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O dia em que eu... ouvi Bernardo Sassetti [crónica de Rui Miguel Abreu] -
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O dia em que eu... ouvi Bernardo Sassetti [crónica de Rui Miguel Abreu]

O que fica quando desaparece alguém como Bernardo Sassetti? Rui Miguel Abreu procura responder hoje à mais difícil das questões.

O formato do título desta crónica às vezes obriga a encontrar um verbo muito específico, sem o qual não fica garantida a honestidade das linhas que se seguem. Neste caso não podia usar "conheci", porque na verdade não cheguei a conhecer Bernardo Sassetti. "Encontrei", "descobri"... Também não podia ser por aí. "Ouvi" é o que provavelmente descreve de forma mais justa o dia em que o entrevistei, há um par de anos, aqui para BLITZ. Recordámos essa entrevista no site, o que me permitiu afinar a memória, mas a impressão com que fiquei de Bernardo não é a que está contida naquelas linhas porque quando as escrevi não podia imaginar estas outras que agora se desenrolam à frente dos meus olhos.

Que me lembre, só me tinha "cruzado" (e cá está outro verbo impreciso...) com Bernardo Sassetti uma outra vez. Algures no início dos anos 90 - talvez até mesmo em 1989, sei que foi no princípio do meu percurso jornalístico... - assisti a uma noite de jazz (no São Luiz?...) em que se apresentou o Moreiras Jazztet. (De facto, e aproveitando a verdadeira máquina do tempo que o Google pode ser, acabo de passar os olhos numa entrada dedicada ao Moreiras Jazztet no blog Jazz No País do Improviso e descubro que os terei visto pelo menos duas vezes, precisamente em 89 e 90: na primeira parte de Courtney Pine, na Aula Magna, e no São Luiz, nem mais..., no evento Lisboa em Jazz 1990). Não posso dizer que o pianismo jovem de Bernardo me tenha conquistado nesta altura até porque eu próprio ainda não estava preparado para apreciar corretamente toda a invenção que escorria dos seus dedos, mas lembro-me com alguma nitidez de palavras proferidas por Bernardo Moreira pai que exaltaram as capacidades do então jovem pianista. Os anos deram-lhe plena razão e Bernardo conseguiu de facto reconhecimento das suas capacidades artísticas e gozou de um alargado consenso que lhe permitiu tocar em diversos contextos com esse sentido exploratório que define os músicos mais aventureiros.

De regresso à entrevista de há dois anos, perto do Marquês de Pombal, em Lisboa - bem perto, aliás, da casa de Sérgio Godinho, que também visitei pelas mesmíssimas razões: recordo um homem entusiasmado, que tinha acabado de receber o seu exemplar de Motion e que o descobria com o olhar inquisidor de quem observa coisa alheia. Escolhi o verbo "ouvir" para figurar no título desta crónica porque de facto mais do que entrevistar, o que eu fiz foi ouvi-lo falar. Bernardo Sassetti não precisou sequer que a primeira pergunta fosse formulada para começar a debitar pedaços de uma sabedoria que parecia traduzir uma idade muito mais avançada do que os seus anos. Na verdade, nasci um ano antes de Bernardo Sassetti, mas naquele dia senti-me mais novo do que ele, talvez porque a vida que traduzia nas palavras parecesse muito mais longa e sábia e experimentada do que o que o seu bilhete de identidade pudesse indicar.

Era demasiado novo para ter percebido o impacto da morte de John Lennon, em 1980, e quando Kurt Cobain desapareceu em 1994 algo me escapou, talvez por ter ficado tão ofuscado com a engrenagem da construção do mito que logo aí se colocou em movimento. Mas agora, estes dramas ressoam de forma diferente. Adam Yauch, primeiro, e Bernardo Sassetti, depois. Uma galáxia não chegaria para quantificar a distância artística que separava estes dois homens, e no entanto eles eram ambos mais do que os seus discos deixavam perceber. Budista e pai, um; fotógrafo e pai, outro. Ambos partilhariam, portanto, um certo espirito contemplativo e essa mágica condição criativa que é a paternidade. Ambos desapareceram muito antes do que seria humano esperar o que levanta mil e uma questões a que eu pelo menos não sei responder.
Percebo agora um pouco melhor a utilização da palavra "vazio" por aqueles que, mais velhos do que eu, procuravam a dada altura explicar-me o que sentiram quando Lennon desapareceu. Estas pessoas deixam um vazio porque preenchem um espaço com as suas vidas, deixam um vazio porque são elas próprias completas.

Na casa de Bernardo Sassetti pensei algo assim: as fotografias, os livros, os discos e sobretudo as palavras que espalhava pela sala indicavam-me estar na presença de alguém muito forte, alguém que estava disposto a deixar uma marca no mundo, a preenche-lo com uma visão, com melodias e com novas vidas. E quando alguém assim parte há algo que o mundo perde e não volta a recuperar. E daí o vazio. Resta-nos o consolo de ser possível continuar a ouvir as palavras que proferiu ao piano. Resta-nos ouvi-lo.

Crónica de Rui Miguel Abreu
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Notícia escrita por LP Segunda, 14 de Maio de 2012 às 11:31
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