Super Bock Super Rock: reportagem do 3º dia (7/7), com Peter Gabriel, The Shins e Regina Spektor [texto + fotos]
26 mil pessoas esta noite no recinto do Meco para receber Peter Gabriel, que cantou em dueto com Regina Spektor. Perfume Genius fez versões de Neil Young e Madonna.
A 18ª edição do festival Super Bock Super Rock termina hoje com concertos de Peter Gabriel, The Shins, Regina Spektor, Skrillex e Perfume Genius. Ontem passaram 21 mil pessoas pelo recinto da Herdade do Cabeço da Flauta, números da organização, mas hoje é esperado um número mais alto. A BLITZ já está no terreno.
Palco Super Bock
19h00 - Bebe
20h15 - Aloe Blacc
22h00 - Peter Gabriel
00h30 - The Shins
Palco EDP
19h45 - Perfume Genius
21h10 - Little Dragon
23h30 - St. Vincent
00h50 - Regina Spektor
02h30 - Skrillex
Palco @Meco
21h00 - Jorge Calado & Vahagn
23h00 - Henriq
00h30 - João Maria
02h00 - Margaret Dygas
03h00 - Ricardo Villalobos
________________________________________________
20hh30
- "Fico feliz por terem vindo até aqui, por estarem aqui a cantar e a dançar... Por aproveitarem a vida. Está um belo dia!". A tirada é de
Aloe Blac
, o "soulman" que atua ao fim da tarde no palco principal. Consigo traz uma banda (completa com saxofonista e trompetista), canções como "Take Me Back", "You Make Me Smile" e a inevitável "I Need a Dollar", que encerra o alinhamento, e muitas mensagens positivas sobre amor, amizade e os géneros musicais que começaram por inspirá-lo, como o hip-hop. Numa voz bem mais rouca do que a que usa para cantar, o homem que a mãe baptizou como Egbert Nathaniel Dawkins III foi abordando por várias vezes o público, geralmente com piada: "Quem é que hoje trouxe a namorada? Quem é não trouxe, pensando em arranjar outra aqui? Pois bem, já pensaram no que é que as vossas namoradas estarão a fazer agora?", brincou, antes de se atirar a "Loving You Is Killing Me". Um bom cantor e entertainer, Aloe Blacc brilhou, também, no papel de mestre das cerimónias soul, fazendo do seu concerto um festim de boa disposição e mostrando que pode ter sido atirado para a fama com "I Need a Dollar" mas que dispõe de outros recursos para aguentar um espetáculo.
21h26
- A abrir o palco secundário neste último dia de Super Bock Super Rock, esteve o norte-americano
Perfume Genius
. O concerto, tão cru e enternecedor quanto a sua música, marcou uma estreia em grande de Mike Hadreas em palcos nacionais. O músico, pouco expansivo mas visivelmente satisfeito, passeou-se principalmente pelos belíssimos temas de
Put Your Back N2 It
e brindou o público com duas versões: primeiro atirou-se com a sinceridade desarmante que o caracteriza a "Helpless", de Neil Young, e mais à frente cantou alguns versos de "Oh Father", de Madonna.
A viagem partiu ao som de "Awol Marine" e "Perry", canções de álbuns diferentes mas aqui coladas quais irmãs gémeas inseparáveis, e passou por momentos arrepiantes: as belíssimas "Look Out, Look Out" e "No Tear" mostraram o quão frágil, sem se partir, a voz de Hadreas consegue ser; "Dark Parts" conseguiu calar por momentos aqueles que teimavam em trocar barulhentas ideias à nossa volta (e os intercomunicadores dos seguranças deixaram de se ouvir) e "Rusty Chains" provou ao vivo que os temas bónus dos álbuns de Perfume Genius podem ser tão bons quanto os que fazem parte do alinhamento principal.
"Learning" teve direito a teclas a quatro mãos, com o senhor dos sintetizadores a juntar-se a Hadreas. "All Waters" e especialmente "Hood", reconhecido aos primeiros acordes por alguns dos presentes, foram outros momentos emocionantes do concerto. Para o final, já sem os dois companheiros que o ladearam durante grande parte do concerto (o baterista esteve sem grande coisa para fazer, convenhamos), ficaram guardados "Mr. Peterson" e "Katie", com o músico a sair de mansinho, tão tímido quanto quando entrou.
