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Vodafone Mexefest: reportagem e fotos do 2º dia, com James Blake, Dead Combo e mais -

Vodafone Mexefest: reportagem e fotos do 2º dia, com James Blake, Dead Combo e mais

Segundo e último dia do festival manteve a Avenida da Liberdade em alta animação. Concertos de Oh Land, We Trust, Toro Y Moi e Algodão também marcam a noite.

Além de espaçosa e lindíssima, como ontem a descrevemos, a Sala Portugal da Sociedade de Geografia de Lisboa tem a particularidade de contar com uma escadaria opulenta; a disposição da mesma faz com que, em vez de "subir ao palco", esse velho cliché da descrição dos concertos, os artistas, aqui, desçam ao mesmo (e, no final da atuação, subam as ditas escadas, também à vista de todos). Nesta segunda noite de Vodafone Mexefest, nem o horário do concerto (20h40) nem o perfil relativamente discreto do artista - um dos dez mais da BLITZ na eleição dos melhores de 2011 - impediram uma verdadeira enchente. Em palco esteve, à hora de muitos jantares, Filho da Mãe , isto é, Rui Carvalho, guitarrista dos If Lucy Fell aqui sentado com uma guitarra acústica que dedilha com mestria e criatividade, sem se deixar agrilhoar pelo formato-canção.

Questões formais - o homem e a sua guitarra - levam-nos a tecer comparações com o também talentosíssimo Norberto Lobo mas, se tivéssemos de traçar uma comparação a traço grosso, diríamos que a música do Filho da Mãe, registada no disco Palácio , tem uma secura e uma agressividade mais pronunciadas, por oposição à doçura do homem de Fala Mansa

Enquanto o Filho da Mãe toca, os outros baixam as orelhas, o que significa que o público ansioso por trocar de sala esperou até ao final de cada música para se levantar e sair, o que parece ter causado alguma tristeza ao músico. "Não gosto de aborrecer ninguém, por isso vou tocar a última", anunciou no final. Mas a maior parte dos espetadores permaneceu, ao longo do concerto, sentada e atenta aos dedos do guitarrista, ou ao som que estes produziam, uma vez que, estando artistas e plateia sentados, era complicado ver mais do que o cocuruto da cabeça de Rui Carvalho.

Porventura influenciado pela "escola" rock, o estilo do Filho da Mãe revelou-se veloz e contundente, embora nas suas composições, com títulos como "Quis não Quis" ou "Encontrei os Teus Dentes", se pressintam, também, os ecos de portugalidade que trespassam a obra de Norberto Lobo. Apresentando as músicas de forma lacónica, Rui Carvalho toca como quem se embala a si mesmo, de olhos muitas vezes fechados e semblante concentrado, sentido; a figura contrasta com uma música que por vezes parece zangada e prestes a "ralhar", sem maldade mas com razão. 

Dificilmente associaríamos a guitarra do Filho da Mãe, de aspeto bem modesto, a um "guitar hero", mas é isso que Rui Carvalho acaba por ser, nesta busca intensa por sons e narrativas sem palavras brindada, no final, com uma ovação em pé. Aparentemente surpreendido com a reação do público, o português despediu-se emocionado do palco, da sua guitarra e do pedal de efeitos. Bem bonito.

Dois passos e um chocolate quente ao lado (cortesia da organização), encontramos Francisco Silva, aka Old Jerusalem, a encher a Igreja de São Luís dos Franceses de gente e folk-rock dolente. São deste músico do Porto alguns dos melhores discos recentes do género (o homónimo, deste ano, encontra-o em ótima forma) e, ao vivo, acompanhado por uma banda de três músicos, o cantautor transporta todo o intimismo das suas composições para um cenário de castiçais e água benta. "O Joy of Seeing You", do álbum Twice The Humbling Sun, e "The Go-Between", do mais recente Old Jerusalem , ilustram a transição de um som denso para um registo mais desanuviado, ainda que não menos inspirado ou melódico.

A dinamarquesa Oh Land foi recebida na sua primeira atuação em palcos nacionais com sala lotada. A cantora nórdica deixou a plateia da sala 1 do cinema São Jorge rendida aos seus atributos vocais - as longas pernas terão ajudado, também, ao entusiasmo - enquanto se passeou pelos temas dançáveis e fantasiosos do segundo (e homónimo) álbum de originais. A excentricidade da indumentária contrastou com as cordas cinematográficas que introduziram "Perfection", tema recheado com batidas intrigantes que tem também honras de abertura do disco.

Com as primeiras filas já de pé, e depois de aplausos fortes, a cantora seguiu caminho com um dos seus maiores trunfos: a perfeição pop de "Son of a Gun" deixou-a a dançar desenfreadamente, entre as piruetas que terá treinado até à perfeição antes de uma lesão a ter afastado dos palcos da dança. Acompanhada por um baterista entusiasta e um paisagista de sintetizadores, Nana Øland continuou na onda dançável com "Voodoo" e abraçou o primeiro momento intimista com o fogo lento de "Wolf & I" (provavelmente uma das prestações mais aplaudidas da atuação): "Muito obrigado. São uma alcateia fantástica", brincou, depois de o público a ajudar, em coro, a terminar a canção.

