Vodafone Mexefest Porto: reportagem do 1º dia (2 de março) com St. Vincent, Cass McCombs e Supernada, entre outros [texto + fotogaleria]
Belíssimos concertos de Cass McCombs e St. Vincent (foto) e algumas surpresas agradáveis. Foi assim a primeira noite no Porto.
São 20h15, hora a que começou o derby Benfica-Porto (favorável à equipa da cidade onde estamos) e há ruas da baixa cortadas ao trânsito. Os restaurantes estão ainda mais cheios que habitual, há quem ande de um lado para o outro com um mapa nas mãos e com passo acelerado.
A "culpa" toda é do Vodafone Mexefest que tem como missão fazer com que todos, precisamente, se mexam. Entre os Poveiros e os Aliados (para chegar ao Guarany), com desvios curtíssimos para a Rua de Santa Catarina (Café Majestic) e a Rua de Sá da Bandeira (o teatro com o mesmo nome da artéria), com coração na Rua Passos Manuel, o festival nascido em Lisboa decidiu instalar-se na Invicta num fim de semana recheado de boas propostas.
Ao longo de dois dias, o menu de degustação apresentava boas hipóteses para apreciadores de territórios indie e rock - e até para quem não diz não a um passinho de dança noite dentro.
Já durante a noite, uma das primeiras salas a fazer mexer a cidade era o incontornável Passos Manuel, que recebia um dos nomes maiores da guitarra em Portugal. Para que tem um disco chamado
Pata Lenta
,
Norberto Lobo
tem umas mãos de luxo. De ouro, até, algo confirmado no momento com as luzes douradas que o furavam de lado a lado e lhe aqueciam o rosto.
Norberto fez aquilo que sabe fazer: cruzou o imaginário português com o fingerpicking norte-americano e travou uma batalha não contra a guitarra mas em parceria com esta. Passado todo este tempo ainda há quem se sente numa cadeira, propondo-se "simplesmente" tocar uma guitarra - e há uma sala cheia de pessoas dispostas a ouvir. E isso é bonito. Sobretudo nas mãos de Norberto Lobo, exímio improvisador e contador de histórias.
Aos
Salto
calhou o impensável: tocar em cima da pala do Coliseu (uma proeza digna de deixar uma equipa de produção à beira de um ataque de nervos) e dar canções - é de pop dançável que se trata - a um público algo surpreendido. Felizmente não fizeram justiça ao nome e ficaram-se pela nomenclatura, sãos e salvos.
Na belíssima sala do Ateneu Comercial do Porto, verdadeira joia da cidade (faz pensar porque não é possível ir lá mais vezes ver concertos),
Dani Black
, primeiro sozinho e depois com banda, numa sala a menos - bem menos - de meio gás, desenhava rumos alternativos para a MPB. E bem. Muito mais que capaz na guitarra, Dani tem o açúcar na voz que não se ensina nem se aprende. Com banda, alterou-se necessariamente o registo mas nunca a missão.
Num Teatro Sá da Bandeira muito bem composto,
Cass McCombs
não só deu um belo concerto como ainda fez amigos. É provável que quando o norte-americado regressar a Portugal o faça num espaço bem maior. Nesta noite, por momentos, a sala de espetáculos mais antiga da cidade ganhou as cores de uma folk inequivocamente tingida com as cores da bandeira norte-americana, ao ver Cass abrir um cancioneiro próprio de quem trata a canção, o songwriting, por tu.
Canções como "Angel Blood" - abençoada pedal steel guitar - tornaram por demais evidentes os talentos de Cass McCombs em começar uma canção e terminá-la sem se perder o objetivo à vista. Apesar de acompanhado por quatro músicos, a transposição das suas canções dos discos para o palco nunca parece nenhuma das seguintes duas coisas: demasiado fiel (porque isso às vezes é uma chatice) e demasiado obesas. Canções como "Love Thine Enemy", mais marcada e upbeat, mostraram que Cass McCombs é um todo-o-terreno: sem que o concerto tenha parecido uma selva. Tudo controlado. Menos quanto para uma canção a meio para refrear o entusiasmo do técnico de luz, para dizer no final: "ia tendo um ataque-cardíaco". Regar tudo com bom humor só elevou a coisa.
A sala ficava-lhe a matar. Não, não é o título de um novo blockbuster. Falamos de
Russian Red
, sensação do indie espanhol, no Ateneu Comercial do Porto. Pausa entre canções, tom confessional: a madrilena Lourdes Hernández conta que esteve em Lisboa, que chegou ao Porto e quer ficar na cidade para sempre. Na correria, deu tempo para ver Russian Red entregar canções aprazíveis entre a folk e a pop, a fazer parecer que Lourdes Hernández nasceu em Brooklyn. Seja lá o que isso quer dizer.
