|
Já ninguém usa a expressão "aparelhagem" para se referir ao sistema de som pessoal. Até porque já ninguém tem "sistemas de som". Talvez seja a consequência direta dos dias que vivemos: por um lado, a tecnologia permite que carreguemos a música para toda a parte, por outro, indicam os retratos desta geração... hum... aflita, vive-se cada vez até mais tarde em casa dos pais e talvez a profusão de watts não seja a melhor forma de passar despercebido. Talvez seja por tudo isso. Ainda assim, não compreendo que se respeite tão pouco a música ao ponto de a confinar a minúsculos altifalantes de plástico que se metem dentro das orelhas, a microscópicas colunas escondidas algures no espaço que não está ocupado pelo ecrã tátil dos telemóveis ou ainda às terríveis e temíveis colunas dos laptops.
Neste arranque de ano letivo, tenho podido conversar com alunos de vários cursos ligados à música e só um deles, precisamente aquele que exibia a barba mais grisalha, usou a expressão "aparelhagem" para se referir ao seu sistema de som pessoal, o equipamento que usa para ouvir música. A maior parte dos outros alunos chega a estranhar a pergunta. "O que usas para ouvir música?" Provavelmente, se colocasse a questão numa qualquer língua exótica não iria obter uma reação muito diferente. Ou seja, mais grave do que haver quem eleja como método para ouvir música os auscultadores genéricos que recebeu com o leitor de mp3 ou a pobre imitação de colunas que os fabricantes de computadores portáteis oferecem com os seus modelos, é haver quem já pense que não há outra maneira de ouvir música.
Felizmente, os fluxos da moda têm alguns efeitos positivos. Vejo cada vez mais gente nos transportes públicos com auscultados decentes nos ouvidos. Talvez seja inspiração direta dos jogadores de futebol que fazem o caminho entre o aeroporto e o autocarro com vários modelos dos auscultadores desenhados pelo Dr Dre nos ouvidos, ou talvez seja apenas porque dão mais pinta, mas a verdade é que vejo cada vez mais os logos da Sennheiser ou da Nixon na cabeça das pessoas. Nesse ponto podíamos estar pior. Ainda assim, usar "Beats by Dr Dre", "Masterblasters" ou "HD 25s" para ouvir ficheiros comprimidos a 128 kbps é como usar um Audi Q9 para lavrar terra de semear batatas.
Toda a gente nos diz que nunca se fez e nunca se ouviu tanta música. Talvez seja verdade em relação à quantidade, mas não tenho grandes dúvidas que toda essa música também nunca soou tão mal. Não é apenas esta cultura da compressão de ficheiros, que de facto esmaga a alta definição que a música - toda a música - exige, com a própria indústria a entrar no jogo com as "loudness wars" e a nivelar a qualidade pelo menor denominador comum, as tais coisas minúsculas que se enfiam nos ouvidos ou que imitam de forma miserável uma resposta minimamente decente às frequências na parte de trás do telemóvel.
Vivemos portanto mergulhados num oceano de "médios" a pender mais para o lado dos "agudos" e já ninguém sabe realmente a que soa o kick de uma 808, o que é um subgrave, como é que um baixo nos pode acertar em cheio no estômago e ligar-nos à mais profunda da vibrações, ao ponto de acharmos que estamos a captar o movimento das placas tectónicas debaixo dos nossos pés. É como se nos vendessem um quadradinho do tamanho de um selo como o formato ideal para ver cinema. Não é por isso de estranhar que as pessoas nem protestem quando nos festivais o som não tem uma qualidade minimamente aceitável, quando a tenda electrónica envia um "rumble" indistinto na direcção do palco alternativo onde um esforçado "singer songwriter" tenta evangelizar-nos com uma guitarra acústica enquanto o animador de uma qualquer marca de telemóveis nos grita aos ouvidos recorrendo a um sistema de som estridente que debita o pior que a música tem para oferecer nessa semana.
Termino com a pergunta mais importante de todas: será que ainda alguém sabe a que soa o silêncio? É o som que se segue ao momento em que desligo a aparelhagem.
Crónica de Rui Miguel Abreu
|