|
Depois de tanto tempo a ouvir música e de tanta música a ouvir todos os dias, de cada semana, de cada mês, de cada ano, já não ouso pensar em "achados" ou "descobertas".
Agora, quando há cenas novas que batem, são boas surpresas. Em alguns casos, muito boas mesmo. Como neste caso com os Ermo.
Vi-os noutro dia no palco do Theatro Circo, para apresentação do À Sombra de Deus, juntamente com os Smix Smox Smux.
Ainda não tinha ouvido nada dos Ermo, não fazia ideia de como soariam.
Apresentaram-se com um coro com alguns elementos dos Angúria, outro nome novo incluído na compilação bracarense deste ano. Ao que parece aconteceu assim. Costumam ser só dois em palco.
Não me vou esticar sobre as referências que os Ermo podem ter ou não. O facto é que a impressão que a voz de António Costa me fez, fez-me lembrar das primeiras vezes que encontrei Ian Curtis ou Adolfo Luxúria Canibal, há décadas. Não tem a ver com semelhança de timbres, tem a ver com manifestações de interioridade. Também me fez lembrar que da primeira vez que os ouvi, não pensei, de maneira nenhuma, se passados não sei quantos anos ainda gostaria de os ouvir. O que interessou foi ouvi-los naqueles momentos originais.
Pois foi algo muito parecido que se me ocorreu noutro dia, no Theatro Circo. Não sei se e por quanto mais tempo os Ermo vão continuar a existir, isso acaba por não ser o mais importante. O mais importante é o instinto na música que fazem.
Mas espero sinceramente que desenvolvam tudo o que têm ainda para desenvolver e me parece ser mesmo muito. Mas isto já sou eu a falar a 2012.
Isto tudo, mesmo sem pensar na fenomenal composição que fizeram do FMI, de José Mário Branco! É tão raro, mas tão raro haver quem saiba pegar no nosso legado... Começaram com um sampler de um discurso de Passos Coelho :), passaram ao FMI, excelentemente agarrado, meteram João Villaret a dizer o Cântico Negro de José Régio e remataram com o Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso. Perfeito. Não, a sério, mesmo perfeito.
E prenderam o público no Theatro Circo. Isso notei.
Quando saí, fui perguntar se havia disco. Ainda não há.
Ermo é um projecto que nasceu no Verão de 2011, fundado por António Costa e Bernardo Barbosa.
http://ermo.bandcamp.com/
Parece-me que os Smix Smox Smux estão num dilema, entre serem grupo de rock ou grupo de humoristas. Sei que tocam bem, porque já os tinha ouvido a tocar há uns anos, um concerto inteiro "a sério". Desta vez, apanhei-lhes uma interpretação à la Bee Gees outra à la Pixies e um tema interessante com um miúdo-vocalista convidado. Ah, e o Smax interpretou a canção do álbum deles em que participa Adolfo Luxúria Canibal. Boa imitação, mas - obviamente - prefiro o original. Em todo o caso, essa participação já serve para que lhes compre o disco.
Como pano de fundo, tiveram uns amigos a jogarem um campeonato de setas. Original. Foi engraçado. Mais sorrisos do que rock'n'roll, mas foi engraçado.
Entretanto, este tipo de celebrações vai continuar a acontecer no Theatro Circo, para promover o álbum À Sombra de Deus IV, Braga 2012.
|