22h00
- Ao terceiro dia o recinto compõe-se, com mais gente e animação. Ao passarmos pela zona de alimentação, encontramos a habitual corrida aos comes e bebes, e não o cenário desanimador do primeiro dia de festival. No palco EDP, os suecos
Little Dragon
, com a japonesa Yukimi Nagano no papel de mulher do leme extravagante, foram mostrando um electro cada vez mais hipnótico à medida que a luz do dia se eclipsava. Com dois sintetizadores e uma bateria, os autores de
Little Union
muniram-se, ainda, do carismático cowbell para ajudar à libertação de corpos, no palco e fora dele.
No palco principal,
Peter Gabriel convidou Regina Spektor
para cantar "Here Comes The Flood". Fotos e reportagem em breve.
23h30
- O som abafado, que fez com que Annie Clark passasse boa parte do concerto de dedo espetado para cima, pedindo que lhe subissem o volume da guitarra, acabou por sabotar parte da fruição de uma atuação que tinha tudo para correr melhor do que correu. A cantora-compositora radicada em Nova Iorque (mas natural de uma cidade a que chama pequena, Dallas, como explica na apresentação de "Dilettante", sobre as ilusões de quem se muda para a metrópole) tem uma voz muito singular: no sentido literal e na aceção de narrativa. O último disco,
Strange Mercy
, é o seu trabalho mais conseguido e versa, segundo a própria, o lado negro do sonho americano, com letras pouco comuns sobre cheerleaders e outras "instituições" yankees. Infelizmente, esta noite, nem o som do palco EDP ajudou à festa, nem muitos dos espectadores pareciam interessados no que Annie tinha para dizer ou cantar (ao fazer um resumo do vídeo de "Cruel", a artista teve de chamar a atenção para o facto de estar a falar: constrangedor). Nada que retire brilho a "Chloe in The Afternoon", "Surgeon", "Northern Lights", "She Is Beyond Good and Evil" (versão dos Pop Group) ou "Krokodile", uma música que Annie vem apresentando ao vivo mas ainda não gravou. Foi neste remate de concerto que, destemida, St Vincent fez por duas vezes crowdsurfing selvagem (e muito apalpado, quer-nos parecer) enquanto, ofegante, não deixava de cantar. De mulher.
00h06
-
Peter Gabriel
acaba de abandonar o palco principal do Super Bock Super Rock, onde tocou perante uma plateia muito bem composta. Muito bem acompanhado pela New Blood Orchestra - ao todo, 50 pessoas em palco -, o músico britânico abriu com a brilhante versão de "Heroes", de David Bowie, gravada para o disco de versões
Scratch My Back
. A voz agridoce de Gabriel, que parece não querer envelhecer, ensaiou vários discursos em português (bem pronunciados mas muitas vezes imperceptíveis), com discursos pacifistas, entre os agradecimentos ao público e exaltações ao talento dos músicos que o acompanham.
Este último concerto da digressão com a New Blood Orchestra ficou marcado por um momento irrepetível: a "incrivelmente talentosa" Regina Spektor subiu ao palco para, com ele, apresentar em dueto o seu tema "Après Moi", também gravado por Gabriel para
Scratch My Back
. A cantora de origem russa, que subirá ao palco secundário em breve, só entrou ao segundo arranque da canção: a humildade de Gabriel ("isto é aquilo a que chamamos, em inglês, o nosso primeiro fuck up", disse antes de levar a orquestra de volta ao início do tema) é proporcional ao seu perfeccionismo. O esforço foi brindado com muitos aplausos.
Apesar de nos parecer que grande parte do público pensava vir assistir a um concerto de Peter Gabriel e acabou por se deparar com um conceito diferente de espectáculo, bastante intimista, a receção foi quase sempre calorosa, com o músico a fazer valer temas como "San Jacinto", e as suas teclas periclitantes, "Digging in the Dirt", dramatismo de cordas bem arranhadas, ou "Downside Up", em dueto com a filha Melanie (uma das duas meninas do coro que o acompanha).
Para o final da atuação, antes e durante o encore, ficaram guardados os temas mais conhecidos, com "Red Rain" a marcar o belo início de uma sequência que passou pelo muito celebrado "Solsbury Hill" (com direito a palmas a compasso e o músico a saltitar de um lado ao outro do palco) e por "Biko", apresentado em chama lenta e dedicado a Steve Biko, activista anti-apartheid sul-africano. Depois de cair a "safety curtain", Gabriel regressou para oferecer "In Your Eyes" e "Don't Give Up", em dueto com a outra metade do coro. Os próximos a subir ao palco, e a encerrar as atividades no espaço principal do festival, são os Shins.
