Sudoeste TMN: 2º dia (3/8), com Eddie Vedder e James Morrison [texto + fotos]
Eddie Vedder chegou ao recinto de helicóptero e cantou Pearl Jam e muito mais frente a 32 mil pessoas, números da organização. Duas horas de concerto para o rei da noite.
Depois de ontem terem passado 26 mil pessoas pela Herdade da Casa Branca para assistir a atuações de Ben Harper e Matisyahu, o Sudoeste TMN continua hoje com concertos de Eddie Vedder - o vocalista dos Pearl Jam apresenta-se a solo - James Morrison, Example ou Nicolas Jaar. Siga aqui, em atualização permanente, a reportagem BLITZ.
PALCO TMN
Glen Hansard - 20h15
Richie Campbell - 21h25
James Morrison - 22h50
Meninos do Coro - 00h15
Eddie Vedder - 00h30
Example - 02h30
PALCO GROOVEBOX
Best Youth - 21h00
Nicolas Jaar - 22h00
Benoit & Sergio Live - 23h15
Serginho - 00h15
Cadenza Nights: Luciano, Cesar Merveille & Maayan Nidam - 01h15
19h47
- Faltam poucos minutos para a música voltar aos palcos dos Sudoeste TMN, mas são ainda muito poucos os que se encontram no recinto. Eddie Vedder, a grande estrela da noite, já aterrou - literalmente - na Herdade da Casa Branca. O eterno vocalista dos Pearl Jam, que hoje se apresenta a solo no palco principal do festival, chegou ao recinto de helicóptero, confirmou à BLITZ fonte da organização.
De passagem pela área do campismo, a reportagem BLITZ percebeu não só que os campistas este ano são em muito menor número que em anos anteriores - a segurança, essa, parece ter sido bem reforçada - como descobriu também que os mergulhos no canal parecem estar fora de moda: foram muito poucos os aventureiros avistados.
Entre duches "sexy", compras no supermercado, lavagem de louça e atividades tão diversas quanto participar em passatempos patrocinados por marcas de preservativos ou fazer dinheiro - ¤3,00 era o preço afixado - com uma simples agulha de crochê (a "transformar" cabelo em rastas), os festivaleiros passam o tempo até decidir entrar no recinto.
20h15
- À hora de início do espetáculo de
Glen Hansard
, o número de pessoas em frente ao palco TMN era demasiado pequeno para o concerto surpreendentemente explosivo que viria a acontecer. Mas vamos por partes. A receção do público à entrada do músico irlandês em palco não deixou dúvidas: Glen Hansard tem fãs acérrimos em Portugal. Cartazes com pedidos como "Glen, abraça-me" ou "Assina a minha guitarra" deixaram o irlandês surpreendido e satisfeito. "Esta é a minha primeira vez em Portugal e estou muito contente por aqui estar. Vocês têm um ótimo vinho", elogia Hansard enquanto bebe um pouco de vinho tinto.
O músico vencedor do Óscar de Melhor Canção Original em 2008 pelo tema "Falling Slowly" do filme "Once", protagonizado pelo próprio Glen Hansard, apresentou-se em palco apenas com uma guitarra. Bom, na verdade foram duas, porque o instrumento que é extensão do génio musical de Hansard traiu-o ao final do primeiro tema, "Say It To Me". "É melhor dares-me outra, senão não me despacho", disse Glen Hansard a um membro da produção enquanto tentava afinar a sua guitarra, sem sucesso. Este espírito despreocupado do artista pautou todo o espetáculo, dando-lhe um tom intimista. Durante o concerto Glen Hansard insultou um helicóptero que insistia em acompanhar o alinhamento com o seu "zumbido", abanou levemente a anca ao som de "Love Don't Leave Me Waiting", tema do novo álbum "Rhytm and Repose", pediu que baixassem a iluminação por ser demasiado rock-star para ele e agradeceu a um fã que o chamou "bom músico". "É melhor do que dizeres que sou uma merda", gracejou. E o público riu e rendeu-se completamente à simplicidade e excelência de Glen Hansard. Esta energia contagiante fez-se sentir em temas dilacerantes como "Leave", ou "Low Rising".
E quando o concerto estava prestes a terminar e os momentos altos pareciam ter terminado, eis que Glen Hansard revela um trunfo final. Momentos antes de cantar a última música do seu alinhamento, Hansard elogiou a mestria de Bruce Springsteen, cujo espetáculo viu recentemente em Dublim e o inspirou e mostrou o "quão bom deves ser como músico".
