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Há-de ter sido uma roda-viva, a semana que antecedeu a estreia em Portugal dos Rolling Stones, a 10 de Junho de 1990. E falo por mim. Ao consultar os arquivos d'A Capital, reavivei a memória e percebi que a ocasião permitiu produzir dois "destacáveis", um a antecipar a passagem por Alvalade, com perfis individuais e análises da discografia da banda e das suas prestações ao vivo, e outro logo no dia seguinte ao concerto. Uma dúzia de páginas que hão de ter sido produzidas entre a chegada à redação, não antes da uma da manhã de dia 11, e o fecho da edição, que ocorria todos os dias por volta do meio-dia. Já não me lembro do lufa-lufa, mas ainda recordo a fantástica sensação de ver a edição a sair das rotativas e os parcos minutos que provavelmente tive para admirar o longo trabalho investido nesse destacável antes de me ver obrigado a pensar na edição do dia seguinte. Trabalhar num diário era assim... Ao contrário da BLITZ atualmente, que tem uma "shelf life" mais dilatada devido à sua periodicidade mensal, num diário o que se escrevia tinha uma validade muito curta e o esforço era muitas vezes e literalmente levado pelo vento, quando ao final do dia as páginas dos jornais já serviam para embrulhar castanhas.
Recordo esta passagem dos Rolling Stones por Portugal quando me encontro a meio de outra empreitada gigante, dedicada a outra banda icónica inglesa... As diferenças nas ferramentas de trabalho são abismais: uma máquina de escrever, o arquivo do jornal e uns saltos rápidos à hemeroteca em 1990 por oposição a um par de computadores, mais um tablet onde tenho armazenadas algumas revistas em formato digital, mais a incontornável internet e uma já bem equipada biblioteca pessoal em 2011. E o que me ocorre é que apesar da diferença dramática das ferramentas, o trabalho não é hoje mais fácil. Só o acesso à informação é que é. Mas nunca é a informação, pois não? É o que se faz com ela...
Em 1990, A Capital dedicou a capa da sua edição de 7 de Junho aos Stones, com uma enorme fotografia de Mick Jagger de óculos, a acenar de dentro do elevador do Meridien e com as parangonas a lerem "Hello!" e "Jagger acena só para "A Capital"". Os Rolling Stones tinham tocado no dia anterior, dia 6, numa Berlim que então ainda se encontrava em ebulição depois da queda do muro (a reunificação da Alemanha só se tornaria oficial no mês de outubro seguinte) e por alguma razão decidiram voar nessa mesma noite para Lisboa, onde chegaram já pelas 3 e meia da manhã de dia 7. Faltavam 17 minutos para as quatro da manhã, reportei eu na altura, quando uma limusine de vidros fumados estacionou em frente do Meridien, trazendo Mick Jagger e um enorme segurança. Num minibus que a seguia vinha o resto da banda... Eu era o único jornalista presente, mas isso significou apenas que nessa madrugada tive que criar duas páginas a relatar basicamente a espera no aeroporto e a dica que me permitiu chegar ao Meridien com o fotógrafo mesmo antes da entrada da entourage dos Stones. Palavras ditas de facto à reportagem d'A Capital? Só mesmo um lacónico "Hi"... o "Hello!" da capa fomos nós que o dissemos, para atrair o olhar de Mick...
A verdade, pensava eu, é que depois do concerto dos Stones, ninguém mais se lembrou da capa e aquela edição do jornal, como tantas outras, rapidamente desapareceu da memória para se confinar aos arquivos e pouco mais. Mas cerca de um ano mais tarde, A Capital, entretanto adquirida por um grupo de comunicação mais poderoso, viu-se no centro de uma campanha de revitalização comercial que entre outras coisas se manifestou num anúnico de televisão. Lembro-me de ficar surpreendido porque para o "packshot" usaram, precisamente, a capa com o Mick, levando aquele "Hello!" a muitas mais casas do que aquelas a que chegou no dia 7 de junho de 1990.
Os jornais e as revistas podem estar algumas horas ou um mês inteirinho nas bancas, mas inevitavelmente acabam por ter que ceder o lugar a outros jornais e outras revistas que desejavelmente vão alimentando o seu ciclo de vida, que se deseja sempre longo e cheio de sucesso. A Capital desapareceu há uns anos, mas a revista BLITZ continua a chegar todos os meses às bancas com números que se leem e que muitos certamente guardam. Mas eu acredito, seja jornal diário ou revista mensal, que é mesmo na memória é que estas publicações sobrevivem. E às vezes nem é precisa uma longa entrevista para fazer diferença. Basta um "Hello" ou "Hi" e um jornalista no lugar certo, à hora certa. Ou errada, se as estrelas decidirem chegar às 4 da manhã ao hotel, mas acho que percebem a ideia.
Crónica de Rui Miguel Abreu
Artistas de A a Z
¤ Rolling Stones
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