Manu Chao ao vivo no Cascais Music Festival [texto + fotogaleria]
Casa cheia esperava o músico de "Me Gustas Tu". Viagem em "classe económica" por todo o mundo latino.
Manu Chao tem casa cheia no Cascais Music Festival com o Hipódromo Manuel Possolo a ser tomado de assalto por um mar de gente. Às 22h30 já a festa toma conta da multidão, mercê dos ritmos acelerados de "Por el Suelo" que impõem saltos por quase todo o recinto.
Ao nosso lado, alguém comenta que gostava de ver o concerto do palco, por oposição a esse outro que se desenrola em centenas de ecrãs minúsculos para onde quer que se volte o olhar. Haverá certamente académicos a desenvolverem teses sobre este hábito, mas é inegável que há quem prefira registar a realidade num smartphone em vez de a viver. A julgar pela atividade dos amigos a que hoje todos estamos ligados, do Facebook ao Instagram, é assim em praticamente todos os festivais. Ter lá estado, aparentemente é tão importante como poder provar por fotos e videos que lá se esteve, de facto.
"É um mundo difícil" canta, entretanto, Manu Chao, que vai chamando por Portugal e por Cascais enquanto interpreta "Clandestino", procurando engajar as pessoas com canções de causas que enchem noticiários televisivos por todo o mundo. Com "La Vida Tombola", o ensemble de formato económico de Manu Chao (além do homem cujo nome consta do cartaz e que dá voz e guitarra às canções contabilizam-se apenas uma segunda guitarra, baixo e bateria, modesto quando comparado às dilatadas formações de outras digressões) soa por momentos a grupo de baile, antes de acelerar o passo e soar a grupo de baile com pretensões ao campeonato do metal.
Com "La Primavera" regressa o "cantante" que mistura em iguais doses o balanço reggae do mestre Marley e uma cadência aprendida na América Latina, fórmula eficaz que faz de Manu Chao uma superestrela da geração de resistência global. Compreensivelmente, o longo preâmbulo para "Me Gustas Tu" gera dividendos e o público responde com visível excitação. É noite de festa em Cascais. E a menos de 300 metros de onde Manu Chao entoa os seus hinos de resistência anticapitalista há um Mercedes McLaren estacionado.
Em regime medley Se se encontrar estará aos pulos, porque o medley já se passou por uma série de êxitos, incluindo "Bongo Bong" e "Que Pasó que pasó" não dá descanso a ninguém. Buzinas e efeitos de carrinhos de choque de romaria colombiana (ou minhota) introduzem nova fase no concerto. São 23h00 e Manu não parece dar sinais de querer abrandar. O público responde em total sintonia, o que é admirável tendo em conta que Manu Chao não edita material novo há 5 anos.
Mas, quando ainda só passam 17 minutos das onze, Manu Chao já vai agradecendo e apresentando as primeiras despedidas. Tendo em conta maratonas passadas, este concerto, até pela quase ausência de pausas entre as canções, tem o sabor de um raide. O que até faz sentido no momento em que se escuta "Machine Gun", dos Mano Negra. "Hasta siempre Cascais". Mas o público não parece acreditar que o concerto esteja para terminar. E não está mesmo.
Há entretanto um fã em palco durante um tema que muda o ar de romaria para um cenário balcânico, embora os sons de sound system de carrinhos de choque se mantenham inalterados. São onze e meia e Manu Chao despede-se uma segunda vez e desta parece que é a sério.
O encore entretanto não se faz demorado, e Manu Chao dá-nos as boas vindas a Tijuana. "El Viento" segue-se, com direito a solo psicadélico com wah wah na guitarra e tudo. "Acabou-se Portugal, voy-me despedir", canta um Manu Chao em que ninguém parece acreditar. O facto de se entregar a mais um tema de festa parece dar razão aos não crentes. E ouve-se "Minha Galera" em versão Censurados, um modo que aliás dominou a noite inteira.
Foi um concerto mais económico - na formação e na duração - mas o público não regateia os aplausos ou a entrega. Há muitas filas para a cerveja, mas também há quem não arrede pé da frente do palco até ao último momento. Noite triunfal para Manu Chao. "Hasta Siempre Cascais!".