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Marés Vivas TMN 2012: reportagem do 4º dia (21/07), com Hives, Anastacia e Pedro Abrunhosa [texto + fotogaleria] -
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Marés Vivas TMN 2012: reportagem do 4º dia (21/07), com Hives, Anastacia e Pedro Abrunhosa [texto + fotogaleria]

25 mil pessoas terão passado pelo último dia de Marés Vivas TMN, 95 mil pelos quatro dias do festival (números da organização). The Hives levaram fã a palco, Pedro Abrunhosa mostrou-se interventivo.

O décimo aniversário do Marés Vivas chegou no sábado à sua derradeira etapa. O público voltou a comparecer, desta vez pronto para enfrentar uma noite de concertos muito distintos entre si. Não  é que fossem antagónicos, mas a verdade é que havia uns quantos graus de separação a distanciá-los. Nada que não pudesse ser resolvido, como se viu.



E as coisas no palco principal começaram bem. Mónica Ferraz actuou para uma assistência já  apreciável e conseguiu arrancar boas reações, principalmente no final, com o seu single "Golden Days" precedido de uma versão de "Le Freak", dos Chic. Mas aquilo que se poderá designar de estardalhaço veio a seguir, pela mão dos Hives. Os rapazes têm fama de irrequietos e o passar dos anos não os livra dessa fama. Porque fazem por isso, como seria de esperar. O conceito é este: são as marionetas de um tipo demoníaco que faz deles o que quer. É isso que se depreende do cenário por trás da banda, que mostra a face do suposto manipulador e cordas a sair da tela na direção deles. Quanto à proveniência destas marionetas, será uma qualquer cidade do interior dos Estados Unidos, no século XIX, o que faz deles saltimbancos a dar espectáculo de terra em terra. Pelle Almqvist discursa como um vendedor de banha da cobra e todos vestem fraque, intrometendo assim alguma encenação na espontaneidade que os norteia. As coisas arrancaram com "Come On", do novo álbum, seguindo-se "Try It Back". Depois, Almqvist foi espreitar uma cábula junto à bateria e sacou de mais um trunfo: um suposto domínio da língua portuguesa. Serviu-lhe para dizer "The Hives número um" e a seguir para mandar toda a gente saltar, porque vinha aí "Take Back the Toys". Quando terminou "My Time is Coming", Almqvist fez uma palestra sobre a lei do copo meio cheio ou meio vazio, porque estavam de facto a meio do concerto. Foi nessa altura que apareceu "Wait a Minute", que é também o tema Beach Boys da banda. Pouco depois veio "o hino nacional", que é como eles chamam a "Hate to Say I Told You So". Neste ponto chama-se a atenção dos "trend spotters"  para o fenómeno dos cartazes. Poucos são os concertos que não os têm e aos quais os músicos não respondam. No concerto dos Hives, a sorte coube a um fã que pedia para tocar baixo no "hino nacional". E não é que conseguiu? Chegou ao palco meio incrédulo com o que lhe tinha acontecido e desunhou-se como soube para acompanhar a banda. Era o Miguel da camisa azul e a esta hora já deve ser uma estrela do YouTube. Outro grande momento veio com o tema "Tick Tick Boom". Tem um momento em que os Hives congelam enquanto o som se prolonga e pouco depois Pelle Almqvist consegue algo pouco provável: que toda a gente se sente no chão, obedecendo a um pedido/ordem em português da Suécia. Não será, por isso, de admirar que as coisas tenham acabado bem para os Hives. O público, pelo menos, ficou convencido. É o que dá ver concertos de uma banda que tem um roadie vestido de ninja.




