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Peter Murphy no Coliseu dos Recreios, Lisboa [texto + fotogaleria] -
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Peter Murphy no Coliseu dos Recreios, Lisboa [texto + fotogaleria]

Coliseu de Lisboa praticamente cheio para ver um Peter Murphy que soube contornar problemas técnicos com o poderio da sua voz e do seu carisma. Quase sempre descalço.

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Em noite de muito calor, neste verão fora de tempo, Peter Murphy conseguiu praticamente encher o Coliseu de Lisboa, depois de, na noite anterior, esgotar o Hard Club, no Porto. Entre os muitos espetadores não faltavam donos de t-shirts de Bauhaus, naturalmente, mas também de Siouxsie and the Banshees, Joy Division e Nine Inch Nails, com quem a banda de "Bela Lugosi's Dead" chegou a realizar uma digressão. Nas Portas de Santo Antão avistavam-se também algumas fãs com trajes góticos à base de veludo, verdadeiras campeãs da resistência às temperaturas "tropicais" que se têm feito sentir, dizemos nós.

Resistente, ou pelo menos persistente, teve também de ser Peter Murphy. Mal entrou em palco - alto, elegante e vestido de negro - o inglês, que há 20 anos vive na Turquia, foi recebido com uma imensa ovação. Elogiada a beleza do Coliseu e acesos, na plateia, os primeiros charros, o concerto - no qual Murphy se fez acompanhar por uma banda de três elementos - tinha tudo para começar em grande. Mas uma sucessão de problemas técnicos, desde a falta de "in ear" do cantor, que se ausentou de palco para resolver a questão, até ao som da bateria, também em falta durante os primeiros temas, foi responsável por um arranque tremido. Claramente inquieto, Pete Murphy pedia constantemente correções no volume dos instrumentos e da voz, e com toda a razão: durante todo o espetáculo o som de palco esteve deficiente, impedindo muitos espetadores de sequer entender as várias intervenções faladas (e aparentemente calorosas) do artista.

Experiente e empenhado, contudo, Peter Murphy não se deixou abater pelas contrariedades e, depois de tirar meias e sapatos logo ao primeiro tema ("Velocity Bird"), deu um belo concerto, entre músicas do novo Ninth , êxitos da sua lavra e clássicos dos Bauhaus. Percorrendo o palco (descalço, não é demais lembrar) de forma predatória, felina e sensual, para gáudio dos admiradores, Peter Murphy usou dois trunfos infalíveis para conquistar o Coliseu: a sua voz, cheia de corpo e mistério, que nem mesmo os problemas de som conseguiram macular (por vezes, tínhamos vontade que o quinquagenário ficasse sozinho em palco com o microfone; talvez corresse melhor e seria, certamente, suficiente); e um carisma à prova de idade, que nos impede de tirarmos os olhos da sua figura enigmática, muitas vezes capaz de dançar sem sair do lugar.

Entre os pontos altos desta noite atribulada, mas bem sucedida, está certamente "Hurt". A composição de Trent Reznor, já se sabe, é pau para toda a obra: opressiva no original dos Nine Inch Nails, de quebrar o coração na voz de Johnny Cash, e especialmente assombrada na versão de Peter Murphy, que a encarnou sozinho em palco com o seu guitarrista, que suavemente ia desenhando a melodia. Um momento para o arrepio, tal como as intensas "All We Ever Wanted Was Everything", dos Bauhaus, apresentada logo de seguida com Murphy na guitarra acústica (e parcialmente arruinada pelas interpelações ruidosas de um grupo de amigos que não se cansava de anunciar ao mundo o aniversário de casamento de um deles); "Subway", "I'll Fall With Your Knife" e "I Spit Roses".

Mas os momentos de maior delírio - nos quais o fã empedernido de Bauhaus que dançava freneticamente à nossa frente quase, quase levantava voo - chegaram com "She's In Parties" (o palco inundado de vermelho, Peter Murphy de melódica na mão), "All Night Long" e, mesmo antes do encore, "Cuts You Up", altura em que todo o Coliseu parece ter entrado na mesma sintonia que o fã frenético, protagonizando uma bonita festa nostálgica. Foi entoando, com afinação e entusiasmo, o "ôô-ôôô" desta canção que o público pediu o regresso de Peter Murphy e da sua banda. "A Strange Kind of Love", do álbum a solo Deep , de 1990, casou com uma breve citação de "Bela Lugosi's Dead", primeiro single dos Bauhaus, numa despedida emocionada aos fãs portugueses que, antes de voltarem para casa nesta noite escaldante de domingo, tiveram direito a vénias e agradecimentos prolongados do próprio artista. Não é para todos, mas se preciso fosse, Peter Murphy provou, na forma como soube contornar a sorte aziaga que sobre este concerto se abateu, que não é um músico qualquer.

Na primeira parte, apresentou-se Michael Shapiro, californiano de credenciais discretas e admiração visível por Bruce Springsteen. De postura aguerrida e canções velozes, inspiradas por temas como as "one night stands", Shapiro entreteve os presentes e "ameaçou" voltar. "Eu encontro-vos! Tenho a vossa foto!".

Texto de: Lia Pereira
Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos
Artistas de A a Z    ¤   Peter Murphy
Notícia escrita por Blitz Segunda, 3 de Outubro de 2011 às 0:44
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