BLITZ Homepage
Festival EDP Paredes de Coura: reportagem do 4º dia (16/08) com Kasabian, Anna Calvi e Of Montreal, entre outros [fotos e texto] -

Festival EDP Paredes de Coura: reportagem do 4º dia (16/08) com Kasabian, Anna Calvi e Of Montreal, entre outros [fotos e texto]

Depois de um dia em que 20 mil pessoas (números da organização) viram dEUS (e outras almas terrenas), Kasabian agitam as massas, Anna Calvi ajudou a descomprimir, Erlend Oye voltou a ser uma simpatia. Veja fotos e saiba mais sobre os concertos.

Programa para hoje:

Palco EDP
18h30 - Gang Gang Dance
19h50 - Of Montreal
21h10 - The Whitest Boy Alive
22h40 - Anna Calvi
00h20 - Kasabian

Palco Vodafone FM
18h00 - The Wave Pictures
19h15 - I Like Trains
20h30 - Deer Tick
21h45 - School of Seven Bells

After Hours Vodafone FM
02h00 - Crystal Fighters
03h10 - In Flagranti

-------------

18h00 - Os Wave Pictures aterram em Portugal vindos de Inglaterra, trazendo na bagagem canções que têm tanto do calor da Costa Oeste como da Austrália solar dos Go-Betweens. À medida que prestamos atenção às letras narradas pelo também guitarrista David Tattersall, contudo, descobrimos uma verve muito britânica que prende ao palco secundário algumas dezenas de espectadores atentos. Os Wave Pictures são só três mas, mercê sobretudo do poder da bateria (a cargo de Jonny Helm, que também canta) e da criatividade de Tattersall na guitarra, são capazes não só de cativar como de "enganar", levando-nos a acreditar estar mais gente em palco. "Love You Like a Madman", com tiradas como "I'll buy you bras instead of pickled eggs / Chocolate instead of chutney / Good red wine instead of bad red wine / Next time I remember your birthday", ou "I Thought of You Again" ("And I thought of you at the airport / and I was still thinking of you on the plane / And when the police took my passport and wrote down my name - I thought of you again") deixaram-nos com curiosidade para ouvir com mais atenção estes Wave Pictures, uma semi-surpresa doce e fresca num fim de tarde bem quente.

??????


18h30 - Algum público acorre, lenta e ordeiramente, ao chamamento dos Gang Gang Dance . A banda nova-iorquina, espelho fiel da Grande Maçã nos fragmentados anos 00, abre o palco principal neste penúltimo dia de Paredes de Coura, com uma atuação que não parece entusiasmar grandemente a plateia. "Alguém aqui já nos tinha visto antes?", pergunta, para "quebrar o gelo", a vocalista Lizzi Bougatsos, que em palco é mais odalisca do que "rock chick". Não ouvimos ninguém pronunciar-se, e os Gang Gang Dance lá seguiram no seu caminho, com um pezinho na melodia mais orelhuda e outro na experimentação, que os leva a prolongar as canções com viagens livres e algo morosas pelas galáxias dub, eletrónica e world music (a voz de Bougatsos, em particular, tanto nos transporta para o Norte de África como para ponto indeterminado do Oriente). Num concerto de que não rezarão as atas de Coura 2012, destaque ainda para o percussionista /bailarino que, de bandeira jamaicana (?) pelo ombro e ramo de rosinhas na mão, fez o papel de figura mais intrigante em palco (e felizmente, apesar de alguns movimentos mais "feiticeiros", não trouxe a chuva de volta para Paredes de Coura).

??????


20h55 Os norte-americanos Of Montreal terminam um óptimo espetáculo com a orgástica "The Past Is a Grotesque Animal", longa canção em crescendo (e em camadas) que continuaríamos a ouvir de bom grado até amanhã de manhã. Aliás, o remate final do concerto recupera Hissing Fauna, Are You the Destroyer? , esplêndido álbum de 2007, em mais um momento fulcral: a ultra-pop "Heimdalsgate Like a Promethean Curse" num regime mais rock, mas a manter como traço distintivo o irresistível fraseado de teclado, a partir do qual Kevin Barnes, homem vestido (e despido) de vermelho insiste no seu recurso aos "chemicals".

Maquilhado (pálpebras de azul, pestanas generosas desenhadas debaixo dos olhos), Barnes é um "showman" por excelência, atributo que já lhe tínhamos elogiado na edição 2007 do Sudoeste, festival onde a banda do cartel da mítica Elephant 6 se estreou entre nós. Dessa já longínqua aparição não sobra o "circo" paralelo, quase prog na encenação, mas resiste um disco sound psicadélico que se insinua em temas como "Gronlandic Edit" e um rock mais escorreito (ainda que cheio de torneados e inflexões) que resvala de temas como "Forecast Fascist Future".

Num alinhamento que manteve o público (cada vez mais numeroso) entretido, houve ainda lugar a "Coquet Coquette", rock rico em pantomina e mimo. E "For Our Elegant Castle", "Plastis Wafers", "Bunny Ain't No Kind of Rider", canções labirínticas, divertidas travessias sobre um parque de diversões imaginário.

