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O dia em que eu...vi a melhor banda rock nacional [crónica de Rui Miguel Abreu]
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Rui Miguel Abreu esteve no Porto e viu o passado do rock and roll. |
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Eu vi o passado do rock and roll e o seu nome é Black Bombaim. O concerto em causa aconteceu na passada quinta-feira, no Plano B, Porto, integrado numa iniciativa da Red Bull Music Academy que levou o título de Porto Hub 2012. Entre variadíssimas propostas para viver a cidade de forma diferente - subir a Torre dos Clérigos com auscultadores nos ouvidos a debitarem baixas pressões dubstep era apenas uma das experiências disponíveis - encontrava-se uma série de três concertos batizada como Invicta Jams. A ideia era cruzar o músico e produtor norte-americano James Pants com valores nacionais em sessões de improviso sem rede.
O rapper-barra-spoken-word-artist Biru e o multifacetado Jonathan Saldanha foram os outros dois vértices deste triângulo das Bermudas onde o público foi convidado a perder-se. Mas algo de muito especial aconteceu na segunda-noite, quando no palco o power-trio de Barcelos encontrou o louco cientista de Spokane. O norte de Portugal e o norte da América são locais muito diferentes. Num come-se melhor, noutro ouve-se melhor. Mas por uma noite apenas, o Porto transformou-se numa cave qualquer de Haight-Ashbury circa 1969 (suficiente tempo depois de 67 para ainda se sentirem os efeitos das explorações psicadélicas, mas também já suficientemente próximo de 70 para se sentir o peso abrasivo arrancado aos amplificadores).
Ora, apesar de ser o orgulhoso dono de uma cópia de Saturdays and Space Travels, nunca tinha submetido os meus ouvidos à experiência de um concerto dos Black Bombaim, portanto não posso precisar exatamente se a sessão do Plano B a que me refiro diferiu em muito das "normais" apresentações do grupo. Mas suspeito que algo de especial se passou naquela noite.
A ideia das Invicta Jams passava por montar um concerto com apenas algumas horas de ensaios, por isso mesmo um improviso dentro de uma estrutura qualquer pré-definida deve ter sido a receita seguida para o concerto. James Pants integrou-se naquele turbilhão de eletricidade com uma dose generosa de ácido corrosivo proveniente dos teclados e há que sublinhar que um balanço com algum groove se desprendeu dos momentos em que adicionou percussões à massa sonora do trio. Mas o mérito principal do sucesso daquela noite deve ser atribuído aos Black Bombaim, seguramente a melhor banda rock nos palcos nacionais naquela noite (e suspeito que em muitas outras, pelo menos nas que decidem subir aos palcos).
O que aconteceu no Plano B foi um hino ao rock: Hawkwind, Hendrix e Floyd invocados para uma garagem qualquer onde não há poses (a roupa dos Black Bombaim não acusava o mínimo toque hipster), não há mensagens (nada de "c'mon baby" ou "yeahs" amorfos, apesar de um momento curioso no final), não há refrões, acrobacias ou o que quer que seja que se possa associar ao moderno concerto rock. Só três excelentes músicos: um baterista que certamente ouviu os Can, um baixista que sabe que é ele que deve manter o colectivo ligado à terra e um guitarrista com mais experiência em viagens espaciais do que Richard Branson.
E isso tudo traduz-se em poder, músculo, riffs capazes de mover placas tectónicas, propulsão de vocação "motorik" e com a injeção do ácido de Pants o todo atingiu, muito sinceramente, a perfeição. Até a incrivelmente caótica e delirante versão de "White Rabbit" com Pants a cantar a letra através de um vocoder sintonizado em Saturno soou incrível.
De facto, vi o melhor que o passado do rock ofereceu, mas com os pés no presente e com a nítida sensação de que me voltarei a cruzar com estes tipos no futuro. Agora o que dava mesmo jeito era uma gravação do que se passou em palco naquela noite, incluindo até a gutural contribuição do repentista que subiu ao palco nos momentos finais do concerto.
Crónica de Rui Miguel Abreu
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Notícia escrita por
RMA
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