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Costumo dizer que tudo o que fiz profissionalmente para lá de escrever sobre música foi sempre - e é sempre - uma consequência natural da minha curiosidade: organizar concertos, editar discos ou produzir música foram experiências que me ajudaram a compreender melhor os mecanismos, tanto da arte como da indústria, e penso que hoje estou melhor equipado para abordar criticamente um álbum exatamente por entender no essencial como é que aquele objeto que nos chega às mãos foi gravado, lançado e promovido.
No início de 1995 tinha uma pequena loja de discos no Bairro Alto e colaborava em diversas frentes com a Valentim de Carvalho: produzia textos para programas de televisão como o aventureiro
Outras Margens
, um magazine cultural que já espreitava o mundo dos DJs e dos criadores de moda, e escrevia para a Voxpop, uma revista das lojas Valentim de Carvalho que divulgava as novidades em diversos géneros, da clássica ao rock.
Um convite de Francisco Vasconcelos, da Valentim de Carvalho, permitiu-me depois embarcar na aventura da NorteSul logo no momento zero. Este selo significou o regresso da Valentim à edição discográfica, atividade que tinha abandonado por alguns anos, entregando a exploração do seu histórico catálogo - que incluía nomes como Amália e Carlos Paredes, UHF e Rui Veloso, António Variações e GNR - à multinacional EMI, estabelecida em Portugal precisamente em parceria com a Valentim.
E de repente, sem ter procurado um lugar na indústria discográfica, cumpria um sonho antigo de trabalhar "do lado de lá" e fazer discos. Ainda por cima numa casa que eu me tinha habituado a "visitar" em muitos dos discos que tinha ouvido desde a adolescência. Uma honra, pensei eu. E uma responsabilidade tremenda.
A experiência na NorteSul - que se estendeu entre abril de 1995 e junho de 2001 - foi uma das mais marcantes do meu percurso profissional. Não fazia a mínima ideia de como fazer discos, de quais os passos fundamentais para encontrar uma banda, assinar contrato e colocá-la em estúdio. Não havia cursos capazes de orientar-me nessa atividade e só a fazer é que se aprendia.
De repente comecei a cruzar-me com nomes que me tinha habituado a conhecer das fichas técnicas dos discos: Pedro Vasconcelos, engenheiro em gravações dos GNR ou António Variações, Fernando Rascão, que entre tantas outras coisas gravou Xutos & Pontapés e Mão Morta, Amândio Bastos, nome que conhecia de gravações dos Pop Dell'Arte... A esses nomes, que me eram mais próximos, acrescentei depois os de Fernando Cortez e Hugo Ribeiro, duas referências do percurso da Valentim de Carvalho (na foto) - o primeiro "cortou" muito do vinil que me habituei a ouvir e o segundo gravou Amália, Paredes, Quarteto 1111 e Alfredo Marceneiro e dezenas de outros nomes cruciais da história da música portuguesa. Foram eles que me foram respondendo a perguntas que me ajudaram a entender melhor o mistério do som que se desprendia dos discos que todos os dias ouvia.
Esses seis anos de trabalho na Valentim de Carvalho permitiram-me fazer muitas coisas, como mergulhar nos arquivos de bobines de fita para organizar os dois volumes das compilações
Portugal Deluxe
ou fazer um levantamento das gravações que a Valentim realizou em Angola antes do 25 de Abril (gravações que ainda recentemente ajudaram a fazer o alinhamento de uma compilação de título
Angola Soundtrack
, lançada pela prestigiada Analog Africa a partir da Alemanha e aplaudida pela imprensa internacional).
Mais ainda: receber os Mind Da Gap em Lisboa para a gravação do primeiro EP, em 1995, e perceber que era possível uma banda ir para estúdio sem qualquer instrumento e apenas com um molho de discos para samplar debaixo do braço; estar em estúdio com os Cool Hipnoise no mesmo dia em que os Rolling Stones gravaram em Paço de Arcos; assistir a gravações de Adolfo Luxúria Canibal ou de JP Simões; ver Nick "Manasseh" a criar misturas dub em directo e de forma totalmente analógica; conversar com Joe Gore, músico de sessões de gente como PJ Harvey ou Tom Waits, e perceber que para ele era uma honra estar a gravar uma banda no mesmo sítio onde tantos discos de Amália tinham sido registados - "o Tom nem vai acreditar quando eu lhe contar", confessou-me ele na altura, referindo-se ao homem com quem gravou discos como
Bone Machine
ou
The Black Rider
...
As histórias são imensas e alguns dos episódios poderão até valer crónicas por si só, mas para mim tudo começou com a gravação de uma maquete dos Cool Hipnoise, a minha primeira "aposta" depois de ouvir uma cassete com uma gravação de um ensaio. A sessão decorreu num estúdio que já não existe, perto do que é hoje o Parque das Nações. Ver os músicos a prepararem-se, assistir às gravações e às misturas e finalmente carregar no "play" e recostar-me na cadeira para ouvir, juntamente com a banda, o resultado final equivalia a ver a música nascer. E eu vi muita música nascer.
Texto:
Rui Miguel Abreu
Foto:
Rita Carmo/Espanta Espíritos
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