Depois de contar que passou alguns dias de folga a conhecer Lisboa - e a comer pastéis de Belém - o "bondiano" "Lean" arrancou gritos de "És linda" e "Rainbow", "tema sobre amor" lançou um jogo inocente de sons exóticos, enquanto os mais cuidadosos - adivinhando, com certeza, a fila gigante que já se formava perto do teatro Tivoli - partiam para tentar assegurar lugar na sala que receberia James Blake momentos depois. Seguimos o exemplo (e em boa hora o fizemos), mas não sem antes assistirmos a um "Deep Sea" (tema escrito "há muito tempo", e incluído no álbum de estreia, merecedor de ser ouvido por uma plateia que a mimou bem) servido de forma solitária com ajuda de teclas solenes.

No Tivoli, os Dead Combo encontram uma sala cheia - e sentada - à sua espera. Consigo, Pedro Gonçalves e Tó Trips trazem a entourage do costume: uma "oficina" de ramos de flores e tralha sortida, algures entre Tim Burton e Tom Waits, e as suas próprias sombras, projectando-se misteriosamente nas paredes do teatro. A música dos Dead Combo, já se sabe, é rica a criar ambientes e sugerir viagens sensoriais, mas também pode bem dar para dançar, como a pegadiça "Lisboa Mulata", tema-título do disco mais recente, e o seu riff atrevidote comprovam, convidando à festa. Sentada (e, em muitos casos, a guardar lugar para James Blake), a plateia não abana a anca mas segue com atenção a jornada da música alfacinha, que acompanha com palmas. Saímos do Tivoli, rumo à Casa do Alentejo e ao Algodão, quando os Dead Combo dedicaram "Anadamastor" a uma "miúda" que trabalha na esplanada do mesmo nome e que, a avaliar pela canção a que deu origem, há de impressionar a clientela pela sensualidade e mistério.

À semelhança do que aconteceu em 2010 com Janelle Monáe, a fila que se formou frente ao Tivoli para o concerto de James Blake (o grande cabeça de cartaz do Vodafone Mexefest, arriscamo-nos a dizer) era gigantesca. E meia hora antes do início do concerto já a sala se encontrava muito perto de lotada. Terão sido, com certeza, muitos os que ficaram de fora da segunda atuação em solo nacional do menino-prodígio britânico, uma das revelações do ano e o autor do melhor álbum de 2011 para a BLITZ.

Em pouco mais de hora e meia, Blake provou - acompanhado por um baterista e um guitarrista - com que linhas misteriosas se cose a sua música. O alinhamento foi certeiro e o melhor (ou antes, as canções mais aguardadas) ficou guardado para o final, com o músico a desvendar, nua e crua, a sua belíssima voz, depois de passar grande parte do tempo a maquilhá-la e manipulá-la com vocoders e auto-tunes. É assim, tal como em álbum, que James Blake se sente bem, instigado a desconstruir e reconstruir e a reformatar uma voz estilhaçada mas longe de imperfeita.

"I Never Learnt to Share", com multiplicações de voz captadas em tempo real e recarregadas ao vivo, e o expansivo "CMYK" (merecedor de aplausos de pé) foram dois dos momentos altos de um concerto que começou com o sufoco de "Unluck", e a sua tempestade implodida, e passou pelo tremendo "Tep and the Logic" (as paredes tremem tanto quanto os nossos ouvidos) e a nostálgica "Lindisfarne" (partes I e II).

O músico mal consegue disfarçar a timidez, escondido atrás dos seus sintetizadores, mas comunica com o público para agradecer e dizer que gostou muito da primeira vez que esteve em Portugal (foi há alguns meses, no Optimus Alive'11) mas que "desta vez é a um nível completamente diferente". O silêncio exige-se quando, já na reta final da atuação, as teclas imponentes de "Limit to Your Love" irrompem para fazer explodir os aplausos. Momentos mais tarde, e depois de apresentar os seus acompanhantes, Blake parte para o hipnotizante "The Wilhelm Scream". É tempo de atravessar novamente a Avenida... Toro Y Moi espera por nós - e por isso não ficamos para o encore.