Mudando para algo completamente diferente, a atuação seguinte era a de Anastácia. Mas antes disso veio algo realmente diferente: a equipa da Rádio Comercial foi ao palco cantar o tema que compôs para este festival. Não houve encore, mas os aplausos foram generosos. Depois lá veio o concerto de que não se sabia bem o que esperar. Começou com "Why'd You Lie to Me" e na transição para "Sick & Tired" chegou a temer-se que a comunicação com o público viesse a ser nula. As coisas mudaram radicalmente quando alguém quis oferecer uma fita à cantora. Ao princípio houve uma certa reserva mas depois esta lá percebeu a piada da coisa e entrou no espírito, chegando a fazer um discurso de Miss Universo a que não faltou o pedido de paz no mundo. Mais tarde haveria de responder a outro cartaz, desta vez em forma de coração, ocasião que Anastacia aproveitou para elogiar a beleza dos homens portugueses. Por falar em beleza, muitos homens mostraram-se desanimados com a pouca pele exibida pela mulher que estava em palco. E tiveram queixas até ao fim porque foi assim o tempo todo. A única exuberância era a do contraste cromático entre ela e a banda: ela de camisa colorida e a banda vestida de preto. Voltando à música, com o novo "What Can We Do (a Deeper Love)" o microfone não quis participar por uns instantes, sem que Anastacia perdesse a postura, e em "Not That Kind" o baterista veio para a frente fazer human beatbox. Uns temas depois veio uma versão de "Empire State of Mind", de Jay-Z, com Anastacia a fazer aquilo que poucas conseguem: meter-se com a voz cristalina de Alicia Keys. Para o final, ficaram algumas das suas conquistas planetárias: "Paid My Dues", "One Day in Your Life" e "Left Outside Alone". Quem conhecer a carreira da cantora sabe que falta um tema. Chama-se "I'm Outta Love" e ficou para o encore, com a apoteose de dança que se esperava.



Para o fim ficou Pedro Abrunhosa. Isso quer dizer que lhe coube a distinção de encerrar o festival. O próprio teve consciência disso e referiu-o, ao que acrescentou que era uma honra fechar o evento em português. E foi muito disso que viveu o concerto, porque Abrunhosa falou na mesma língua e sobre um país em comum. Em "Não Posso Mais" disse que não esperava ter que repetir essas três palavras 18 anos mais tarde, ideia completada pela enumeração da corrupção, dos impostos e da mediocridade. A seguir, em "Pontes Entre Nós", ironizou com a colocação do palco, pedindo que ficasse sempre ligeiramente inclinado para a margem portuense, por a cidade estar a precisar de muita luz. Aliás, nessa altura declarou o concerto aberto e convidou uma série de pessoas a subirem ao palco e cantarem com ele. "Talvez Foder" é um tema que também se presta a algumas achegas, tem história nesse campo, e Pedro Abrunhosa aproveitou-o para afirmar que "há uma coisa que o ser humano tem que fazer além de sexo, que é falar, pensar e mostrar indignação pelo estado do país", concluindo que prefere o caos ao silêncio, ideia reforçada pelo resto da banda. O tom foi o mesmo do ponto de vista musical. A começar pelo tema escolhido para o início, que foi "Eu Sou o Poder". Abrunhosa entrou de chapéu de cowboy e a simular disparos, por isso ninguém pôde dizer que não foi avisado. Mesmo alguns temas conhecidos tiveram arranjos mais secos, como o referido "Não Posso Mais" e "Socorro". Nem tudo foi áspero, como é óbvio. Baladas como "Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar" e "Eu Não Sei Quem Te Perdeu" apareceram para amenizar as coisas, ao que se poderão acrescentar as intromissões funk em "É Preciso Ter Calma" e "Socorro", talvez para lembrar que teremos sempre James Brown. Houve ainda tempo de saber que o cão do dono do palco apareceu e que isso se deveu à ajuda das 527.000 pessoas que partilharam o seu desaparecimento nas redes sociais, pelo que o célebre foragido teve direito a ser mostrado através de uma fotografia. Outros momentos mais comunicativos deram-se, por exemplo, em "Ilumina-me", em que o cantor pediu ao público para acender todo o tipo de dispositivos, e ele destrinçou-os todos, episódio que aproveitou para fotografar, para "amanhã poderem ver como foi bom terem estado aqui hoje". Em suma, foi um concerto de duas horas, em que Pedro Abrunhosa preferiu arriscar a confirmar. Teve temas de toda a sua carreira, como seria de esperar, mas adaptados à sua leitura da realidade social. É aquilo a que se chama atualidade.



Texto de Sérgio Gomes da Costa
Fotos de Cristina Pinto Pinto
  

Artistas de A a Z    ¤   Anastacia
Notícia escrita por Blitz Domingo, 22 de Julho de 2012 às 10:11
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