|
Light of my Life, Fire of my Loins
No passado Verão, requisitei, na minha biblioteca municipal, o mais famoso romance de Nabokov -
Lolita
. É um livro que acompanha a relação entre uma adolescente norte-americana - Dolores Haze, a Lolita - e Humbert Humbert, um professor de meia-idade com uma obsessão por jovens raparigas (as suas "ninfitas"). Humbert relata na 1ª pessoa a sua aventura com Lolita,
uma adolescente encantadora, aparentemente ingénua.
Mas ela é também sensual e com um feitio vincado. Acima de tudo, esta Lolita é o símbolo dum movimento que gerou controvérsia e inspirou imensamente a Arte, pela sua imagem única.
.
Comecei a ouvir Lana del Rey há uns meses; mais recentemente, passei para o meu mp3 o seu 1º álbum -
Lana del Rey a.k.a. Lizzy Grant
- e a edição Deluxe do seu bem-sucedido
Born to Die
.
Como já repararam, Lana del Rey joga com o imaginário Lolita; tal começa a evidenciar-se em
Lana del Rey a.k.a. Lizzy Grant
:
Put Me in a Movie
é uma canção sensualmente lenta e preguiçosa.
Os versos, sobre uma rapariga que quer ser filmada, têm uma mensagem directa:
"Come on/
You know/
You like little girls.../
You can be my Daddy..."
Depois deste álbum - que recomendo vivamente! - veio
Born to Die
. Esqueçam o
hype
à volta de canções cândidas de amor como
Vídeo Games
e
Summertime Sadness
(o próximo single), pois Lana del Rey reserva muito espaço para as canções fortes.
Após a serenidade épica de
Born to Die
, a faixa de abertura, vem
Off to the Races
. E com ela, a Lolita. Lana começa por cantar:
"My old man is a bad man/
But I can't deny the way he holds my hand".
Ela é uma menina que precisa dum homem mais velho:
"
I'm your little Scarlet, starlet/
Singing in the garden/
Kiss me on my open mouth/
Ready for you"
Mas o verso que explica tudo é:
"Light of my Life/Fire of my Loins"...
...Nada mais nada menos que as primeiras palavras do romance de Nabokov! É assim que Humbert começa o seu relato, mostrando o quão ele necessitava da sua Lolita.
Para quem tem dúvidas, basta ouvir a versão Deluxe: esta possui três faixas bónus, das quais uma intitula-se...
Lolita
!
Muitos não gostam da voz de Lana del Rey. Poderão pensar que o facto de a cantora usar um modificador de voz nesta canção lhes dará razão quando dizem que Lana del Rey precisa de correctores para soar decente.
Enganam-se!
Em
Lolita
(oiça acima) a voz de Lana é alterada. Mas não necessariamente para ser corrigida. É que há uma intenção óbvia nesta canção: soar como uma rapariguinha. A voz de Lana assemelha-se à de uma boneca.
Depois, claro, a letra ajuda a perceber isso:
"Hey Lolita, hey/
Hey Lolita, hey/
I know what the boys want, I'm not gonna play"
E ainda:
" I want to have fun and be in love with you/
I know that I'm a mess with my long hair and my suntan, short dress, bare feet"
Excusado será dizer, também o estilo de Lana del Rey realça a sua veia de Lolita.
A foto acima, por Nicole Nodland, é bem-conhecida: nela, Lana del Rey usa óculos de sol em forma de coração, bem ao estilo Lolita (basta recordarmo-nos do cartaz do filme de Stanley Kubrick).
Em
Diet Mountain Dew
(de
Born to Die
) Lana convida a sua paixoneta a ir viajar...
"Baby put on hearth-shaped glasses/
Cuz we're gonna take a ride"...
Já mencionei que no romance Humbert leva a Lolita a viajar pelos E.U.A. de carro?
As minhas suspeitas foram confirmadas com um artigo da
Vogue Portugal
deste mês (Junho 2012): em
Flores de Aço
, escrito por Rosário Mello e Castro, aborda-se as tendências deste Verão que não escondem a influência das Lolitas.
E, como a Moda e a Música gostam de andar juntas, menciona-se precisamente Lana del Rey (descrita como uma Lolita gangster) e a sua canção
Off to the Races
, assim como outras Lolitas bem famosas (Jodie Foster
emTaxi Driver
).
