BLITZ Homepage
Bernardo Sassetti (1970-2012): a última entrevista e sessão fotográfica à BLITZ [fotogaleria] -
Partilhe este artigo:

Bernardo Sassetti (1970-2012): a última entrevista e sessão fotográfica à BLITZ [fotogaleria]

Em junho de 2010, o pianista falava com Rui Miguel Abreu sobre os múltiplos projetos que tinha em mão, mas concretamente sobre Motion . Rita Carmo fotografou-o.



O Jazz é um gajo estranho

O pianista não pára: agora propõe-nos Motion , música sem palavras, mas carregada de imagens e de mistério.

Bernardo Sassetti faz em Junho 40 anos, mas a sua dedicação ao jazz já lhe preenche bem mais do que metade da vida. Na casa onde nos recebeu, em Lisboa, o pianista trabalha diariamente nos seus múltiplos projectos. E percebe-se que não há um momento de pausa no seu pensamento.

A entrevista, aliás, não começa com uma pergunta, mas com uma frase do músico e compositor, que mal espera pelo ligar do gravador para começar a desfiar as suas ideias: "A representação artística das coisas", atira, "e do que nós vivemos tem um sem número de interpretações. Eu posso olhar para uma imagem e reparar em coisas que para outra pessoa são completamente secundárias. Eu, por exemplo, gosto de uma certa estranheza, de um certo mistério nas imagens. E preocupo-me pouco com as coisas mais objectivas nas imagens", refere, a propósito da imagem na capa do seu CD, que acabou de receber.

"Lembro-me de estar a ver um filme de um realizador que eu adoro, Michael Mann, um criador genial de imagens, e de ficar completamente encantado com coisas secundárias, que aparecem no background. É algo que o digital fez com que se perdesse, porque no cinema digital fica tudo focado"

O mote digital/analógico serve para reorientarmos a conversa o novo álbum de Bernardo Sassetti, Motion, foi gravado em Paço de Arcos, nos estúdios da Valentim de Carvalho, com Nélson Carvalho. Analogicamente? perguntamos. "Não, gravámos em digital", responde.

"Gosto muito do som analógico, mas o Nélson Carvalho tem um sistema de conversão do formato digital para um formato francamente mais quente, algo que ele faz na fase final, no processo de masterização. Ele passa o som por uns conversores à moda antiga e a técnica hoje está tão desenvolvida que se conseguem verdadeiros milagres".

Apesar de gravar digitalmente e editar em CD, Bernardo é um apaixonado do vinil: "Eu gosto do som mais quente e, nesse aspecto, basta comparar as novas remasterizações do trabalho dos Beatles na verdade não há nada como ouvir aquilo em vinil, como eu sempre ouvi a vida toda, mesmo com riscos. Até porque os riscos contam também a nossa história. O CD veio facilitar muito a vida às pessoas, sobretudo no capítulo da cópia (risos), mas por outro lado veio tirar um certo lado humano à música. E eu quero tentar humanizar a música que faço com sons que me parecem apropriados para aquele momento".

O domínio do humano é também o domínio das emoções, "material" que existe em abundância nas melodias do novo álbum. Sugerimos que "Emotion" poderia também ter sido o título do novo trabalho: "Tem graça, eu pensei em dar ao álbum o título eMotion, com "e" pequeno, mas depois achei que era demasiado pintarolas. Mas ficou Motion, mesmo que o movimento não se prenda com a velocidade das coisas. Tem a ver com a dinâmica, com nuances, com coisas que sempre estiveram na minha cabeça. Tem a ver com coisas muito subtis que vão acontecendo ao longo desta história do Motion, que será sempre uma história muito abstracta. É uma história que vive cá dentro, mas que eu não sei como vai ser interpretada".

O novo álbum, lançado na portuguesa Clean Feed, é apontado por Bernardo Sassetti como "uma enorme vontade de procura". Individual, mas também colectiva: "Devo muito ao trio. O Carlos Barretto e o Alexandre Frazão fazem parte da minha vida de uma forma magnífica. Eles são uma inspiração. E com eles consigo a comunicação absoluta no momento as faixas vivem quase sempre do primeiro take. Gosto muito da frescura do primeiro take".

De facto, o novo registo de Bernardo Sassetti vive, e muito, de subtilezas, incluindo alguns sons em que o líder recorre a instrumentos para lá do piano. "Este disco", adianta, "vive muito do que eu chamo sons amnióticos, sons que aparecem e desaparecem, coisas estranhas".

Gravado em três tardes, Motion é um retrato de Bernardo Sassetti, tirado "à lá minuta", sem os procedimentos normais na pop. "Nalgumas participações que tive em discos pop lembro-me de chegar a estúdio e os músicos já lá estarem há 20 dias. A gravarem tudo em separado, o baixo, a bateria, os teclados, o piano. eu se tivesse que viver assim acho que dava em louco. Esta música não vive assim e eu não gosto, para ser totalmente honesto, do resultado final sonoro. São filosofias de som diferentes, não estou a fazer uma crítica". "O jazz", remata, "tem que ser mais vivo, tem que ser naquele momento e de preferência vivendo da frescura de um primeiro take. Aconteça o que acontecer. Se for muito mau repete-se, mas o gozo é a procura no estúdio. É outra filosofia, nem precisamos de falar. Quando falávamos era só para dizer disparates. Existe uma telepatia fortíssima".

Entrevista: Rui Miguel Abreu
Fotos: Rita Carmo

Originalmente publicado na BLITZ nº 48, de junho de 2012
A BLITZ está também disponível para tablet. Faça o download da sua aplicação para iPad ou para Android
Notícia escrita por LG Sexta, 11 de Maio de 2012 às 13:44
Partilhe este artigo:
 Comentários
Partilhe este artigo:
 
Home  |  Termos de Utilização  |  Política de privacidade  |  Política de cookies  |  Notícias  |  Fórum  |  Agenda  |  Festivais  |  Artistas de A a Z  |  Classificados  |  Galerias  |  Blitz TV  |  Edição Impressa  |  Assinar Revista  |  Newsletter  |  Passatempos  |  BLOGS  |  Ficha Técnica  |  F.A.Q.
© copyright BLITZ 2006. Todos os direitos Reservados
BLITZ - Edificío São Francisco de Sales, Rua Calvet de Magalhães 242 - 2770-022 Paço de Arcos T. 21 4544161 F. 21 4415843 e-mail: blitz@impresa.pt - Anuncie na Blitz