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MusicBox, 22:00h e o ambiente na boémia rua do Cais do Sodré já fervilhava de nervosismo.
A fila para entrar formava-se, repleta de personagens dignos de figurarem em
Blade Runner
, chegando a dar a volta ao quarteirão à hora de abrirem as portas da Caixa de Música onde o equivalente a uma celebração de um culto religioso iria ocorrer.
Um público versátil albergando vários estilos góticos; metaleiros; cyber-punks; pin-ups produzidas como se fossem para uma sessão fotográfica; betos (!); freaks, enfim, um multigénero com um leque etário muito diversificado, fruto de uma já longa carreira de 18 anos convertendo almas a cada estação.
Sentia-se no ar o entusiasmo em volta do acontecimento:
- "Votei na Ultraviolência! Espero que toquem, f***-se!! Vou-me passar! Escolheste qual?...". - Perguntava um "Escumalha" (como se auto-intitulam os fãs mais dedicados que seguem fielmente a Locomotiva para todo o lado) envergando orgulhosamente uma das dezenas de T-Shirts da Bizarra Locomotiva presentes no local.
A sala ia-se compondo a conta-gotas devido à burocracia da segurança e da verificação das entradas, embora a Banda tivesse sugerido na sua página do FaceBook para adquirirem os bilhetes com antecedência.
De repente, na escuridão da sala passam pela pequena multidão uns vultos altos.
- "Olha, vão ali eles!" - disse uma apontando para a enorme crista multicolor dos elementos do colectivo Bizarro que se dirigiam ao camarim.
A "Escumalha" compactava-se junto ao palco e poucos minutos passados das 00:00h - hora marcada, apagam-se as luzes e surge no cenário o símbolo Bizarro em chamas.
Um bruá entusiasta levanta-se com aplausos e um ruídoso sub-grave ressoa aos ouvidos.
"A Fala Do Feto Com Cabeça De Cão Antes Do Aborto" - introdução usada na Tour do àlbum "Bestiário" faz as delícias de muitos presentes.
Eis que surgem os elementos em palco recebidos com ovação geral um a um até ao ganido nocturno.
1! 2! 3! 4! E solta-se o caos!
"Egodescentralizado" liberta toda a adrenalina das almas presentes acumulada na espera de quase duas horas por aquele precioso momento.
Moshpit furioso e côro em refrão revelam de imediato a loucura presente do que irá ser o prato da noite.
Desfilam os pedidos das últimas semanas com ordem surpresa à escolha da Banda, que ocultou desta vez as set-lists do palco para os "Escumalhas" mais atrevidos não irem espreitar.
A primeira grande surpresa da noite é "A Procissão dos Édipos" - Tema nunca antes tocado ao vivo.
As primeiras filas elevam as mãos à cabeça e fazem expressões de êxtase total, quase orgásmicas.
- "E tocam os sinos!" - Ouve-se em coro. O ambiente sinistro e pesado envolve a sala que se torna pequena para esta banda enorme. Os sinos do inferno soam aos tímpanos das 300 pessoas presentes no MusicBox com lotação esgotada, pela segunda vez consecutiva, na passagem da Bizarra Locomotiva pelo Cais Lisboeta.
Segunda surpresa da noite logo de arrombo: soam os dedilhados góticos de "Câmara Ardente" - do àlbum "Bestiário" de 1998 não tocada ao vivo hà mais de 10 anos. É a histeria total! A multidão salta em uníssono ao refrão de uma das mais pedidas da noite sussurrada sinistramente por Alpha - o homem das máquinas com visual extremo e cativante saído de um cenário pós-holocausto género
Mad Max
/
Predator
, lembrando também uns Sigue Sigue Sputnik dos anos 80, fazendo-se adorar pela quantidade de público feminino de aparência gótica e pin-up presente na sala.
Um dos momentos mais intensos foi sem dúvida em "Buraco Negro" onde num Moshpit em fúria, Rui Sidónio se lança num crowdsurf sobre a multidão sendo levado em braços em posição de Cristo na cruz até ao fundo da sala e voltando ao palco ainda pelas mãos dos presentes em delírio colectivo.
Um culto e dedicação não visto em mais nenhuma banda Portuguesa. que inocentemente não deve saber o tamanho da sua grandiosidade merecendo salas maiores e um reconhecimento maior por parte da imprensa e dos produtores de festivais para conseguirem subir a um próximo nível já hà muito não só merecido mas devido por direito.
Em "Engôdo" um coro soante relembrando concertos dos Iron Maiden onde o público canta em uníssono a melodia das músicas, leva as gargantas ao rubro seguidos de braços no ar em tom bélico marchante com "heys" saudosistas soltados a pleno pulmão ao ritmo de "O Anjo Exilado" - desta vez sem Fernando Ribeiro dos Moonspell que participou neste tema em Álbum Negro, acostumado a fazer aparições surpresa ao vivo com a Locomotiva. Diga-se de passagem que ninguém sentiu a sua falta.
As sonoridades de indústria pesada e mecânica de "Apêndiçes" libertam a "Escumalha" no seu hino homónimo em delírio total fazendo o Moshpit andar incansávelmente à roda.
- "Escumalha! São todos Escumalha! Apêndiçes humanos!" - gritam violentamente quando o microfone lhes passa alternadamente pelas guelas.
E eis que surge o clássico final das actuações Bizarras - "O Escaravelho", onde o carismático guitarrista-mutante-homem-animal marca o passar do tempo com o braço e eleva o expoente da actuação ao seu término neste Cais.
Cansados, mas sentindo que não ficava por ali o presentear, os chamamentos em côro trouxeram em palmas a Locomotiva de volta ao palco para mais umas jóias da corôa.
Rui Sidónio entra rastejando pelo palco repleto de restos de latex negro misturado com suor, ao som de "O Peixe Vermelho No Jardim Dos Suplícios", um sussurrar sensual aos ouvidos que deixou de certeza muitas das meninas presentes molhadas por baixo.
Seguiu-se o que ninguém estava à espera. "Ultraviolência" - tema do primeiro àlbum não tocado hà mais de 15 anos eleva as mãos ao céu de muitos dos presentes e sempre a subir de intensidade a ultraviolência culmina em "Coisa Morta" e uma sessão de noise experimental que encerraram a noite.
Apesar de pedirem mais uma volta, a Locomotiva seguiu viagem e a "Escumalha" abandonou a estação Musicbox mais que consolada ao som de Hip-Hop no P.A. (?!), dirigindo-se ao after-party Bizarro na discoteca Metropolis agendado para continuar a celebração da festa, mas não sem antes passar pela banca de merchandising oficial e levar mais um item para a colecção.
- "Foi a última! Já esgotou!" - dizia o responsável das T-shirts.
As letras das músicas todas na ponta da língua, suor e sorrisos no rosto, expressões de êxtase, cansaço e uma satisfação pós-orgásmica estampada na cara dos que tiveram a oportunidade de estarem presentes esta noite, demonstraram o culto a uma das melhores bandas Nacionais incrívelmente ignoradas pelos media e pelos produtores deste país.
O carisma e o talento são inatos. A Bizarra Locomotiva arrombou o Cais! Demonstraram ser grandes demais para a pequena Caixa de Música.
Hoje mereceram o céu.
E o Universo.
Paulo Fernandes
23.07.11
Foto: Pedro Almeida
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Posso dizer que adorei, tanto que quando eu sai do concerto comprei logo os 2 cd's que la estavam a vender.