Na passagem pelo local, sempre na correria,
King Krule
pareceu perfeito perfeito a ecoar pela rua vindo da Garagem Vodafone FM - quase tropical nas suas feições, ou foi só imaginação? Importa dizer que a sua voz de 17 anos ficou gravada na cabeça. Fica para uma próxima?
Por falar em cabeça, no Coliseu a essa hora já
St. Vincent
se preparava para mostrar canções com a dita cuja, tronco e membros. Era já sabido que as suas canções, ao mesmo tempo sofisticadas e complexas, liricamente e sonicamente entusiasmantes, faziam dos seus discos experiências bastantes aprazíveis. O que não se sabia é que ao vivo, essas canções se transcendiam - e muito.
Para começar: Annie Clark é uma belíssima guitarrista. Segundo: a sua voz, sobretudo quando munida por eletrónica e ambiências texturais, revela-se pura como a neve, sublime. Terceiro: quando as canções assumem um corpo mais rock, nada se perde na classe e na ambição.
O redemoinho pop hipnótico de "Save Me From What I Want" foi um dos momentos da noite, "Cruel", uma das canções de mais fácil absorção de Sr. Vincent, foi outro. Feitas as contas, não foi surpresa porque estava no ar a promessa de um bom concerto mas as expectativas foram amplamente ultrapassadas. Se dúvidas houvesse que Annie Clark era capaz de encher um Coliseu - tanto em som, como em povo, como em alma - as dúvidas ficaram esclarecidas em pouco tempo.
Findo o concerto de St. Vincent, a romaria tinha apenas um sentido: o que levasse ao Teatro Sá da Bandeira para assistir ao regresso dos
Supernada
de Manel Cruz e companhia, com disco de estreia na bagagem e ambição renovada. A narrativa não foi interrompida, teve apenas uma pausa. Os Supernada foram iguais a si mesmos: a tensão está sempre presente (aquele tiquetaque nervoso no ataque às canções), os riffs são corpulentos (de algum peso, até), há um certo funk para ler nas entrelinhas.
E depois há Manel Cruz: a encher o palco todo, em tronco nu, magro e humano, a debitar poesia urbana com aquela velocidade que lhe reconhecemos. Olhando para trás, foi um reencontro (e a devoção sentia-se dentro da sala). Com espaço - pouco - para hesitações, para experiências, para projeções. Terá sido o primeiro momento de um novo percurso. Press Pause, Play: eles estão de volta.
Pensamento das 3 da manhã ao ver a festa transferir-se para o Pitch Club: na sua primeira edição, ainda só havia passado uma noite, já se pode dizer em voz alta que este formato é um formato vencedor.
Texto:
André Gomes
Fotos:
Cristina Pinto Pinto
O festival continua hoje, com atuações de Twin Shadow e Josh Rouse, entre outros. Veja aqui o cartaz:
3 de março
Coliseu do Porto
Twin Shadow (00h00 - 01h00)
The Dø (22h20 - 23h10)
Garagem Vodafone FM
Hanni El Khatib (23h05 - 23h55)
The Glockenwise (20h50 - 21h40)
Cinema Passos Manuel
Ladrões do Tempo (01h10 - 02h00)
Dillon (21h00 - 21h50)
Nuno Calado e Rui Estevão (Antena 3) (02h00 - 04h00)
Sala Super Bock Super Rock - Maus Hábitos
Lacraus (21h55 - 22h45)
Foals DJ set (00h45 - 02h15)
Rita Zukt + Cristiana Pranto (02h15 - 04h00)
FNAC Santa Catarina
David Pires (15h30 - 16h15)
Diego Armés (17h00 - 17h45)
The Underdogs (19h00 - 19h45)
Ateneu Comercial do Porto
Norton (20h15 - 21h05)
Fink (22h20 - 23h20)
Teatro Sá da Bandeira
Muchachito e el Trio Infierno (23h10 - 00h10)
Josh Rouse (21h30 - 22h30)
Café Guarany
Lacraus (18h20 - 19h00)
Pitch Club
Freshkitos (01h00 - 02h00 e 04h25 - 06h00)
Makam (live) (02h00 - 04h30)
Pitch Club (bar)
Tiger & Woods (Live) (01h00 - 02h00)
Rui Trintaeum (00h00 - 01h00 e 02h00-06h00)
Pitch Club Basement
Beatbombers (03h00 - 05h00)
Nuno Forte (01h00 - 03h00)
Estação de Metro Bolhão
The Neighbours (19h30 - 20h30)