Portanto faria todo o sentido terminar este alinhamento com um tema do "Boss do Rock". Mas o que ninguém esperava era que
Eddie Vedder
se juntasse a Glen Hansard para cantar em dueto a música "Drive All Night". O delírio instalou-se no recinto da Herdade da Casa Branca. Pouco depois do vocalista dos Pearl Jam ter pisado o palco vimos uma nova mancha de público a surgir atrás de nós como se fossem cogumelos. A cumplicidade e a harmonia perfeita das vozes arenosas dos dois músicos foi o ex-libris de um espetáculo memorável que foi assim encerrado com chave de ouro.
23h20
- James Morrison está neste momento em palco a mostrar como a sua voz rouca serve a música pop. Antes dele, o português
Richie Campbell
explicou ao público do Sudoeste TMN como bem produzir e interpretar reggae e dancehall com um toque nacional: o músico arrastou consigo a multidão que costuma concentrar-se frente ao palco reggae (o Meo Reggae Box estava completamente vazio quando os Jamaican Legends subiram ao palco com Bitty McLean) e deu o concerto mais participado que vimos até agora.
Passando por "Waiting in Vain", de Bob Marley, logo no início, Campbell, rodeado por um coro afinadíssimo e uma banda segura de si, atirou-se de alma e coração a temas como "Love Me So", "Everytime I Cry", uma canção que será incluída no novo álbum e o músico decidiu testar no palco do sudoeste (edição do longa-duração está marcada para outubro) e o dueto com Ikaya que será o novo single - chama-se "Love is an Addiction" e sai em setembro. Aquela que foi apresentada como "uma das melhores vozes jamaicanas" por Campbell - "eu avisei que era um concerto muito especial" - mostrou também, a solo, o poder quente da sua voz, com "Fly Away".
Na tenda Groovebox, o americano
Nicolas Jaar
assinou um live act contínuo e transformou o espaço - bem composto, mais que o que esperávamos - num local onde a dança era contida mas intensa. Acompanhado por um guitarrista discreto e um saxofonista expansivo, o músico mostrou como o seu minimalismo é bem cheio e como as melodias obscuras e profundas se tornam irresistíveis quando estamos para ali virados. O público respondia quando a batida se adensava, mas nunca saía completamente de um transe que durou a hora e picos da atuação. Para o final, ficou guardado obviamente o misterioso "Space is Only Noise if You Can See" que empresta o nome ao elogiadíssimo álbum de estreia.
00h14
- A esta altura do campeonato,
James Morrison
é praticamente um bom e velho amigo do público português. Já perdemos a conta das visitas que o britânico de voz rouca fez ao nosso país. Ainda em Março deste ano Morrison pisou o palco dos coliseus para apresentar o seu mais recente álbum, "The Awakening". Mas, como costuma acontecer com os bons amigos de longa data, o público continua a apreciar a companhia de James Morrison.
"Beautiful Life" teve honras de abertura e os festivaleiros aderiram com entusiasmo a este animador tema do novo disco do artista. James Morrison é um músico dedicado e que se entrega de corpo e alma a todo o alinhamento que seleciona para os seus espetáculos. Mas isto só não basta. Durante temas menos familiares como "This Boy", ou o emotivo "In My Dreams", o público parecia disperso, mas lá ia acordando e vibrando com os elogios sentidos de Morrison ao seu amado "Portugalé".
Este cenário altera-se completamente quando os hits do britânico "rasgam" o alinhamento. Bastaram os primeiros acordes de "Broken Strings", tema originalmente cantado em parceria com Nelly Furtado, aqui servido numa roupagem mais acústica e a solo, para se ouvir a primeira grande ovação do concerto. Daqui até vermos telemóveis em punho prontos a filmarem a atuação e raparigas a subirem aos ombros de namorados entediados foi um instante. Justiça seja feita a James Morrison. O cantor é perito em criar temas "orelhudos" e que perduram no tempo. Poucas foram as pessoas que não acompanharam o cantor nas letras do dueto com a cantora luso-canadiana e nos populares e "velhinhos" "You Give Me Something" e "Wonderful World". Nós fomos umas delas. E sentimos falta do encantador "Up", tema do novo álbum cantado a duas vozes com Jessie J. Poderá um dueto surpresa estar preparado para este mesmo palco, onde a britânica se apresentará no dia 5?
Mas, depois de tantas presenças em solo português e contando com apenas alguns hits como grandes alicerces do alinhamento, os concertos de James Morrison já precisam de um novo fôlego. O cantor precisa tirar mais coelhos da cartola. E levantar timidamente a t-shirt no final do espetáculo, com vista a roubar uns gritinhos histéricos, não é suficiente. Talvez uma produção mais ambiciosa ajudasse os seus temas ainda em fase de crescimento a brilhar mais em palco e a tornar as suas atuações menos mornas. Morrison tem boas músicas e músicos para sustentar uma exibição mais arrojada.
