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Graças à triste sina deste nosso quotidiano, tem sido frequentemente lembrado um episódio em particular da vida de um dos políticos da história Universal que eu mais admiro, Wiston Churchill. Com o seu país acossado em plena 2ª Guerra Mundial e sendo obrigado a cortes e a racionamentos bem piores que os nossos, recusou cortar na Cultura, dizendo pragmático: «Desse modo, de que valeria a pena lutar?»
Claro que Churchill sabia muito bem que a Arte é em última análise produto e reflexo da Sociedade, dos seus usos, costumes e tradições. Do nosso lado, 40 anos de cabresto, em que o bom Estado Novo ditou que o povo era sábio e não precisava da escola, a nossa Arte reflectiu-se em palavras de ordem e contestação, pensadas na clandestinidade, pela pena e voz de um punhado de visionários exilados no estrangeiro, os mesmos poucos Portugueses que viveram os Maios de 68 e as outras convulsões de uma Europa que ansiava libertar-se do Jugo dos déspotas bafientos.
Efectivamente, foi da Esquerda que saíram as mais ricas e urgentes manifestações culturais e o suor e não poucas vezes, sangue, por elas derramados são eterna prova do seu valor. Mas, pessoalmente, não faço cartilha política dessas manifestações, pois nem sequer sou Comunista. É tolo quem pensa que uma boa ideia pode confinar-se a um qualquer feudo particular, pois desse modo, não teria qualquer serventia.
Admiro todos esses cantores, vulgo de intervenção, mas gosto particularmente de um: O Sérgio Godinho. A sua música, as suas palavras, o tom da sua voz e aquele fraseado único, que é só dele e que só ele sabe (inventou o Hip-Hop dizem alguns).
Sei que é um bocado parvo e redutor fazer tal escolha no meio de tão vasta e rica obra, mas a ter de escolher o meu disco preferido do Sérgio, não hesito um segundo sequer a pensar na resposta: «À Queima Roupa», editado em Outubro de 1974.
Ao longo de pouco mais de meia hora, este acaba por ser um disco de contrastes: Editado alguns meses após a Revolução, é de certa forma extemporâneo; é um disco de intervenção e ao mesmo tempo, não. Tem um tom agressivo e ao mesmo tempo, bucólico e contemplativo; é cantado em Português e versa sobre Portugal, mas soa algo «je ne sait quois» a estrangeiro.
Este fenómeno deve-se sobretudo ao carácter «cigano» do jovem Godinho. Partiu muito cedo para o estrangeiro (Suíça, França, Canadá...) e por isso mesmo, do núcleo de cantautores e artistas desse tempo (Zeca, Zé Mário, Adriano, Ary...) ele acabou por ser o menos tradicional e mais «globalizante» de todos. Para cúmulo, enquanto se desenrolava a revolta de Abril, ele estava integrado numa comunidade Hippie em Vancouver!
O tema que abre o disco quase que consegue eclipsar tudo o que se lhe segue. Forte e pontuado com um refinado apontamento de Pedal Wah-Wah, chama-se «Liberdade» e reza assim: «Só há Liberdade a sério quando houver Paz, Pão, Habitação, Saúde e Educação». Caramba, mas que verdade! tão actual, tão actual, que se um dia (o diabo seja surdo), Portugal cair mesmo em desgraça, esta frase devia ficar gravada na sua pedra tumular.
Efectivamente, alguns dos assuntos controversos abordados neste disco, curto e directo (como manda o seu título), ainda que importantes, nessa altura pareciam algo «órfãos» de ouvidos atentos, devido à instabilidade pós 25 de Abril, pois até chegar a tão ansiada liberdade, viveu-se um perigoso período de libertinagem, que quase mergulhou o país numa nova ditadura, desta vez a pender para o lado canhoto da coisa.
Temos definições do Português raçudo («Cão Raivoso», «De Coração e Raça»), uma conversa sobre a diferença de classes, que daria pena de prisão antes da revolução («O meu Compadre»), a questão das terras «sem dono» («Pontos nos íis«), o tema das Colónias («Independência»), uma engraçada denuncia da podridão («Tem Ratos») e claro, o dedo apontado à falsa propaganda («O Grande Capital»)
Do outro lado, um Sérgio Godinho bem mais sereno e contemplativo emerge numa clara alusão a uma certa «Chanson Française» ao piano («Assim Como um Postal para o Canadá»), uma (literalmente) doce elegia ao amor («A Minha Cachopa») e propositadamente, deixo para o fim aquela que a meu ver, é a melhor entre as milhentas canções do Sérgio: «Etelvina».
É a perfeição em forma de canção. O instrumental é de uma perspicácia insolente, tal como o é a jovem protagonista da canção, a Etelvina, arredia como o diabo, «que aos 16 anos já conhecia todos os reformatórios da terra onde vivia». Vénia desmedida.
Trinta e tal anos volvidos, e olhando ainda mais para trás na história cá do Burgo, o nosso fado foi sempre mais ou menos o mesmo: Lamentos, choro e ranger de dentes. Mas os cantores de intervenção de hoje parecem-se mais com os palhaços. São como o tolo, que se ri de tudo e de nada. Que estranhos são estes tempos em que vivemos...