00h40
- Não nos lembramos de ver tão pouca gente frente a um palco principal como no concerto dos
Shins
. É certo que a banda de James Mercer, o simpático vocalista que a BLITZ entrevistou ao fim da tarde, não vem a Portugal no seu período áureo (o primeiro álbum será o mais consensual, mas nós votamos no segundo,
Chutes Too Narrow
, como o mais viciante). Este ano, os Shins lançaram o quarto disco,
Port of Morrow
, numa altura em que muitos davam a banda perdida para o outro projecto de Mercer, os Broken Bells, e ferida de morte por uma remodelação total da formação. Só Mercer resistiu, e gravou então um álbum que o som do grupo surge suficientemente alterado para ter alienado alguns fãs. Nada disso chega para explicar que, frente ao palco principal do Super Bock Super Rock, pouco depois da meia-noite, tão poucas almas aguardassem a estreia em Portugal dos rapazes radicados em Portland. E, saliente-se, muitos deles estavam ao engano, desconhecendo que o espetáculo de Skrillex tinha sido mudado para o palco secundário.
Posto isto, foi um concerto - à falta de melhor palavra - bonito que os Shins deram esta noite. À BLITZ, Mercer garantiu que a banda está a tocar melhor que nunca, e pelo menos musculados soam eles, por vezes até demais para uma banda capaz de momentos tão fascinantemente leves como "Saint Simon" (lindíssima nesta noite, com violino e tudo - só faltaram as borboletas do vídeo). Basta a voz de Mercer - na adolescência, um fã de punk que não contava aos amigos que também gostava de Smiths e U2, como nos contou esta tarde - para repor a emoção inadiável a que associamos os Shins. "Australia" e "Phantom Limb", do terceiro disco, "Kissing The Lipless", "So Says I" ou "Mine Is Not a High Horse", do segundo, e mesmo as novas "Simple Song" e "September" soaram belamente na noite do Meco, com alguns fãs isolados a fazer a festa no meio de vários curiosos e dos fãs "deslocados" de Skrillex. Impossível não destacar, ainda, a pedra de toque da carreira dos Shins - "New Slang", durante a qual vários espectadores abandonaram o concerto - e a versão dos Pink Floyd (com "Breathe").
Não obstante o cenário pouco favorável a esta estreia tardia, os Shins despediram-se dos portugueses com muita simpatia, agradecendo a hospitalidade ("Divertimo-nos muito em Lisboa: bela cidade, pessoas bonitas, boa comida!") e anunciando o final desta fase da digressão e a vindoura paternidade do baixista. Seguiu-se uma versão impressionante de "Sleeping Sessions", num crescendo a merecer uma outra moldura humana, um outro contexto. Não fossem os espectadores que passaram todo o concerto a falar como se estivessem lá em casa, tinha sido aquilo a que se costuma chamar uma atuação "intimista".
02h40
- A russa
Regina Spektor
assinou uma belíssima e muito aplaudida atuação no palco secundário do Super Bock Super Rock. De blusa vermelha acetinada e saia preta, passou grande parte do tempo sentada ao piano, oferecendo as suas canções de amores e desamores às largas centenas de pessoas, mergulhadas na escuridão, que se concentraram frente ao palco.
"Blue Lips" e "Patron Saint" foram ótimas introduções à voz de Spektor, com o público a puxar por ela sempre que tinha oportunidade: "Obrigada", num português bem articulado, era a resposta sorridente. O ritmo acelerou para o poderoso "All the Rowboats", provavelmente um dos momentos mais aplaudidos, ao lado de "Dance Anthem of the 80's", embrulhado em sintetizadores e batida contagiante, e, já na reta final, "Fidelity" (com toda a gente a cantarolar) e o sensível "Samson".
04h05
- A edição de 2012 do Super Bock Super Rock encerrou com
Skrillex
no palco secundário. O DJ e produtor norte-americano brindou, do alto do seu púlpito montado bem no centro do palco, com a sua dose de dubstep hardcore os muitos que se juntaram para o ver. "Façam barulho, Lisboa" foi as palavras de ordem gritadas por Skrillex antes de deixar bem claro: "My Name is Skrillex".
Momentos depois, o músico faria a sua homenagem ao recentemente falecido Adam Yauch, indo buscar "Sabotage" ao repertório dos Beastie Boys. As últimas imagens que guardamos do festival do Meco deste ano ficarão para sempre ligadas ao tubarão insuflável que vimos voar sobre as cabeças dos fãs do norte-americano antes de abandonarmos o recinto.
Texto:
Lia Pereira
e
Mário Rui Vieira
Fotos:
Rita Carmo/Espanta Espíritos