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Falatório: Primavera sim [um balanço seco e molhado do festival com um nome parecido] -
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Falatório: Primavera sim [um balanço seco e molhado do festival com um nome parecido]

Agora que o estreante Optimus Primavera Sound chegou ao fim, um balanço quase nunca musical de Luís Guerra, veterano de outras/os Primaveras.

Às 19h20 do passado sábado ocorria-me um pensamento (provavelmente burguês): acabou-se o paraíso. A chuva, não demasiado pesada mas insistente, caía sobre a cidade do Porto deste o início da tarde e eu, no Parque da Cidade, assistia ao concerto dos Spiritualized com um capa impermeável vestida sobre um casaco, com os pingos a escorrerem todos em direção às calças, nomeadamente ao bolso onde guardo o telemóvel (Descansa em Paz, Nokia N70) e uma certa dificuldade em tomar notas.

Os dois dias anteriores, por oposição, tinham sido consideravelmente soalheiros (se esquecermos um breve chuvisco na quinta) e contribuíram para a tal ideia paradisíaca de um festival que este ano se estreia em Portugal, deixando por uns dias a fiel esposa barcelonesa (não, não estamos a dizer que o Porto é a "amante"). Dizíamos, ao longo da reportagem BLITZ, que muito nos surpreendia que ninguém, até agora, tivesse concretizado a ideia de fazer um festival no Parque da Cidade do Porto, a sul da linha divisória entre os concelho do Porto e Matosinhos (a Circunvalação). O espaço, vasto mas não demasiado vasto que exija preparação física suplementar, é verde até mais não; os palcos estão dispostos em locais que permitem assistir, sem grandes sarilhos, a tudo (exceção a um ou outro concerto subdimensionado na tenda Club, como Beach House); a prometida ausência de parafernália extramusical afeta a anunciantes e patrocinadores cumpriu-se, na generalidade.

Tendo assistido a três edições do congénere espanhol (2002 e 2003, no pitoresco mas "apertado" Poble Espanyol; em 2010 no enorme Parc Del Fórum), consigo enquadrar a versão portuense do festival na intersecção entre as duas "idades" do festival de Barcelona: o Primavera Sound Porto não é um evento pouco generoso na oferta (há quatro palcos, cerca de 20 concertos por dia), mas também não se torna uma real dor de cabeça na altura de fazer opções - os oito palcos do evento catalão obrigam a uma correria que impede, na prática, que se assista a um determinado concerto sem a sensação de se estar a perder algo relevante noutro espaço.

Dados da organização apontam para uma afluência estrangeira superior a 50%, cifra que, à vista desarmada, somos inclinados a corroborar. Quanto à "filiação" musical, a percentagem engorda: não há punks, não há góticos, não há (aparentemente) roqueiros da velha guarda; há uma juventude indie que imaginamos a assistir, religiosamente, à série Portlandia , e a aplicar um filtro retro a qualquer foto que tira com o iPhone (e recorremos a Jerry Seinfeld para esclarecer o que, a julgar pelos comentários, não terá ficado óbvio na reportagem BLITZ: não que haja algo de errado nisso!). Mas a geração indie não é uniforme: noutra altura da história moderna, dificilmente veríamos um cavalheiro repleto de tatuagens lado a lado com uma rapariga vestida com pudor clerical a erguer os braços num concerto dos Black Lips. O indie é muita coisa (e ainda bem) - e a própria palavra indie já é, ela própria, um bocado foleira.

Sem o mesmo cuidado no guarda-roupa (não uso colete refletor, mas - recorde-se - estou em trabalho) nem a juventude nas articulações a jogar a meu favor (aos 35 anos, tenho idade para ser um irmão bastante mais velho da maior parte dos convivas), encontro no Parque da Cidade uma Babel indie, espaço civilizado de que apetece desfrutar, com zonas de repouso, barraquinha de vinho a copo, sombra abundante e ausência de empurrões.

Também há coisas que falham: sabemos que houve quem estivesse 2 horas e meia na fila de levantamento de bilhetes para os concertos de domingo na Casa da Música, aspeto que urge rever (um único "dispensário" no Parque da Cidade, no sábado; uma fila de perder de vista); vimos o teto de uma barraca de cerveja a ceder ao peso da água da chuva; as condições meteorológicas causaram o cancelamento de um concerto no palco "principal"; a água que se acumulou no centro da tenda Club pede obras (chegou a haver uma clareira); os palcos "principais" (com concertos alternados) sofrem da proximidade de um terceiro palco (o caso do concerto dos Dirty Three a entrar pelo dos Kings of Convenience adentro) e vice-versa; vegetarianos têm a vida difícil na zona de restauração. Por outro lado, não nos recordamos de outro festival com tão bom fluxo de "entradas e saídas" nos WCs (falo, é certo, do ponto de vista facilitado de quem trata do "assunto" em pé) e isso, como bem sabemos, é essencial quando a bebida "maioritária" é cerveja.

Sobre a música, é uma questão de ler o que escreve a equipa BLITZ (links em baixo) - dois jornalistas e uma fotojornalista que nunca conseguiriam ver tudo, mas fizeram por estar presentes (nem que fosse por um bocadinho) em quase tudo e debitaram palavras e imagens, em tempo real, sobre o que passou à frente dos seus olhos. Como nos tocam simultaneamente as palavras elogiosas (obrigado!) e as críticas negativas (que, obviamente, não são ignoradas), parece-nos justo esclarecer o seguinte: não escrevemos nem fazemos fotogalerias no conforto do lar, ao fim de uma "jornada de trabalho"; o que se lê e vê nas reportagens "em atualização permanente" é urdido "em andamento", às vezes contém erros (é impossível evitá-los) e imprecisões (é inviável verificar tudo quando se tem outro concerto a começar, dentro de segundos, noutro palco) e, na maior parte dos casos, resulta de uma impressão "a quente". Seria, claro, mais fácil guardar para documentar depois, quando estivessem reunidas todas as condições para não falhar, mas não é esse o espírito da BLITZ em festivais. Se estamos lá, que se note que estamos lá.

A título pessoal (passem à frente se não interessar), diga-se que tive pena de não ter visto um pouco mais de Wavves e Black Lips, mas outros afazeres (noutros palcos) não me deixaram ser egoísta. Teria delirado com Olivia Tremor Control na Casa da Música, mas a logística de regresso a Lisboa não deixou. Gostaria de ter visto uns Mercury Rev menos Mercury Rave. E, ao cabo de tantos anos, os Flaming Lips já mandavam os balões dar uma volta, não? Nesse aspeto, a simplicidade dos Yo La Tengo até é comovente.

Gostámos? Não se nota que sim?

Texto: Luís Guerra  

Notícia escrita por LG Segunda, 11 de Junho às 15:00
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