Na Casa do Alentejo, não são muitos os que assistem ao concerto de Algodão , o alter ego palavroso de Carlos Nobre, aka Pacman. Confiante e entusiasmado em palco, contudo, o antigo vocalista dos Da Weasel consegue cativar a atenção dos presentes sobre histórias onde a observação do quotidiano se cruza, de forma espirituosa e inteligente, com pequenas reflexões e interpelações, ora doces, ora agrestes. Sempre apreciámos a forma como Carlos Nobre transforma o vocabulário corriqueiro em algo mais, sublinhando-lhe o significado sem cair em pecados como a presunção. No disco de Algodão, Uma Falaciosa Noção de Intimidade , essa vocação é levada ao máximo, em temas de formato livre, pouco espartilhado. Ao vivo, há um cuidado extra com a narrativa, que traça a ascensão e queda das relações humanas, e temas como "Esquecidos pela Manhã", com a participação da violinista Francisca Fins, ou "Diz-me que Não Sou Assim", arrebatada e desconcertante declaração de amor à filha bebé, ganham corpo e intenção. O mérito é, também, da banda que acompanha o Algodão - além do violino, tivemos teclados, guitarra e sopros - e que garante que "Mãe da Filha", quase em jeito bossa nova, ou "Há Sempre um Mas", dedicado a uma amiga desaparecida, cheguem a palco de forma criativa e cativante. Tal como o concerto de Filho da Mãe, esta atuação do Algodão, que envergou uma t-shirt de Charles Bukowski, foi um concerto de coragem, capaz de enriquecer o cardápio deste Vodafone Mexefest. 

Os We Trust foram um dos grandes fenómenos do verão passado, graças ao êxito "Time (Better Not Stop)", mas, assim queira a curiosidade dos ouvintes, têm potencial para se transformarem em algo mais. Gravado por uma formação numerosa, que o mentor André Tentúgal diz ter-se distinguido pelo brio e forma abnegada como contribuiu para o resultado final, These New Countries , já nas lojas, é uma mina de canções indie pop-soul com refrões cantaroláveis e melodias viciantes a espreitar a cada esquina - coisa tão simples, e tão valiosa, em tempo de crise como noutro qualquer. De mãos atrás das costas, André Tentúgal começou o concerto algo nervoso, mas logo à segunda canção - a excelente "Within Your Stride" - mostrou outra garra e conseguiu pôr o público a bater palmas com vontade. Não admira: praticamente todas as canções de These New Countries são imediatamente "gostáveis". Eis um disco que não se faz difícil, portanto, e que ao vivo tem tudo para continuar a agradar: muito baixo, muitos teclados, melodias douradas e a voz suave de um "frontman" que, a cada música, se mostra cada vez mais desenvolto. 

Não obstante boa parte dos espetadores aguardar com ansiedade a chegada de "Time (Better Not Stop)", a determinação e eficácia com que os We Trust foram apresentando pérolas soalheiras como "This Time The Truth", "Tell Me Something" ou "Once at a Time" provam que o grupo do Porto é um projeto com pés, cabeça e coração, e não apenas um "one hit wonder". Antepenúltima música da noite, "Time (Better Not Stop)" foi, obviamente, a canção mais celebrada - com palmas, gritos de comoção e até coros espontâneos que se prolongaram além do fim da música. Aos detratores da simplicidade da cantiga, lembremos as palavras de Manel Cruz, para quem "... mas o calor, que é puro que é bom, só acontece quando nada é claro". Não é claro porque é que tanta gente aderiu, ao mesmo tempo, à mesma canção, mas é bom ver a alegria generalizada que uma mesma frase, navegando a onda de uma melodia melancólica, espalha no salão "de baile" da Casa do Alentejo. E o facto de muitos terem ficado até ao final do concerto, ao som da lânguida "Surrender", não abandonando a sala imediatamente após o hit, prova que os We Trust ofereceram, ontem, um belo bolo-rei, e não apenas o seu brinde.

De volta à sala 1 do São Jorge - depois de comprovarmos mais uma vez que a animação nos autocarros que andam avenida acima avenida abaixo continua ao rubro - chegamos a meio da atuação de Toro Y Moi , do norte-americano Chazwick Bundick. Há muita gente a querer entrar e o cenário está muito bem composto. Com banda completa, Bundick explora as suas ambiências sintetizadas - por vezes parecem saídas de um filme de fantasmas dos anos 80 - com um fervor que não esperávamos. "Still Sound" e "Freaking Out", com direito a alguns passos de dança "a la Prince", preparam caminho para o groove contagiante de "I Can Get Love", que não nos sai da cabeça quando decidimos seguir para a última paragem da noite.

O DJ e produtor norueguês Lindstrom já vai bem avançado no seu DJ set quando chegamos ao reavivado (por duas noites) Cabaret Maxime. Mais uma vez, a fila que se forma à porta avisa-nos que a sala está lotada. A animação é muita no interior, mas aqui o público divide-se entre o bar, as conversas de amigos e a dança, com Lindstrom a esforçar-se em palco, como denota o headbanging compassado, por atrair os festivaleiros ao seu mundo de disco sound cósmico para o século XXI. E o Maxime continua tal e qual como nos lembramos dele. E o Vodafone Mexefest, apesar do novo nome, continua igual a si próprio. Para o ano haverá mais, com certeza.

Textos de: Lia Pereira e Mário Rui Vieira

Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos 

Notícia escrita por MRV Domingo, 4 de Dezembro de 2011 às 4:18
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