmente só percebem as coisas pela superfície, sem aprofundarem grande coisa. Logo, os Banshees deviam ser nazis. Não muito "radio friendly", claro está...
Spellbound. Não podia passar na rádio porque inclui os versos:
"And don't forget / when your elders forget / to say their prayers / take them by the legs / and throw them down the stairs".
Resultou. Nunca mais se ouviu falar de maus-tratos a idosos, desde então.
Arabian Knights. Também não podia passar na rádio, porque aborda o tema da violação, incluindo os versos:
"Whilst you conquer more orifices / of boys, goats and things".
A censura também deve ter surtido efeito nestes assuntos, desde 1981.
"From the cradle bars
comes a beckoning voice
it sends you spinning
you have no choice..."
I really didn't have a choice...
Spellbound. For life.
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