Antes, no palco secundário, os ingleses I Like Trains mostraram um rock sensaborão, decididamente devedor de uns anos 80 um pouco (mas não muito) mais soalheiros do que a facção urbano-depressiva da época. David Martin tem uma voz grave que lembra uma fusão de Ian McCulloch (dos Echo & The Bunnymen) e Matt Berninger (dos National), mas canções como "A Father's Son" já foram feitas (em melhor) vezes sem conta. Na lembrança, uma espécie de Editors menos invernosos, nada com que devamos perder mais tempo.

??????


21h30 - Se há clichê que não ofende (?) ninguém é aquele que dita que as "gentes do Norte" sabem receber - em Paredes de Coura essa evidência é especialmente verdade, e prova disso é a ovação dispensada ao quarteto Whitest Boy Alive - uma banda que nunca tinha pisado o palco de Paredes de Coura, mas que é liderada por Erlend Oye, uma espécie de "pequeno príncipe" do festival desde a visita com os Kings of Convenience, em 2011. No verão passado, não só os noruegueses deram um dos seus concertos adoráveis, como Erlend Oye passeou simpatia pelo campismo, sendo fotografado a tocar "violão" numa guitarra no Tabuão. Erlend Oye, escusado será dizer, é agora "da casa", e segundo a Ritmos até pediu à organização para pernoitar em Paredes de Coura, em vez de no Porto.

Com os Whitest Boy Alive, criados em Berlim em 2005, Erlend Oye conserva a queda pela pop e pela bossa nova, numa receita menos adocicada e mais dançável do que nos Kings of Convenience. No 39º país em que tocaram ("40º, se considerarmos Hong Kong um país"), os Whitest Boy Alive vão dos arranjos quase jazzy aos toques de funk e disco, altura em que se faz a ponte com a banda que os precedeu, os Of Montreal. Aliás, importa dizer que, apesar de uma certa falta de nomes de primeira linha, o cartaz da edição deste ano de Paredes de Coura prima pela coesão, havendo quase sempre um fio condutor entre as bandas que vão desfilando pelos dois palcos. Outro ponto a favor de Coura é o comportamento dos espectadores: cada vez mais habituados que estamos a ver plateias à conversa e em sessões fotográficas para o Facebook durante os concertos, é um prazer fazer parte de um público interessado no que se passa em palco, mesmo quando os artistas não são dos mais conhecidos da jornada. Os Whitest Boy Alive foram deste fenómeno um bom exemplo: as suas canções ("Keep a Secret", a nova "Upside Down", "Intentions" e "Timebomb" foram algumas das convocadas) não gozam do mesmo toque de Midas dos Kings of Convenience, mas o anfiteatro de Coura manteve-se atento ao concerto e até participativo, baixando-se e ficando de cócoras quando os músicos, em palco, fizeram o mesmo, ou batendo palmas acertadas a um simples apontar de dedo de Erlend Oye. A capacidade do norueguês fazer muito com muito pouco ficou, mais uma vez, provada, e nem faltaram os atalhos fáceis para o coração lusitano ("Saudade, what does it mean? This word that only the Portuguese can understand", improvisou a certa altura), mas noutro contexto festivaleiro a simpatia de Erlend Oye não teria sido suficiente para aguentar o barco tanto tempo. Entre uma água de coco no calçadão de Copacabana e uma pista de dança para rapazes tímidos, o concerto dos Whitest Boy Alive contou ainda com uma versão de "Show Me Love", de Robin S. (olá 1993), que, para citar o inspirado debute dos Kings of Convenience, foi do "quiet" ao "loud" em dois tempos. Bonito e eficaz.


??????


23h40 - Desenquadrada na programação mais propensa à festa deste quarto dia de Paredes de Coura, Anna Calvi mostra-se seguríssima, de guitarra em punho, mas não recebe do público "courense" mais do que aplausos respeitosos. Atrás de nós, alguém mostra preocupação em chegar-se mais à frente para, mais tarde, ver Kasabian a distância aceitável. Não será problema porque há alguns desertores, pouco sensibilizados pelo rock espinhoso, arraçado de blues, da cantora londrina nascida em 1982, mas que só em 2011 se estreou - e com elogios de todos os quadrantes - nas lides discográficas.

Num fundo sempre em tons de azul ou violeta, Calvi - que não dispensa saltos altos - faz-se acompanhar de um baterista e de uma multi-instrumentista, mas é o som da guitarra - umas vezes estridente, outras dengosamente blues - que ganha proeminência natural. "Suzanne and I" e "Blackout" mostram outro trunfo da intérprete que recebeu elogios de Nick Cave: um vibrato que não faz esmorecer a projecção de voz e que investe na música uma intensidade ainda maior.

