Judas Priest ao vivo no Pavilhão Atlântico [texto + fotogaleria]
Banda de Rob Halford regressou em boa forma a Lisboa, mas teve à sua espera pouco público.
Anunciada como a derradeira digressão mundial dos Judas Priest, a Epitaph Tour passou por Portugal e, por incrível que possa parecer, acabou por atrair muito menos gente do que seria de esperar. Tenha sido a saída inesperada do guitarrista K. K. Downing pouco tempo antes do início desta campanha de despedida ou a crise económica e a abundância de concertos que se tem sentido nos últimos meses, a verdade é que o Pavilhão Atlântico registou uma afluência mesmo muito fraca para o que ocasião exigia.
O palco estava instalado sensivelmente a meio do recinto e, mesmo assim, circulava-se na perfeição na plateia. As bancadas, por seu lado, estavam constrangedoramente vazias. Uma situação estranha, quando se fala de uma banda mítica no espectro em que se move, um dos instigadores da New Wave Of British Heavy Metal, pioneiros de todo um género e uma das bandas mais influentes de que há memória no universo da música pesada.
Que o digam os Queensrÿche, banda de abertura da noite, em palco pontualmente às 20:00, também eles com nome feito e a sua pequena legião de fiéis. Protagonistas de uma carreira inconstante, sobretudo nos últimos anos, acabaram por revelar essa falta de solidez numa prestação curta, pautada por um som sem pujança e salva apenas pela sequência formada por "Jet City Woman" e "Empire".
Um pálido reflexo do que foram em tempos, estes norte-americanos, com um Geoff Tate tão embrenhado na sua pose de estrela do rock que se esqueceu que já tinha tocado por cá há dois anos e fez questão de dizer ao público que estava muito feliz que estar a pisar pela primeira vez um palco português. Uma gaffe, acentuada por uma prestação morna e sem chama.
O mesmo não se poderá dizer da banda da noite, que montou um espetáculo de som e luz digno do nome que carrega. O palco iluminado de vermelho e verde, durante "Blood Red Skies" e "The Green Manalishi (With The Two Pronged Crown)" respectivamente, funcionou muito bem, as projeções, demasiado simplistas, nem por isso.
No entanto, as duas horas e picos que fazem um espectáculo desta mais recente digressão dos Judas Priest são um festim de cabedal, tachas, capas prateadas, muitas trocas de roupa, fogo, fumo, chamas, lasers, tridentes de aço a cuspirem fagulhas e uma Harley Davidson em palco... E até houve direito ao incontornável momento Spinal Tap, com as acrobacias do baterista Scott Travis a correram sucessivamente mal durante as duas horas e picos que durou o concerto.
Já passavam alguns minutos das 21h30 quando a introdução "Battle Hymn" (um interlúdio de "Painkiller") soou através do P.A. e as imagens de uma siderurgia projectadas no fundo do palco transportaram a assistência para as raízes da banda com a declaração de intenções que é "Metal God" a dar início a um verdadeiro desfilar dos temas mais emblemáticos que gravaram durante a sua carreira.
Sem temas da fase "Ripper" Owens, à excepção das mais recentes "Judas Rising" e "Prophecy", mostrou ser um compêndio do essencial no que toca à banda de Birmingham. Da viagem a 1974 e ao disco de estreia que foi a obscura "Never Satisfied" a clássicos como "Victim Of Changes", "Night Crawler", "Turbo Lover", "Breaking The Law" (que Halford deixou o público cantar sozinho) ou "Painkiller", que contou com um pequeno solo de bateria no início, passando pelas versões muito bem personalizadas, que são ponto de passagem obrigatório nos concertos da banda, "Diamonds & Rust" e "The Green Manalishi (With The Two Pronged Crown" (dos Fleetwood Mac).
Apostado em despedir-se quando ainda lhe restam as forças necessárias para se afastar sem manchar a reputação, o quinteto britânico mostrou uma energia renovada e uma coisa ficou vincada desde cedo - os Judas Priest podem ter perdido recentemente um dos seus pilares, mas ninguém pode negar a força dos pulmões do "Metal God".
Rob Halford mostrou-se em muito melhor forma que da última vez que tinha passado por esta sala e os seus companheiros também não comprometeram, com destaque para o novato Richie Faulkner, um sósia de K.K. A nível físico, com o dobro da energia e técnica acima da média.
Se esta tiver sido efectivamente a última vez que o público português viu os Judas Priest em palco, pelo menos foi uma despedida em grande - nem faltou o encore triplo, composto por "Electric Eye", "Hell Bent For Leather" (com a imagem icónica que é Halford de braço esticado para o céu, indumentária S&M, montado numa mota), "You've Got Another Thing Comin'" e "Living After Midnight".
Alinhamento
*Battle Hymn
Rapid Fire
Metal Gods
Heading Out to the Highway
Judas Rising
Starbreaker
Victim of Changes
Never Satisfied
Diamonds & Rust
*Dawn of Creation
Prophecy
Night Crawler
Turbo Lover
Beyond the Realms of Death
The Sentinel
Blood Red Skies
The Green Manalishi (With the Two Pronged Crown)
Breaking the Law
Painkiller
Encore 1
:
*The Hellion
Electric Eye
Encore 2
:
Hell Bent for Leather
You've Got Another Thing Comin'
Encore 3
:
Living After Midnight
Texto:
José Miguel Rodrigues
Fotos:
Rita Carmo/Espanta Espíritos