Paulo Macedo, uma das personalidades entrevistadas para esse artigo, conclui: "O mais apelativo nesta estética é o facto de ser tão sensual, o que é diferente de ser sexy. É a combinação perfeita entre beleza, jovialidade, sensualidade, e autoconfiança, e isso não tem a ver com a idade, mas sim com o poder das mulheres que se conhecem a si próprias."
Em suma, a Lolita reforça a aura da música de Lana del Rey, confirmando a sexualidade/sensualidade como uma das suas temáticas preferidas. As canções referidas neste meu artigo têm um certo mistério e quase que tocam o perverso.
Mais: estas canções vêm denotar o fascínio de Lana pela estética pop das décadas de 60, etc. O que a meu ver, coloca Lana del Rey como uma cantora que vale a pena conhecer, pois o seu imaginário é fascinante.
Há quem lhe aponte certos defeitos, e muitos são justificados, mas esta cantora norte-americana já provou que a sua música é especial, e recheada de características não tão óbvias à primeira audição.
Assim, convido-vos a responder: que pensam da sensualidade na música de Lana del Rey, e da sua imagem de Lolita? Qual a vossa opinião sobre as canções que referi?
Obrigada e espero que tenham gostado do meu artigo! :)
|
Gostei bastante do artigo!
Digamos que "videogames" nao me fez despertar para a LDR. Honestamente pensei que iria ser um flop musical.
Aquando que ouço "born to die" e "blue jeans" e mudo completamente de opinião.
Ouvi o cd e tenho-o o meu mp3. acho um disco pop bastante bom, e muito acima da media. não é, de todo, um pop vulgar.
acho que a imagem da lolita Se adequa bem à imagem e ao trabalho da LDR. fabricado ou não, a verdade é que o trabalho final é excelente. gosto sobretudo da escrita e da capacidade de contadora de histórias que ela impõe a cada música, conseguindo a proeza de nos fazer transportar para o seu "universo".
polémicas à parte, quem não conhece acho que devia ouvir o cd...
quanto ao livro referido nao conheço, mas vai ficar na lista :)
Os paralelismos que mencionas são interessantes, embora não tenha ainda lido o livro (que quero ler, mas a biblioteca da minha cidade não é assim tão "próspera); já ouvi a Lana Del Ray e não fiquei grande fã.
O que aponto a favor da Lana Del Ray é o facto de se esforçar por cantar, escrever, compor e produzir os seus temas (outras cantoras pop nem isso, tipo Jessica Simpson).
O que aponto contra a Lana Del Ray é o resultado final: canções pop demasiado açucaradas (mas mesmo assim acima da média pop, acima de Madonna e Lady Gaga musicalmente) em que a personagem feminina não é sensual, mas demsiado submissa ao homem; fundamentando tudo com rimas fáceis e algumas bem previsíveis. Vale pela voz, essa sim sensual, se esquecermos o que diz.
Não acredito que tenha ficado famosa por um acaso e se não acertou à primeira é porque não calhou e sim, tem uma imagem tão deliciosa como a voz.
Aguardaremos o que musicalmente Lana Del Ray nos trará, mas não a detesto, se um tema passar na rádio ouço-o sem ter necessidade de ter que mudar, mas um álbum na íntegra já me "enjooa" um pouco mais.
Cheers e boas audições.
Embora possa, numa ou noutra passagem, remeter para o universo literário de Nabokov (a associação ao "affiche" do filme do S. Kubrick é bem vista) julgo que Miss Grant estará mais próxima de uma mistura entre o esteriótipo da figura mimada de Scarlett de "E Tudo o Vento Levou" e de uma Nancy ("Bang Bang") Sinatra.
A propósito da "lolitização" da música pop considero que o mestre dos mestres se chamou Serge Gainsbourg e está condensado no soberbo/genial disco "Histoire de Melody Nelson" e que facilmente pode ser constatado quer na narrativa das canções deste disco quer na figura da capa desse LP onde a sua companheira de sempre, Jane Birkin tão bem recria e que levou a que o disco tivessse sido quase queimado na fogueira da censura.
De resto como já disse parabéns pelo excelente artigo!