Num concerto curto, conciso e de poucas palavras (os agradecimentos da praxe e pouco mais), Calvi - de repertório breve - apostou em três versões: primeiro, "Surrender", de Elvis Presley; depois "Wolf Like Me", dos TV On The Radio (tão transfigurada que mal foi reconhecida); por fim "Jezebel", de Edith Piaf (fantasmagórica, de tempero western). O investimento em covers num alinhamento curto não escandaliza: Calvi guarda para os lados-B de singles a devoção aos seus ídolos, versando, por exemplo, Leonard Cohen e The Shirelles. De lavra própria, ouve-se ainda "I'll Be Your Man" e "First We Kiss" e, claro, uma "Desire" dramática - o único momento em que público e artista pareciam conhecer-se de algum lado.

Duas horas antes, os nova-iorquinos School of Seven Bells não foram propriamente recebidos por uma multidão no palco secundário, mais interessada em nova investida courense do norueguês Erlend Oye (timoneiro do projeto Whitest Man Alive). Ouve-se uma espécie de shoegazing synth-rock servido sem mácula (vem à memória algum património da 4AD nos anos 80), mas a não motivar grandes entusiasmos. Neste campeonato, os Ladytron estão alguns furos acima.

Pouco depois, a reportagem BLITZ ouvia Sergio Pizzorno, guitarrista e compositor dos Kasabian, a revelar saudades do filho de dois anos, a discorrer sobre os Jogos Olímpicos e compras de supermercado.

Numa toada mais diletante, elogie-se o sushi de salmão picante (8 makis a 3 euros; 1 temaki a 4; bom negócio) que Paredes de Coura disponibiliza na zona de alimentação (onde, parece-nos, falta o leitão; imperdoável!).

??????


2h10 - À semelhança do que aconteceu ontem com os dEUS, os Kasabian foram hoje um bom remate rock para mais uma jornada em Paredes de Coura, tal como na noite passada com muita gente, ao contrário da noite passada sem ameaça de chuva. Não foi a primeira vez dos ingleses em Portugal - já haviam atuado no Rock in Rio e no Optimus Alive - mas desta feita pareceu-nos que estavam mais perto de jogar "em casa", tendo sido acarinhados e apreciados pelos fãs de forma diferente. A certa altura, Tom Meighan - que se apresentou de crucifixo ao pescoço e se benzeu várias vezes - recebeu mesmo, das fãs de um admirador, um cartaz com uma figura da banda, que entregou ao guitarrista Sergio Pizzorno para um autógrafo rápido, antes de devolver a oferenda à plateia.

Talvez sugestionados pelo uso de uma canção dos Kasabian na apresentação dos jogos da Premier League, associamos a música destes nativos de Leicester a um certo cariz atlético, presente não só no convite à dança, música sim música sim, como pela energia do vocalista Tom Meighan, que além de se benzer foi tirando e pondo os óculos de sol sucessivamente, por vezes parecendo algo trôpego. "Mas hoje o que conta não é o cantor, são os instrumentos!", veio um simpático espectador dizer-nos, como quem lê os nossos pensamentos. E os instrumentos - tal, como de resto, a voz de Meighan, que pelo menos a emoção conservou até aos agradecimentos finais - estiveram bem na entrega dos maiores êxitos da banda: "Shoot The Runner", logo a segunda canção do alinhamento, "Club Foot", "Empire", "LSF (Lost Souls Forever)" (enxertada com "Praise You", de Fatboy Slim) e, já no encore, "Vlad The Impaler" e "Fire", muito possivelmente o maior momento de loucura no público até ao momento, nesta edição de Paredes de Coura. Como que provando que, quando marcam golo, o fazem em jeito mais do que em força, os Kasabian tiveram, nestas alturas, o público a seus pés (e às vezes de pés para o ar), mas também surpreenderam com as versões de "Everybody's Got To Learn Sometimes" (dos Korgis) e, mesmo a fechar, já só com Meighan em palco e as palmas do público por acompanhamento, "She Loves You", dos Beatles.

Provavelmente cientes da menos popularidade que têm em Portugal, quando comparada com o estatuto de gigantes em Inglaterra, os Kasabian não se cansaram de desafiar o público, pedindo aplausos e "fucking hands" no ar, e no fim agradecendo a ótima resposta - mal começa "LSF (Lost Soul Forever)", o chão quase que estremece, cai-nos cerveja na cabeça e passa por nós disparada, a correr, uma rapariga com um falo insuflável na mão. É destas reações que se faz o sucesso de um concerto que, como este, convida à evasão e à libertação de adrenalina. O crowdsurfing não nos deixa mentir.

Texto: Lia Pereira e Luís Guerra
Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos
Notícia escrita por Blitz Quinta, 16 de Agosto às 18:01
 Comentários
 
Home  |  Termos de Utilização  |  Política de Privacidade  |  Notícias  |  Fórum  |  Agenda  |  Festivais  |  Artistas de A a Z  |  Classificados  |  Galerias  |  Blitz TV  |  Edição Impressa  |  Assinar Revista  |  Newsletter  |  Passatempos  |  BLOGS  |  Ficha Técnica  |  F.A.Q.
© copyright BLITZ 2006. Todos os direitos Reservados
BLITZ - Edificío São Francisco de Sales, Rua Calvet de Magalhães 242 - 2770-022 Paço de Arcos T. 21 4544161 F. 21 4415843 e-mail: blitz@impresa.pt - Anuncie na Blitz