02h37
- O norte-americano
Eddie Vedder
está neste momento a abandonar o palco do Sudoeste TMN, depois de mais de duas horas de concerto. "Lutem pelos vossos direitos. Paz", foram as últimas palavras que ouvimos da boca do vocalista dos Pearl Jam, que hoje deu uma verdadeira lição sobre como ser um "one man show" competente, conquistando sem grandes reservas as 32 mil pessoas que, segundo a organização, compõem bem a moldura neste segundo dia de festival.
Aquilo que faltou realmente hoje ao espetáculo que Vedder apresentou foi uma grande fogueira que aquecesse os corpos da mesma forma como o artista aqueceu os ânimos. Apoiado no ukulele, que se tornou personagem principal do álbum a solo editado no ano passado, na guitarra acústica ou na guitarra elétrica, o músico foi alternando canções intimistas da sua carreira a solo - quer de
Ukulele Songs
quer da banda-sonora que assinou para o filme
Into the Wild
- com alguns êxitos dos Pearl Jam, reconhecidos prontamente e celebrados de forma sempre efervescente.
"Can't Keep", primeiro tema de
Ukulele Songs
- gravado originalmente para o álbum
Riot Act
, dos Pearl Jam -, teve honras de abertura da atuação e as palmas rebentaram, pareceu-nos a nós, mais porque as pessoas tinham Eddie Vedder em frente que pelo amor que dedicam à segunda aventura discográfica a solo do músico. O concerto prosseguiu com "Without You", também do referido álbum, mas depois de abrir a porta ao repertório dos Pearl Jam com o pouco conhecido "Soon Forget" começou um verdadeiro festim para os fãs da banda de Seattle.
"Nunca toquei para tanta gente sozinho", disse o músico pouco depois de dar início ao concerto, "com vocês aqui não me sinto sozinho". Foi com estas palavras que Vedder conquistou a plateia, que não desligou daquilo que se passou em palco nas duas horas que se seguiram. O artista norte-americano dirigiu-se aos fãs em português várias vezes (com uma cábula à frente e avisando a dada altura que o seu domínio da nossa língua é "uma bela merda").
O velhinho "Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town" foi o primeiro tema a fazer irromper um grande coro, mas obviamente temas como "Just Breathe", "Porch" ou "Better Man" (em versão ukulele) levaram a plateia à loucura. "Wishlist", do mal-amado álbum
Yield
, foi outro dos pontos altos do "singalong", só talvez ultrapassado por "Last Kiss", tema de Wayne Cochran que se tornou um sucesso planetário quando os Pearl Jam decidiram gravá-lo.
"Far Behind", servido furiosamente na guitarra acústica, "Rise" e "Setting Forth" foram alguns dos temas repescados por Vedder a
Into the Wild
, mas o músico também meteu foice em seara alheia, interpretando "You've Got to Hide Your Love Away", dos Beatles, "Open All Night", com Bruce Springsteen a marcar novamente presença na edição deste ano do Sudoeste, ou, já no final, "Rockin' in the Free World", de Neil Young, com a ajuda de um fã que conheceu hoje - e foi durante este último tema que o som se foi momentaneamente (falha técnica ou último aviso para finalizar o concerto?).
No primeiro encore, "Last Kiss" roubou obviamente o protagonismo, mas o músico convidou depois para o palco Glen Hansard, "meu grande amigo e colega de estrada", com quem tocou em duelo desgarrado o tema "Society", de
Into the Wild
, o oscarizado "Falling Slowly", da autoria de Hansard, e, claro, o tema "Sleepless Nights", gravado em dueto por ambos para
Ukulele Songs
. Já no segundo encore, Vedder teve ainda tempo para tocar "Hard Sun" e para pedir ajuda para o seu amigo do Ribeira Surf Camp na Ericeira, onde o músico fica quando vem surfar a Portugal, que está a ser expropriado.
4h03
- Com o prolongamento inesperado do concerto de Eddie Vedder, a atuação de
Example
em Portugal atrasou cinquenta minutos. No entanto, em frente ao palco ainda encontrámos uma plateia bastante composta e pronta para se deixar conquistar pelo cantor e rapper. "Ainda estão com energia?", questionou Example. A resposta foi absolutamente positiva.
O público "alimentou-se" de temas eletrizantes como "Stay Awake", que chegou a número um no Reino Unido, "Won't Go Quietly", ou "Hey Good Morning". Durante o explosivo "Where Did The Sun Go" era impossível ver alguém parado. Alguns festivaleiros dançavam freneticamente, uns fingiam divertidas e movimentadas lutas com brindes em forma de sabres de luz, e outros saltavam à corda ao som da música. A infusão eletrónica de Example foi o ingrediente certo para encerrar este segundo dia de Sudoeste TMN em festa.
Textos:
Mário Rui Vieira
e
Pedro Barbosa da Silva
Fotos:
Rita Carmo/Espanta Espíritos