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O dia em que eu... não consegui evitar Madonna [crónica de Rui Miguel Abreu] -

O dia em que eu... não consegui evitar Madonna [crónica de Rui Miguel Abreu]

O novo álbum de Madonna, lançado hoje, é o pretexto para a crónica semanal de Rui Miguel Abreu, que reconhece que não é possível passar ao lado da rainha da pop. 

A vida está cheia de obstáculos incontornáveis, como por exemplo um novo álbum de Madonna. Não me entendam mal, eu até aprecio a senhora e consigo puxar suficientemente pela memória para me lembrar de ter usado "Into the Groove", por exemplo, em sets de DJ onde me parecia adequado injetar uma dose de ironia pop quando o contexto era de leve snobismo hipster. Essa ideia de Madonna como "agent provocateur" é aliás central em muitas das mais sérias análises da sua carreira. 

Mas, de um ponto de vista estritamente musical, chega um ponto em que não se pode deixar de perguntar que objetivos serve um novo álbum de Madonna. MDNA tem um propósito claro, como hoje argumenta Matthew Perpetua na crítica da Pitchfork (4,5 em 10, caso estejam curiosos): ancorar uma nova digressão mundial, agora que Madonna é ela própria uma corporação que mereceu da Live Nation um investimento de 120 milhões de dólares.

Há, portanto, um abismo entre a Madonna que no início da carreira trabalhou com o mestre electro Jellybean Benitez e esta outra Madonna que agora recruta Martin Solveig ou os Benassi Bros. A sensação com que se fica - e reconheço ainda não ter ouvido nada para lá dos singles - é a de que este disco resulta de um compromisso obtido em longas reuniões de management e não necessariamente em igualmente longas sessões de estúdio. Um disco onde os primeiros intervenientes não hão de ter sido compositores, produtores ou músicos, mas sim advogados armados com contratos e honorários capazes de resgatar qualquer economia mais frágil. 

E, portanto, o que eu posso fazer, como boa parte da população do planeta, é mesmo preparar-me para o embate porque não vai ser possível escapar ao novo trabalho de Madonna: se é mais do que certo que não vai conquistar espaço nos 8 gigas que tenho disponíveis no iPod, o mesmo já não poderei dizer do espaço à minha volta, aquele se estende do rádio que se ouve no carro à moldura sonora que nos envolve no centro comercial, no café ou nos transportes públicos. 

Como uma bem estruturada campanha de marketing, a música que Madonna agora produz para cumprir metas empresariais vai surgir-nos pela frente quando menos a esperarmos, insinuar-se e aparentar relevância quando tudo indica que já não há ali chama criativa que consiga aquecer-nos, mesmo com o novo sangue pop de que a diva conseguiu rodear-se. Mas, no fim, Madonna vai sempre sair a ganhar, porque mesmo quando nos esforçamos para não a ouvir, não conseguimos deixar de falar nela.

Crónica de Rui Miguel Abreu

tags: Madonna
Notícia escrita por RMA Segunda, 26 de Março às 12:16
Artistas de A a Z    ¤   Madonna
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