Hugh Laurie no Coliseu de Lisboa: fotos + texto + alinhamento
Belíssima estreia de Hugh Laurie em Portugal: concerto de duas horas no Coliseu de Lisboa, com a Copper Bottom Band, provou paixão do ator e músico pelos blues, bem como uma capacidade singular de cativar e deixar uma plateia rendida.
"Ele no House falou Português, por isso há de saber umas palavritas", dizia uma espectadora à amiga, segundos antes de, quase com pontualidade britânica, Hugh Larie se apresentar pela primeira vez em Portugal, em defesa, apoiado pela valorosa Copper Bottom Band, do disco
Let Them Talk
, editado no ano passado. É, evidentemente, como ator (o mais bem pago da história da televisão norte-americana), e mais concretamente como o irascível e adorável Dr. House, que este inglês tão "british", nascido em Oxford há 53 anos, é conhecido. Em 2011, com a série que lhe deu uma popularidade impensável já a aproximar-se do ocaso, Laurie concretizou o sonho de gravar em disco a música que toda a vida lhe encheu a alma - os blues norte-americanos, com especial destaque para a "colheita" de Nova Orleães, personagem maior do álbum e do concerto desta noite. No comunicado de imprensa que acompanhava
Let Them Talk
, invariavelmente eloquente e espirituoso, Laurie admitia que este disco era "um capricho" de ator, essas criaturas mimadas e incapazes a quem tudo se permite. Não há como não lhe perdoar, contudo, o "capricho": já vimos formas muito mais deselegantes e menos meritórias de fazer a transição dos palcos para o estúdio. Aliás, se em disco as canções de
Let Them Talk
, produzidas por Joe Henry, soam bem, ao vivo são a prova cabal de que a paixão de Hugh Laurie pelos blues é mais do que genuína - vem do coração. E o espetáculo de duas horas que ofereceu ao Coliseu de Lisboa (que ainda há uma semana quase derretia com a devoção a Bon Iver; que tempos de fartura!) acabou por revelar-se uma homenagem sentida, comovente mas também muito divertida a boa parte dos seus heróis musicais.
Além da grande banda que o acompanhou ("Pensem neles como um Rolls Royce e em mim como aquele bonequinho prateado que está à frente no carro", brincou Laurie, de braços estendidos) e do prazer com que cantou e tocou piano e guitarra, o anfitrião desta noite tem a seu favor uma capacidade desarmante de conquistar a atenção do público. Mal entra em palco, com uma linguagem corporal algo "camp" e tonta, mais próxima dos tempos de Black Adder do que de House, Laurie põe as cartas na mesa: há umas palavras em Português, como previam as fãs; modéstia qb, muito humor auto-depreciativo e, acima de tudo, histórias para todos os gostos. "Mandem-me calar se acharem que falo demais", disse a certa altura, com o Coliseu suspenso das suas palavras. O máximo que conseguiu foi que alguém lhe gritasse "I love you!", ripostando, entre shots de uísque (ou "sumo de maçã de 12 anos"): "Ora muito obrigada... mas sejamos francos, mal nos conhecemos!". As tiradas bem-humoradas e de timing perfeito serviram para criar, nos espectadores, a ilusão de proximidade com alguém que não deixa de ser uma estrela de Hollywood, e a introdução feita a praticamente todos os temas - no fundo, uma vénia a cada autor interpretado - foi, citando Gabriel Alves, um espetáculo dentro do espetáculo.
Foi assim que ficámos a saber que "St James Infirmary" se inspira numa canção folk inglesa ainda mais antiga que a versão blues americana, popularizada por Louis Armstrong nos anos 20. "Na verdade é de 1928, mas eu digo 'dos anos 20' para não parecer um cromo muito grande", riu-se ele, antes de revelar a inspiração do original: "Era sobre um marinheiro que fodia muito. E, por isso, morreu!", conclui, com indignação. Gargalhada geral, antes da conclusão: "E hoje, nessa enfermaria, funciona o palácio de Saint James, onde a Rainha faz o que quer que seja que a Rainha faz". Atrás deste contador de histórias, adepto do adjetivo "titânico" e apaixonado pela "teia de canções, letras e ideias que atravessam oceanos, indiferentes aos impérios em queda", está uma banda de seis músicos (Jay Bellerose na bateria, Kevin Breit nas guitarras, Vicent Henry no saxofone, clarinete e harmónica, David Piltch no contrabaixo, Kevin Warren nos teclados e Jean McClain nos coros), apresentados com reverência pelo mestre-de-cerimónias. A verdade é que, ultrapassado o deslumbramento de estarmos perante o médico coxo que meio mundo ama odiar, os sete magníficos funcionam como uma verdadeira unidade, sem direito a protagonismos excessivos e sempre privilegiando o respeito e a devoção pelos artistas que nunca conheceram este nível de estrelato. Foi o caso de Leadbelly, "que era tão bom que por duas vezes conseguiu sair da prisão cantando para as autoridades" (segue-se a empolgante "You Don't Know My Mind"); Buddy Bolden, que inspira a canção do mesmo nome e era "o melhor trompetista de sempre, embora nunca ninguém o tenha ouvido tocar"; o compositor de "Unchain My Heart", Bobby Sharp, que vendeu a canção por 50 dólares para comprar uma dose de heroína (e levou uma eternidade para reivindicar os direitos de autor); ou Little Willie John, que segundo Laurie - e nesta altura já ninguém duvida do alcance da sua "cromice" - não deixou que obstáculos de diversa sorte ("era gay, viciado e tinha uma deficiência") o impedissem de escrever "Let Them Talk", canção que dá nome ao disco esta noite apresentado e balada tocante sobre a força do amor. "Porque se amamos, amamos, e seguimos esse amor independentemente do que o mundo pensa", disse Laurie ao sentar-se ao piano.
Fazendo uma excelente gestão entre os temas mais festivos (uma pena que a plateia, cheia, só se tenha levantado para dançar no final) e os momentos introspetivos, ora ao piano ou em parceria com sopros, guitarras e harmónica, Hugh Laurie e a Copper Bottom Band dispararam uma porção de momentos altos e variados: "Battle of Jericho", com o palco tingido de vermelho e uma interpretação intensa, ficou nas imediações do terreno diabólico de Nick Cave/Mark Lanegan; "John Henry", na voz de lava da "Sister" Jean, arrepiou o Coliseu; "Yeah Yeah" foi perfeito instante pop, imediatamente compensado pela balada ao piano "Dear Old Southland".
Com um alinhamento bem mais longo que o do disco (é o que dá poder "pescar" material do baú dos blues), finalizado em modo de festa rija com "Changes" e "Tanqueray", o espetáculo viveu muito, como seria de esperar, do irrepreensível carisma de Laurie, que não se escusou a contar o "ódio de morte" que tinha à professora de piano ("E foi por isso que a matei") só para explicar que "Swanee River" era a única canção do livro que gostava de tocar ("E por isso ela não me deixava"), nem de confessar que não faz ideia sobre o que seja a canção "Tipitina", ainda que a ouça "todos os dias, desde sempre".
Quem foi ao Coliseu seduzido pela personagem - porque não fazer uso do predicado de estimação do artista? - "titânica" de Hugh Laurie certamente voltou para casa consolado; quem foi pela música, por mais bem empregues ainda terá dado o tempo e o dinheiro do bilhete. Não fosse o nosso anfitrião uma estrela da televisão, estaria tanta gente no Coliseu para vê-lo? Certamente que não, mas perante duas horas de música, partilha e comunicação ao mais alto nível, a fama de Laurie é pormenor menor. Noites de tamanha celebração são coisa para acarinhar, em tempos destes - ou quaisquer outros.
Texto de:
Lia Pereira
Fotos de:
Rita Carmo/Espanta Espíritos